Uma verdadeira viagem no tempo: caminhe pelas ruas de Glaura, vilarejo que alimentou a capital do ouro no passado

Quando a fome ameaçou esvaziar a então capital mineira, um pequeno povoado de roças surgiu para garantir que a cidade não ficasse sem comida

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
27/07/2026

No auge da exploração de ouro em Minas Gerais, milhares de pessoas chegaram a Vila Rica em busca de fortuna, mas pouco se falava em produzir alimentos. Foi justamente para resolver esse problema que surgiu um pequeno arraial dedicado à agricultura, hoje conhecido como Glaura, distrito de Ouro Preto que carrega em sua origem a função literal de alimentar a antiga capital do ouro.

Como a fome deu origem a esse vilarejo?

Segundo registros históricos, o povoado surgiu por volta de 1700, quando a região de Vila Rica e da então Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, atual Mariana, enfrentava um período conhecido como "flagelo da fome". Populações inteiras, movidas pela necessidade, dispersaram-se em busca de terras mais férteis para o plantio, dando origem a diversos arraiais voltados à agricultura.

Foi nesse contexto que nasceu o que se tornaria conhecido como Casa Branca, dedicado desde o início à produção de alimentos para abastecer a região mineradora. Outros povoados surgiram da mesma forma, movidos pela mesma necessidade urgente de alimentar quem vivia da mineração:

  • Cachoeira do Campo;

  • São Bartolomeu;

  • Acuruí, também chamado Rio de Pedras.

Por que o local também era ponto de passagem importante?

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, o arraial funcionou como local de descanso e abastecimento para tropeiros que faziam o comércio entre Sabará, Rio Acima, Nova Lima e Vila Rica. A posição estratégica, na confluência de caminhos que hoje integram a Estrada Real, transformou o pequeno povoado agrícola em ponto de parada obrigatório para viajantes que cruzavam aquela parte de Minas Gerais.

Um símbolo concreto dessa importância histórica é o chafariz de Dom Rodrigo, construído em 1782 por ordem do governador da época, ainda hoje preservado como referência do antigo caminho dos bandeirantes. Personagens ilustres também passaram por ali, incluindo Dom Pedro I, em 1830, e Dom Pedro II, que registrou em seu diário de viagem ter dormido uma noite no arraial em 1881.

De onde vem o nome atual do distrito?

O nome Glaura só passou a ser usado em 1943, quando a Câmara de Ouro Preto decidiu homenagear o poeta Manoel Inácio da Silva Alvarenga, nascido na própria cidade entre os anos de 1749 e 1814. Glaura é justamente o título de um poema de exaltação à natureza brasileira, escrito pelo arcadista que também teve participação ativa nos meios intelectuais e políticos do Rio de Janeiro de sua época.

Mesmo com a mudança oficial, boa parte da população segue chamando o distrito pelo nome original, Casa Branca, mantendo viva a memória da origem agrícola e religiosa do povoado. A atual Matriz de Santo Antônio, construída entre 1758 e 1764, substituiu uma capela ainda mais antiga, erguida já em 1719, sendo até hoje o principal ponto de referência arquitetônica do distrito.

Fachada da Igreja Matriz de Santo Antônio em Glaura, distrito de Ouro Preto
Fachada da Igreja Matriz de Santo Antônio em Glaura, distrito de Ouro Preto

Fachada da Igreja Matriz de Santo Antônio em Glaura, distrito de Ouro Preto - Foto: Igor Souza

Passaporte da Estrada Real diante da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Glaura
Passaporte da Estrada Real diante da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Glaura

Passaporte da Estrada Real diante da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Glaura - Foto: Igor Souza

Quais marcas desse passado ainda resistem nas ruas do distrito?

A decadência das minas de ouro na região, somada à escolha de outras rotas para o comércio, fez com que o arraial passasse por um longo período de estagnação, especialmente durante o século XIX. Esse isolamento, paradoxalmente, ajudou a preservar boa parte do conjunto histórico, mantendo o aspecto colonial das ruas e construções até os tempos atuais.

Diferente de Ouro Preto, marcada por ladeiras íngremes, o centro do distrito se destaca por ruas relativamente planas, calçadas com paralelepípedo, condição que reforça a sensação de caminhar por outra época: casario colonial concentrado ao redor da Matriz de Santo Antônio, antigas ruelas que levavam à Estrada Real de Sabará e construções em pedra que serviram de abrigo a viajantes e bandeirantes ao longo dos séculos.

A vocação agrícola da origem ainda se mantém viva hoje?

Sim, e de forma bastante concreta. A cerca de 26 quilômetros da sede do município, o distrito mantém uma produção constante de frutas durante o ano todo, resultando em doces caseiros bastante apreciados por quem visita a região, como compota e doce de leite.

A tradição artesanal também segue viva entre os moradores, com produtos variados que reforçam a identidade local construída ao longo de mais de três séculos:

  • Bordados e crochês feitos em linha e lã;

  • Peças trabalhadas em taquara;

  • Artigos confeccionados em couro;

  • Doces caseiros vendidos diretamente pelos produtores.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Vale a pena reservar um dia para conhecer esse vilarejo?

Sim, especialmente para quem busca um contraponto tranquilo ao movimento do centro histórico de Ouro Preto. A altitude de quase 1100 metros garante um clima fresco mesmo durante o verão, o que costuma surpreender visitantes que não esperam frio em pleno período de calor.

Caminhar pelas ruas planas desse distrito é, de certa forma, revisitar o papel que ele desempenhou séculos atrás: garantir que a fome nunca voltasse a ameaçar quem vivia da febre do ouro logo ali ao lado, em uma das antigas capitais mais importantes do Brasil colonial.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

Posts que você pode gostar

Todos os Direitos Reservados © 2024

Contato e parcerias: olharesporminasoficial@gmail.com