Serro foi a primeira cidade do Brasil tombada pelo IPHAN, em 1938, e ainda guarda casarões e igrejas do século 18 em Minas Gerais

Enquanto outras cidades históricas de Minas ganhavam estradas de ferro, essa aqui ficou isolada — e foi exatamente isso que preservou seu casario colonial intacto

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
14/08/2026

O Brasil só criou seu órgão de proteção ao patrimônio histórico em 1937. Um ano depois, o Iphan escolheu a primeira cidade do país para receber essa proteção — e a escolha não recaiu sobre Ouro Preto ou Salvador, mas sobre um núcleo de mineração isolado no norte de Minas Gerais. A cerca de 227 km de Belo Horizonte, Serro guarda desde então um conjunto de casarões e igrejas que atravessou o século 18 quase intacto, sem nunca ter sido tocado por reformas urbanas de grande escala.

Serro nasceu no auge da corrida pelo ouro no Serro do Frio

O povoamento começou em 1702, quando surgiu o arraial do Ribeirão das Minas de Santo Antônio do Bom Retiro do Serro do Frio, atraído pelas primeiras descobertas de ouro na região. O nome extenso refletia a topografia do lugar, cercado por serras que davam frio às noites mesmo em pleno ciclo do ouro — nome que também batizou toda a comarca aurífera vizinha.

Em 1714, o arraial foi elevado à condição de vila e recebeu um novo nome, Vila do Príncipe. A produção aurífera sustentou o crescimento da região durante décadas, atraindo comerciantes, artistas e ordens religiosas que ergueram boa parte do patrimônio ainda visível hoje.

Igreja histórica cercada por palmeiras no centro de Serro, MG, sob céu azul
Igreja histórica cercada por palmeiras no centro de Serro, MG, sob céu azul

Igreja histórica cercada por palmeiras no centro de Serro, MG, sob céu azul - Foto: Igor Souza

Por que o Iphan tombou Serro logo em 1938?

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional foi criado em 1937, e Serro entrou na mira do órgão quase de imediato. Em 8 de abril de 1938, o conjunto arquitetônico e paisagístico da cidade foi tombado por meio do processo nº 65-T-38, com inscrição no Livro de Belas-Artes sob o número 25, tornando-se o primeiro tombamento urbano do país.

O isolamento geográfico ajudou a preservar esse patrimônio. Diferente de outras cidades históricas de Minas, Serro nunca foi incorporado à malha ferroviária, o que atrasou a chegada de reformas urbanas e novas técnicas construtivas. O resultado é um centro histórico que manteve ruas de paralelepípedo e fachadas coloniais praticamente sem alterações até os dias de hoje.

Quais igrejas resistem no centro histórico?

O barroco mineiro tomou conta de Serro ao longo do século 18, período em que boa parte das igrejas do centro histórico foi erguida. Mestres locais contribuíram com a talha dourada e os altares que decoram o interior desses templos.

Passear pelo centro da cidade significa esbarrar em pelo menos cinco templos que resumem esse período:

  • Matriz de Nossa Senhora da Conceição, de 1713;

  • Igreja de Nossa Senhora do Carmo, de 1768, com altares em estilo rococó banhados a ouro;

  • Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de 1759, com o sino original exposto na entrada;

  • Igreja Bom Jesus de Matozinhos, de 1781;

  • Igreja de Santa Rita, erguida no século 18 no ponto mais alto do centro histórico.

Igreja de Santa Rita no alto de escadaria de pedra cercada por jardins em Serro, MG
Igreja de Santa Rita no alto de escadaria de pedra cercada por jardins em Serro, MG

Igreja de Santa Rita no alto de escadaria de pedra cercada por jardins em Serro, MG - Foto: Igor Souza

O queijo também é patrimônio em Serro?

Além do conjunto arquitetônico, Serro guarda outro tipo de patrimônio, este ligado à tradição culinária. O queijo artesanal produzido na região segue uma receita transmitida entre gerações de produtores, com técnicas que remontam ao período colonial e ao leite cru das fazendas locais. O processo de cura usa o chamado pingo, um fermento natural repassado entre gerações de produtores, responsável pelo sabor característico do queijo.

Esse reconhecimento veio em etapas e consolidou o queijo do Serro como referência nacional dentro da culinária tradicional mineira, ao lado do próprio conjunto histórico da cidade:

  • 2002: reconhecimento como patrimônio imaterial de Minas Gerais

  • 2008: registro pelo Iphan como o primeiro patrimônio imaterial de origem alimentar do Brasil

+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino

Vale a pena conhecer Serro hoje?

O centro histórico concentra boa parte do que vale visitar, com destaque para o prédio da prefeitura, erguido no século 19 e considerado um dos maiores exemplares de arquitetura colonial do estado. O Museu Casa dos Otoni, instalado em um antigo casarão que fica a poucos passos da praça principal, reúne mobiliário e objetos que contam a rotina das famílias que enriqueceram com a mineração.

Fora do núcleo urbano, a região ainda oferece opções para quem quer unir história e natureza:

  • cachoeiras e piscinas naturais espalhadas pelos arredores

  • trilhas de acesso ao Parque Estadual do Pico do Itambé

  • trechos preservados da Estrada Real, antiga rota de escoamento do ouro

Fachada de igreja histórica com detalhes vermelhos e jardins bem cuidados em Serro, MG
Fachada de igreja histórica com detalhes vermelhos e jardins bem cuidados em Serro, MG

Fachada de igreja histórica com detalhes vermelhos e jardins bem cuidados em Serro, MG - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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