Uma portuguesa mandou tirar a imagem de um santo do arraial e assim nasceu a cidade mineira de Gouveia

Uma artimanha envolvendo um santo, uma pedra e uma imagem sagrada deu origem a uma cidade inteira no interior mineiro, perto de Diamantina

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
13/10/2026

Uma pousada situada à beira do caminho que levava a garimpeiros até a região de Diamantina guarda a origem pouco comum da cidade de Gouveia. Foi ali que uma portuguesa arquitetou um plano para convencer moradores de um arraial a se mudarem para perto de sua propriedade. A estratégia envolvia um santo, uma imagem sagrada e uma pedra, elementos que até hoje aparecem na história dessa cidade do interior de Minas.

Uma artimanha de Dona Maria de Gouveia deu origem ao nome da cidade

Na época em que garimpeiros percorriam a região em busca de ouro e diamantes, uma portuguesa chamada Maria de Gouveia mantinha uma espécie de pensão num lugarejo conhecido como Arraial Velho. Devota de Santo Antônio, ela via com bons olhos a movimentação de viajantes que passavam por ali a caminho de Diamantina. Sua propriedade, porém, ficava um pouco distante do arraial onde os moradores realmente se concentravam. As primeiras lavras da região começaram a atrair moradores ainda por volta de 1715, dando os primeiros contornos ao povoamento.

Para resolver essa distância, Maria de Gouveia decidiu agir. Ela arquitetou um plano para transferir os moradores do Arraial Velho para as proximidades de sua própria fazenda, usando a fé do povo como principal ferramenta. Foi esse episódio que, mais tarde, batizaria a cidade com o sobrenome da própria idealizadora do plano.

Praça arborizada com monumento religioso, palmeiras e jardins no centro de Gouveia, MG
Praça arborizada com monumento religioso, palmeiras e jardins no centro de Gouveia, MG

Praça arborizada com monumento religioso, palmeiras e jardins no centro de Gouveia, MG - Foto: Igor Souza

Como o roubo da imagem de Santo Antônio convenceu o povoado a se mudar?

O plano de Maria de Gouveia envolvia a imagem de Santo Antônio, venerada pelos moradores do Arraial Velho. Durante a noite, enquanto o povoado dormia, ela mandava um de seus escravos retirar a imagem do local e levá-la até uma pedra saliente dentro de sua propriedade. No dia seguinte, espalhava-se a notícia de que o santo havia fugido sozinho durante a madrugada.

Essa manobra se repetiu diversas vezes, até que os moradores passaram a acreditar que Santo Antônio realmente desejava mudar de endereço. Convencido disso, o povo decidiu construir uma nova capela exatamente onde a imagem havia sido encontrada. Duas ações resumem essa estratégia que mudou o destino do povoado:

  • Retirada noturna e repetida da imagem de Santo Antônio;

  • Divulgação da história de que o santo fugia sozinho.

Casas históricas com fachadas coloridas e telhados de cerâmica em frente à Igreja Matriz de Gouveia
Casas históricas com fachadas coloridas e telhados de cerâmica em frente à Igreja Matriz de Gouveia

Casas históricas com fachadas coloridas e telhados de cerâmica em frente à Igreja Matriz de Gouveia, MG - Foto: Igor Souza

Que marcos de pedra contam essa história até hoje?

A pedra onde a imagem de Santo Antônio foi encontrada acabou se tornando parte da memória de Gouveia, assim como outras construções em pedra que marcam o centro da cidade. Um exemplo direto é a Igreja de Nossa Senhora das Dores, erguida ainda no século XVIII inteiramente em pedra, com mão de obra escrava. Alguns desses marcos ajudam a entender por que a pedra é tão presente na paisagem local:

  • A pedra onde a imagem de Santo Antônio foi deixada;

  • A Igreja de Nossa Senhora das Dores, construída em pedra no século XVIII;

  • A imagem de Nossa Senhora das Dores, que pertenceu a Chica da Silva;

  • A Matriz de Santo Antônio, erguida no local do novo arraial.

Esses marcos de pedra formam um roteiro simples, mas direto, para quem quer entender a origem religiosa de Gouveia. A presença de mão de obra escrava na construção também lembra um capítulo importante e doloroso dessa história. Ainda hoje, esses pontos seguem de pé no centro da cidade, praticamente inalterados.

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O que mais aproxima Gouveia da natureza da Serra do Espinhaço?

Além da história ligada à fé, Gouveia está encravada na Serra do Espinhaço Meridional, com montanhas que ultrapassam 1.200 metros de altitude. Trilhas, picos e formações de pedra fazem parte da paisagem, atraindo quem busca caminhadas, cavalgadas e passeios de bicicleta. A região também integra o Circuito Turístico dos Diamantes, que reúne cidades ligadas à história da mineração em Minas Gerais. O município fica no Vale do Jequitinhonha, a cerca de 252 quilômetros de Belo Horizonte, e soma pouco mais de 11 mil habitantes, segundo o Censo de 2022.

Entre as belezas naturais da região, as cachoeiras se destacam como um dos principais atrativos para quem visita Gouveia. Somadas às cidades vizinhas do circuito, a região soma quase 400 cachoeiras catalogadas, entre grandes quedas e poços menores. Algumas delas ficam relativamente próximas do centro da cidade:

  • Cachoeira do Barão, formada pelas águas do Capão;

  • Cachoeira de São Roberto, próxima à antiga vila operária;

  • Cachoeira da Capivara, a cerca de 40 quilômetros do centro.

Interior da Igreja Matriz de Gouveia, MG, com bancos de madeira, vitrais coloridos e altar ao fundo
Interior da Igreja Matriz de Gouveia, MG, com bancos de madeira, vitrais coloridos e altar ao fundo

Interior da Igreja Matriz de Gouveia, MG, com bancos de madeira, vitrais coloridos e altar ao fundo - Foto: Igor Souza

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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