Uma promessa feita a uma santa depois de um encontro com uma onça deu origem à cidade mineira de Paraopeba

Um encontro perigoso com uma onça, ainda no período colonial, resultou numa promessa que deu origem a uma cidade inteira perto de Belo Horizonte

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
19/09/2026

Um encontro inesperado com uma onça no meio da mata mudou o rumo de toda uma região do interior de Minas Gerais. Segundo a tradição local, foi esse episódio que levou um antigo proprietário de terras a fazer uma promessa a Nossa Senhora do Carmo, dando origem à capela que, décadas depois, se transformaria na cidade de Paraopeba. Próxima a Belo Horizonte, essa cidade guarda até hoje curiosidades que atravessam gerações.

Um encontro com uma onça na mata deu origem à cidade de Paraopeba

A tradição local conta que o Coronel Marques, donatário da sesmaria da região, se deparou com uma onça em meio à mata e se viu completamente indefeso diante do animal. Como homem de fé católica, ele se ajoelhou e fez uma prece a Nossa Senhora do Carmo, prometendo construir uma capela em sua honra caso sua vida fosse poupada. A onça, segundo o relato, chegou a atacá-lo, mas o coronel sobreviveu e conseguiu se retirar são e salvo. O episódio reforçou ainda mais a devoção do coronel à santa, que já era cultuada por moradores da região.

Cumprindo a promessa feita naquele momento de perigo, o coronel voltou ao local tempos depois e mandou construir a capelinha dedicada a Nossa Senhora do Carmo, que se tornaria padroeira da futura cidade. Esse gesto, motivado pelo medo e pela fé, acabou sendo o ponto de partida de tudo o que Paraopeba viria a se tornar. A história, contada há gerações, ainda aparece em versos do hino oficial do município.

Como a capela virou o povoado conhecido como Tabuleiro Grande?

Assim que a capela ficou pronta, a localização se tornou ponto de passagem obrigatória para tropeiros que conduziam boiadas rumo ao sertão da Bahia. Aos poucos, casas foram surgindo ao redor da construção religiosa, dando início a um pequeno povoado. Dois elementos ajudam a explicar por que esse lugar recebeu o nome de Tabuleiro Grande:

  • O termo "tabuleiro", usado para descrever superfícies planas e elevadas do sertão;

  • A extensão da área, que justificava o complemento "Grande" no nome.

O povoado recebeu, então, o nome de Tabuleiro Grande de Nossa Senhora do Carmo, unindo a devoção religiosa às características geográficas do terreno. Essa combinação entre fé e paisagem marcaria a identidade do lugar por décadas, mesmo antes de qualquer organização administrativa formal. Foi esse pequeno núcleo populacional que, com o tempo, daria origem à cidade que conhecemos hoje.

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo com palmeiras ao redor em Paraopeba, MG
Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo com palmeiras ao redor em Paraopeba, MG

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo com palmeiras ao redor em Paraopeba, MG - Foto: Igor Souza

Chafariz cercado por palmeiras em praça no centro de Paraopeba, MG
Chafariz cercado por palmeiras em praça no centro de Paraopeba, MG

Chafariz cercado por palmeiras em praça no centro de Paraopeba, MG - Foto: Igor Souza

Por que o nome do município mudou até chegar a Paraopeba?

O caminho administrativo de Paraopeba passou por diferentes fases antes de chegar ao nome atual. Tabuleiro Grande foi elevado à condição de freguesia em 1840, ficando inicialmente subordinado ao município de Curvelo. Ainda naquele mesmo ano, a localidade foi transferida para o município de Sete Lagoas, onde permaneceria por 45 anos.

A emancipação política só aconteceu em 1911, quando o distrito se desmembrou de Sete Lagoas e se tornou município independente. A instalação solene aconteceu no ano seguinte, ainda sob o nome de Vila Paraopeba, inspirado no rio que corta a região. Alguns marcos ajudam a entender essa trajetória de mudanças administrativas e de nome:

  • Elevação a freguesia em 1840, subordinada a Curvelo;

  • Transferência para o município de Sete Lagoas, ainda em 1840;

  • Emancipação como município em 30 de agosto de 1911;

  • Nome definitivo de Paraopeba adotado a partir de 1931.

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Que tradições culturais completam a identidade da cidade hoje?

Além da lenda fundadora, Paraopeba mantém tradições culturais que remontam à época da escravidão no Brasil. O congado, por exemplo, segue vivo em grupos presentes no bairro Dom Bosco e nos povoados do Retiro e da Pontinha. Essa manifestação está diretamente ligada à devoção a Nossa Senhora do Rosário, historicamente associada a irmandades de escravos. Alguns elementos ajudam a resumir essa outra camada cultural da cidade:

  • Grupos de congado no bairro Dom Bosco e nos povoados do Retiro e da Pontinha;

  • A Capela de Nossa Senhora da Conceição, construção religiosa mais antiga da cidade;

  • A Festa do Quiabo e a Folia de Reis, citadas até no hino municipal.

A Capela de Nossa Senhora da Conceição, erguida ainda no final do século XIX, também compõe esse cenário, sendo tombada oficialmente pela prefeitura em 2015. Juntas, essas tradições mostram que a identidade de Paraopeba vai muito além da lenda que deu origem à cidade. Hoje, com cerca de 24.100 habitantes, o município mantém viva essa combinação entre fé, cultura popular e história.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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