Tombada pelo IPHAN em 1938, Tiradentes se tornou um dos primeiros núcleos urbanos protegidos do Brasil
Uma das primeiras cidades protegidas do país guarda igreja com fachada de Aleijadinho, órgão de 1788 e trem a vapor. Veja o que o tombamento manteve de pé
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
27/09/2026
Menos de cinco meses depois de o país ganhar sua primeira lei de proteção ao patrimônio, Tiradentes já estava inscrita no Livro do Tombo. O registro, feito em 20 de abril de 1938, colocou a antiga Vila de São José entre os primeiros conjuntos urbanos preservados do Brasil. Quase nove décadas depois, andar pelo centro histórico de Tiradentes é ver na prática o que essa decisão conseguiu manter de pé.
O que o tombamento de 1938 protegeu, de fato?
O processo recebeu o número 66-T-1938 e foi inscrito no Livro do Tombo das Belas Artes. Não se tratava de proteger um prédio isolado, mas o conjunto arquitetônico e urbanístico inteiro, com ruas, largos, casas e igrejas do século 18. Olhar para a cidade como um todo era uma escolha nova para a época.
O órgão responsável ainda se chamava SPHAN. Ele foi criado pelo Decreto-Lei nº 25, de novembro de 1937, e mais tarde daria origem ao IPHAN. Na descrição oficial, o patrimônio histórico de Tiradentes reúne construções setecentistas de três tipos:
Religiosas, como a Matriz de Santo Antônio e as igrejas menores;
Civis, com casas térreas de linhas simples e telhado de duas águas;
Oficiais, em prédios de dois pavimentos, como os da prefeitura e do fórum.


Casarões coloniais e rua de pedra no centro histórico de Tiradentes, MG, sob céu azul ensolarado - Foto: Igor Souza
A história da cidade começa com o ouro de 1702
Antes de ter nome de herói, Tiradentes foi arraial de mineração. O ouro encontrado por João de Siqueira Afonso em 1702 atraiu gente e dinheiro para a região. Alguns marcos ajudam a entender o traçado que o IPHAN decidiu preservar:
1702: descoberta do ouro e formação do Arraial Velho de Santo Antônio;
1718: elevação a vila, com o nome de São José;
1860: elevação à categoria de cidade;
1889: mudança de nome para Tiradentes, em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier.
A troca de nome veio logo após a Proclamação da República, por decreto estadual de 6 de dezembro de 1889. A homenagem tinha peso político para o novo regime, que fez do inconfidente um símbolo nacional. O casario que o visitante encontra hoje, porém, é quase todo do período anterior, quando a vila ainda se chamava São José.
Por que a Matriz de Santo Antônio é o ponto alto da visita?
As obras da igreja começaram em 1710, para substituir uma capela mais antiga, e se estenderam por décadas. O altar de São Miguel e Almas foi dourado em 1732. Segundo o próprio IPHAN, a talha dourada do interior faz da Matriz um dos principais exemplos da arquitetura barroca em Minas Gerais.
Entre 1807 e 1810, toda a fachada foi refeita em traçado rococó encomendado a Aleijadinho, que também esculpiu a moldura em pedra da porta principal. Lá dentro, outro destaque é o órgão trazido do Porto, em Portugal, e instalado em 1788. O IPHAN o aponta como único em Minas Gerais.


Igreja Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, MG, com fachada branca e detalhes dourados - Foto: Igor Souza
O que mais o centro histórico guarda além da Matriz?
A poucos minutos a pé da igreja, o Chafariz de São José mostra outro lado da vida colonial. Construído pela Câmara em 1749, ele abastecia a população da vila. Hoje é parada comum de quem percorre as ruas de pedra do centro.
O Museu Casa do Padre Toledo, instalado em uma residência do século 18, lembra a ligação da cidade com a Inconfidência Mineira. Para montar um roteiro a pé pelo núcleo tombado, vale incluir:
Chafariz de São José;
Museu Casa do Padre Toledo;
Igreja de Nossa Senhora do Rosário;
Igreja de Nossa Senhora das Mercês;
Igreja de São João Evangelista.
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Como a Maria Fumaça liga Tiradentes a outra cidade tombada?
A ferrovia foi inaugurada em 28 de agosto de 1881, em cerimônia com a presença de Dom Pedro II. O trem percorre 12 quilômetros até São João del-Rei em bitola de 76 centímetros, uma medida estreita e pouco comum. A viagem leva de 35 a 40 minutos.
O passeio junta duas das cidades históricas de Minas Gerais que cresceram lado a lado no ciclo do ouro. O tombamento de 1938 não congelou Tiradentes, mas fez com que as mudanças respeitassem o que já existia. Por isso, mesmo com restaurantes, pousadas e a Mostra de Cinema, realizada desde 1998, o desenho da antiga vila segue fácil de ler.


Chafariz de São José, monumento histórico cercado por área verde em Tiradentes, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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