Uma lei federal de 2024 transformou a Resende Costa com 11 mil habitantes na capital do artesanato têxtil
Uma cidade de 11 mil habitantes recebeu, por lei federal, um título que reconhece séculos de tradição em tear e agulha
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
20/10/2025
Em julho de 2024, uma cidade do Campo das Vertentes com pouco mais de 11 mil moradores ganhou um título nacional. Resende Costa virou, por lei, a Capital Nacional do Artesanato Têxtil, reconhecimento de uma tradição de teares que atravessa gerações dentro das casas da cidade.
O que diz a lei que deu o título à cidade?
A Lei 14.929 foi sancionada sem vetos em 22 de julho de 2024 e publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte. O texto nasceu do Projeto de Lei 3.183/2023, da deputada federal Ana Pimentel, e foi aprovado em decisão final pela Comissão de Educação do Senado.
A justificativa do projeto destacou o peso do artesanato na economia e na vida da cidade. Alguns números ajudam a entender por que Resende Costa recebeu o título:
cerca de 80 lojas especializadas em peças feitas em tear manual;
cerca de 70% da população vive direta ou indiretamente do artesanato, segundo a prefeitura;
o saber da tecelagem é patrimônio imaterial do município desde 2016;
a tradição dos teares remonta ao século 18.
Onde fica Resende Costa?
A cidade fica no Campo das Vertentes e tinha 11.230 moradores no Censo de 2022. Está perto de dois destinos históricos bem conhecidos, o que facilita encaixar a visita no mesmo roteiro:
cerca de 36 km de São João del-Rei;
cerca de 41 km de Tiradentes;
cerca de 186 km de Belo Horizonte.
O município também tem o distrito de Jacarandira e o Povoado dos Pintos, a cerca de 12 km da sede. Foi nos Pintos que a tecelagem se manteve viva por mais tempo, passada de mãe para filha.
Como a tecelagem chegou à cidade?
A tecelagem chegou com os portugueses no século 18 ao Povoado dos Pintos, junto com os primeiros teares. No fim daquele século, mulheres das primeiras famílias já teciam roupas e cobertores em casa.
Por muito tempo, o processo era todo manual e acontecia dentro das casas, da lavoura até a peça pronta. A produção seguia estas etapas:
colheita do algodão e retirada dos caroços;
fiação na roca e na roda de fiar;
tingimento dos fios com plantas colhidas no campo;
tecelagem em teares de madeira, pesados e herdados da família.


Redes coloridas penduradas em varanda de madeira, com jardim e área de descanso em Oliveira, MG - Foto: Igor Souza


Fachada da Igreja Matriz de Resende Costa, MG, com torre central, relógio e arquitetura colonial - Foto: Igor Souza
Do retalho à vitrine: como o artesanato mudou
Entre as décadas de 1960 e 1970, o retalho comprado de malharias e fábricas da região virou a principal matéria-prima. A partir de 1995, ele passou a chegar já picado, em formato de corda, pronto para ir ao tear.
As primeiras lojas surgiram em 1975, e o número cresceu com força nos anos 1990, puxado pelo turismo em São João del-Rei e Tiradentes. Hoje, as vitrines reúnem peças como:
colchas e mantas;
tapetes e jogos de banheiro;
almofadas e capas de sofá;
toalhas de mesa e cortinas.
Por que a cidade cresceu longe do ouro?
Resende Costa surgiu como a antiga Vila de Nossa Senhora da Penha de França da Lage, no alto de um penhasco, na primeira metade do século 18. Ao contrário de outras cidades mineiras, não teve exploração de ouro, e a vida girava em torno da pecuária, do comércio e da tecelagem.
O nome homenageia José de Resende Costa, o filho, que participou da Inconfidência Mineira com o pai. Os dois foram degredados para a África, e o filho voltou depois ao Brasil, onde foi deputado na primeira Assembleia Constituinte. Os principais marcos da cidade são:
1749: construção da primeira capela, onde hoje fica a Matriz;
1840: a localidade vira paróquia e distrito;
1911: lei estadual cria a Vila de Resende Costa;
1912: instalação oficial do município;
1923: o nome é encurtado para Resende Costa.
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O que visitar além das lojas?
As lojas se concentram na Avenida Alfredo Penido, e algumas mantêm teares, rodas de fiar e outros instrumentos à mostra. Vale estacionar o carro, percorrer a avenida a pé e comparar preços antes de comprar.
A cidade também guarda pontos que combinam história e paisagem. As estátuas de lagartixa espalhadas pelas ruas lembram as lajes de pedra sobre as quais Resende Costa foi construída. Entre os passeios, estão:
a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, no centro histórico;
o Mirante das Lajes, com vista para a região no fim de tarde;
o Povoado dos Pintos, para quem gosta de turismo rural;
a festa da padroeira, em agosto, com procissões e missas.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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