Uma das maiores naves de igreja de Minas Gerais fica na Praça Sete de Setembro, em Congonhas

Uma igreja do século 18 sem colunas internas, capaz de receber mais de 2 mil pessoas, revelou ferramentas antigas durante a restauração

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
31/10/2026

Em dias de missa grande, mais de 2 mil pessoas cabem dentro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Congonhas. A igreja do século 18 fica na Praça Sete de Setembro, no centro da cidade mineira, e tem uma das naves mais espaçosas de todo o estado.

Qual é o tamanho da nave da Matriz?

A nave está entre as mais espaçosas das igrejas mineiras do século 18. Ela forma um corpo único, sem corredores laterais, e na reabertura de 2017 o pároco Paulo Barbosa a definiu como a maior igreja barroca sem colunas do século 18.

Sem colunas no meio, a nave fica livre de ponta a ponta, e o olhar segue direto até o altar. Entre os elementos que acompanham esse grande espaço e ajudam a entender sua construção, estão:

  • o forro de madeira em formato de gamela;

  • o piso de tábuas corridas;

  • a talha em madeira;

  • os altares laterais, construídos em épocas diferentes, alguns provavelmente vindos da matriz primitiva;

  • a balaustrada de jacarandá.

O que a restauração revelou?

As obras concluídas em 2017 foram a primeira restauração da Matriz desde a sua construção. Elas duraram um ano e sete meses e trouxeram mudanças e descobertas importantes para a história da igreja, como:

  • a recuperação da estrutura base da construção;

  • o restauro dos elementos artísticos, entre eles o retábulo-mor, o coro, o arco-cruzeiro e quatro altares;

  • a retirada de repinturas feitas depois no altar-mor;

  • a volta de boa parte da pintura original;

  • a descoberta de dois malhos e uma verruma no arco-cruzeiro;

  • indícios de que as ferramentas eram da equipe do entalhador Francisco Vieira Servas.

A igreja foi reaberta em 30 de março de 2017, depois de ficar fechada desde agosto de 2015. O trabalho, com cerca de R$ 1,4 milhão do PAC Cidades Históricas, uniu governo federal, Iphan, prefeitura e Igreja, e devolveu ao prédio suas características físicas e mecânicas.

Quem deixou as ferramentas escondidas no arco-cruzeiro?

As ferramentas apareceram quando a equipe removia o revestimento do arco-cruzeiro. Os dois malhos de madeira estavam do lado esquerdo de quem olha para o altar, e a verruma de ferro, usada para furar madeira, do lado direito. Não havia sinal de violação, e a hipótese mais aceita é que um oficial as tenha esquecido ali ao terminar o serviço, ainda no século 18.

Tudo aponta para a equipe de Francisco Vieira Servas, entalhador português que viveu entre 1720 e 1811, embora nenhum documento comprove sua presença na obra. A atribuição vem da comparação com outros trabalhos dele, e alguns fatos ajudam a dimensionar a importância desse nome no barroco mineiro:

  • foi contemporâneo de Aleijadinho e especialista em imagens e ornatos;

  • venceu o próprio Aleijadinho na disputa pelos altares da Igreja do Carmo, em Sabará;

  • tem talha atribuída a ele no retábulo-mor e no arco-cruzeiro da Matriz;

  • também deixou obras no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.

Vista da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição no centro de Congonhas, MG
Vista da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição no centro de Congonhas, MG

Vista da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição no centro de Congonhas, MG - Foto: Igor Souza

Detalhes da fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Congonhas, MG
Detalhes da fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Congonhas, MG

Detalhes da fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Congonhas, MG - Foto: Igor Souza

A capela-mor tem a marca da família Lisboa

O douramento da capela-mor e da tribuna, de 1764, é atribuído a Manoel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. Na restauração, a talha do retábulo-mor, também ligada a Vieira Servas, voltou a exibir boa parte da pintura original.

Na fachada, a portada de pedra-sabão com a Arca de Noé e a Pomba Imaculada, símbolos ligados a Nossa Senhora, é atribuída ao próprio Aleijadinho. Pai e filho, assim, aparecem ligados à mesma igreja, um na entrada e outro no altar.

Como a igreja nasceu?

Conta a tradição local que os alicerces foram feitos quase em um único dia, contra as ordens do governador da província. A história oficial da Matriz passa por algumas datas importantes, registradas nos documentos da igreja e do patrimônio:

  • 1734: criação da vigaria por decreto real, em 12 de fevereiro;

  • 1735: construção da igreja, sem autorização da Coroa;

  • 1749: elevação à categoria de igreja, em 6 de novembro;

  • 1764: douramento da capela-mor e da tribuna;

  • 1950: tombamento pelo Iphan.

Na reabertura, o padre Paulo lembrou que a Matriz completa a representação da Sagrada Família em Congonhas e que foi dali que se originou a tradição da Semana Santa na cidade.

Como visitar a Matriz da Praça Sete de Setembro?

A igreja fica no centro de Congonhas, a cerca de 90 km de Belo Horizonte pela BR-040. Ela pertence à Arquidiocese de Mariana e continua sendo usada para as celebrações religiosas.

A entrada é gratuita, mas não há visitas guiadas nem estacionamento próprio. O acesso para cadeira de rodas também é limitado, o que vale considerar antes da viagem.

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A praça fica perto de outras belezas mineiras

A Matriz é só uma das paradas de quem visita esta cidade mineira de mais de 50 mil moradores. Na mesma viagem, o roteiro pode seguir por outros templos que ajudam a contar a história de Congonhas, como:

  • o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Patrimônio Mundial desde 1985;

  • a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, reaberta em 2016 depois de restaurada;

  • a Igreja de São José, com obras iniciadas em 1817.

No Santuário estão os 12 profetas de pedra-sabão esculpidos por Aleijadinho. Quem tiver mais tempo pode combinar a visita com as belezas naturais da região.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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