Uma estação de trem centenária, sem nenhum passageiro desde 1996, ainda resiste de pé a 20 km do centro de Carrancas

Um prédio ferroviário do início do século 20 segue de pé sozinho, a 20 km do centro, sem receber um único passageiro desde 1996. Veja a história por trás dele

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
10/08/2026

Não circula um trem de passageiros por ali desde 1996, mas o prédio da antiga Estação Carrancas segue exatamente onde foi erguido, a cerca de 20 quilômetros do centro da cidade que leva o mesmo nome. As paredes resistiram ao tempo, ao abandono e à mudança completa na forma como o interior de Minas Gerais se locomove. A construção faz parte da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas, uma das linhas que ajudaram a formar povoados por todo o estado.

Onde fica a estação abandonada e como ela surgiu?

O distrito de Estação Carrancas nasceu no fim do século XIX, quando o trecho da Estrada de Ferro Oeste de Minas passava pela região a caminho de Barra Mansa, no Rio de Janeiro. As locomotivas a vapor da época precisavam de abastecimento constante de água e lenha, e o local funcionava como ponto de parada obrigatório para os trabalhadores responsáveis pela manutenção dos trens.

Aos poucos, o pouso ferroviário deu lugar a um pequeno povoado. Surgiram as primeiras casas e uma capela dedicada a São Sebastião, formando a base do distrito que existe até hoje. O prédio da estação foi inaugurado em 14 de dezembro de 1903, alguns anos depois da chegada dos primeiros trabalhadores à região:

  • as casas dos primeiros moradores, erguidas ao redor do pouso ferroviário;

  • a capela de São Sebastião, construída ainda no século XIX;

  • o prédio da estação, inaugurado em 1903;

  • o reservatório usado para abastecer as locomotivas a vapor.

Antiga estação ferroviária de Carrancas ao lado dos trilhos, sob céu azul, em Carrancas, MG
Antiga estação ferroviária de Carrancas ao lado dos trilhos, sob céu azul, em Carrancas, MG

Antiga estação ferroviária de Carrancas ao lado dos trilhos, sob céu azul, em Carrancas, MG - Foto: Igor Souza

Por que o trem deixou de circular por ali?

A linha que passa por Estação Carrancas fazia parte de um sistema maior, batizado de Rede Mineira de Viação, que conectava o sul de Goiás ao litoral do Rio de Janeiro passando por Barra Mansa. Durante décadas, o trajeto transportou passageiros e cargas, com trechos eletrificados entre Barra Mansa e Ribeirão Vermelho.

O transporte de passageiros começou a ser reduzido ainda no início dos anos 1990 e foi extinto em praticamente toda a malha ferroviária de Minas Gerais em 1996, período em que o setor passou por privatização e reorganização em redes regionais de carga. Desde então, os trilhos que cruzam Estação Carrancas são usados exclusivamente para transporte de mercadorias.

O prédio da estação resiste de pé até hoje

Mesmo sem função original, a construção permanece no mesmo lugar onde foi erguida, cercada por um silêncio que substituiu o barulho constante das locomotivas. O trecho da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1989, reconhecimento que ajuda a justificar a permanência física de estações como essa pelo interior do estado.

A paisagem ao redor mudou menos do que se poderia esperar depois de quase três décadas sem trens de passageiros. Quem visita o distrito hoje ainda encontra vestígios diretos daquele período, entre eles:

  • os trilhos originais, ainda visíveis ao longo do trajeto;

  • o prédio histórico da estação;

  • o casario simples que resultou do antigo povoado ferroviário.

Fachada histórica da Estação Ferroviária de Carrancas diante dos trilhos, em Carrancas, MG
Fachada histórica da Estação Ferroviária de Carrancas diante dos trilhos, em Carrancas, MG

Fachada histórica da Estação Ferroviária de Carrancas diante dos trilhos, em Carrancas, MG - Foto: Igor Souza

O que encontrar ao visitar essa região de Carrancas?

O acesso até o distrito de Estação Carrancas é feito por estrada rural, em um trajeto que atravessa parte da paisagem que também compõe a Estrada Real, antigo caminho de ligação entre Ouro Preto e Paraty durante o ciclo do ouro. A região mantém o ritmo tranquilo típico de povoados pequenos afastados do centro urbano.

Não existe estrutura turística formal montada especificamente em torno da estação, o que reforça o caráter de descoberta para quem chega até lá. O contraste entre o isolamento atual e a movimentação que o local já teve, quando dependia da passagem constante de trens, é o que mais chama atenção de visitantes interessados em história ferroviária.

+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino

Vale a pena conhecer Carrancas além da estação?

A cidade de Carrancas foi fundada por volta de 1720, quando bandeirantes vindos de São Paulo e de Taubaté se instalaram às margens do Rio Grande durante o ciclo do ouro. A paróquia foi criada em 1736, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, construída em pedra maciça no mesmo período, segue como um dos principais registros arquitetônicos daquela época.

Além do valor histórico, o município reúne mais de 110 atrativos naturais entre serras, grutas, poços e cachoeiras. Entre os pontos mais procurados por quem visita a região estão:

  • a Cachoeira da Fumaça, com 22 metros de queda e cartão-postal da cidade;

  • a Cachoeira do Véu da Noiva, com 32 metros de altura;

  • o Cânion do Paredão e o Cânion da Canoa;

  • o Cânion da Racha da Zilda;

  • as pinturas rupestres encontradas em pontos da região.

Passaporte turístico da Serra das Cachoeiras diante da Igreja Matriz de Carrancas, MG
Passaporte turístico da Serra das Cachoeiras diante da Igreja Matriz de Carrancas, MG

Passaporte turístico da Serra das Cachoeiras diante da Igreja Matriz de Carrancas, MG - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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