Serro é o berço de um dos queijos mais famosos do Brasil (e você precisa provar)

Uma pequena cidade do interior de Minas guarda, há trezentos anos, a receita de um dos queijos mais respeitados e premiados do país

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
06/10/2026

Trezentos anos. É esse o tempo que uma pequena cidade do interior de Minas Gerais leva guardando, quase sem mudanças, a receita de um dos queijos mais respeitados do Brasil. Serro, antiga Vila do Príncipe e sede da Comarca do Serro Frio, nasceu do ouro no século XVIII, mas foi o leite das fazendas ao redor que garantiu sua fama duradoura. Hoje, entre montanhas e histórias de garimpo, a cidade segue produzindo esse queijo do jeito que sempre fez — e vale a viagem só para provar.

Uma receita trazida de Portugal

Portugueses trouxeram essa receita. No século XVIII, imigrantes vindos da região da Serra da Estrela, em Portugal, chegaram ao Serro carregando um conhecimento antigo sobre como fazer queijo com leite cru. A técnica logo se misturou às condições daqui: clima, altitude e um jeito próprio de fazer as coisas. Nada muito diferente do que aconteceu com outras receitas europeias que atravessaram o Atlântico durante o período colonial.

O resultado foi diferente do que se via em Portugal. Documentos do período colonial mostram que o queijo já circulava como produto estratégico dentro dos garimpos de ouro e diamantes da região. Já em 1820, o viajante francês Saint-Hilaire registrava a força da tradição pecuária da então Comarca do Serro Frio — sinal de que a fama do produto já se espalhava.

Queijos artesanais maturando em prateleiras de madeira no município de Serro, MG
Queijos artesanais maturando em prateleiras de madeira no município de Serro, MG

Queijos artesanais maturando em prateleiras de madeira no município de Serro, MG - Foto: Igor Souza

Por que o pingo faz toda a diferença nesse queijo?

Chama-se pingo, e é o coração da receita. Trata-se de um fermento natural: o soro que escorre dos queijos já salgados da produção anterior, coletado e reaproveitado na fabricação seguinte, sem uso de fermentos industriais. Cada fazenda tem o seu, carregado de bactérias lácteas próprias daquele ambiente, e ele é responsável por:

  • Preservar a microbiota original do leite;

  • Dar acidez leve e característica ao queijo;

  • Garantir identidade única a cada fazenda produtora;

  • Substituir qualquer fermento artificial no processo;

  • Conectar cada queijo diretamente ao terroir da região.

Depois de pronto, o queijo passa pela cura, feita tradicionalmente em prateleiras de madeira, à temperatura ambiente, por no mínimo 17 dias, como exige a regulamentação. Nesse período, a casca é lavada e raspada periodicamente e ganha tom amarelado, enquanto a massa interna segue macia. Cada peça pesa, em média, entre 700 gramas e pouco mais de um quilo.

Queijos artesanais maturados empilhados com casca rústica e aparência tradicional de Serro
Queijos artesanais maturados empilhados com casca rústica e aparência tradicional de Serro

Queijos artesanais maturados empilhados com casca rústica e aparência tradicional no município de Serro - Foto: Igor Souza

Como o Queijo do Serro virou patrimônio do Brasil?

Reconhecimento oficial não veio rápido, mas veio consistente. Em 2002, o modo de fazer o Queijo do Serro foi registrado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais como patrimônio imaterial — apontado como o primeiro bem cultural do país a receber esse tipo de proteção. Até hoje, esse título costuma ser citado como referência sempre que se fala em preservação de saberes tradicionais no Brasil.

Seis anos depois, em 2008, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional repetiu o gesto em nível federal. Em 2022, o Conselho Consultivo do IPHAN aprovou a candidatura dos modos de fazer o queijo Minas artesanal à lista da Unesco, e em dezembro de 2024 veio o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade:

  • 2002: primeiro patrimônio imaterial reconhecido no Brasil;

  • 2008: reconhecimento federal pelo IPHAN;

  • 2024: reconhecimento como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco.

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O que mais justifica uma parada nessa cidade histórica do interior de Minas?

O queijo puxa a viagem, mas Serro entrega mais do que isso. A cidade guarda um dos conjuntos arquitetônicos barrocos mais relevantes de Minas Gerais, construído durante o auge da mineração no século XVIII, e foi a primeira cidade tombada pelo patrimônio histórico nacional, em 1938. Fez parte da Estrada Real e foi um dos principais centros mineradores do estado. Entre os atrativos possíveis num roteiro por ali estão:

  • A Casa e Museu Dona Lucinha, dedicada à cozinheira mineira Maria Lúcia Clementino Nunes;

  • Degustações em fazendas produtoras de queijo, com visita ao processo completo;

  • A Festa do Queijo, realizada anualmente no fim de setembro;

  • O Museu Regional Casa dos Ottoni, no centro histórico;

  • A arquitetura colonial preservada no centro histórico;

  • Passeios pelas fazendas de altitude que cercam a cidade.

A produção de queijo artesanal segue sendo parte central da economia local. Só a cooperativa dos produtores do Serro reúne cerca de 40 a 50 toneladas por mês, vindas diretamente das fazendas da região. Some isso às belezas naturais das montanhas ao redor, e fica fácil entender por que tanta gente volta para Serro mais de uma vez. Poucas cidades do interior de Minas Gerais conseguem unir tão bem história colonial, produção artesanal e paisagem preservada num único roteiro.

Vista do centro histórico de Serro com igrejas, casarões coloniais e telhados antigos entre as monta
Vista do centro histórico de Serro com igrejas, casarões coloniais e telhados antigos entre as monta

Vista do centro histórico de Serro com igrejas, casarões coloniais e telhados antigos entre as montanhas - Foto: Igor Souza

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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