Sabará preserva lendas de túneis subterrâneos que ligariam igrejas às casas dos ricos no auge do ciclo do ouro
Moradores antigos falam de passagens secretas sob igrejas e casarões, usadas para esconder ouro. Veja o que é lenda, o que é fato e onde procurar cada um
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
05/11/2026
Em 1702, Sabará já era o arraial mais populoso de Minas, movido pelo ouro tirado do Rio das Velhas. Três séculos depois, parte dessa riqueza sobrevive em igrejas barrocas e casarões, e outra parte, nas histórias contadas pelos moradores mais antigos. Entre elas, a mais insistente fala de túneis escondidos sob o centro histórico, ligando templos às residências das famílias mais poderosas da época.
O que dizem as lendas dos túneis de Sabará?
A versão mais repetida é a de que passagens subterrâneas conectariam igrejas a casas de famílias ricas. Ninguém aponta com segurança onde ficariam as entradas, mas a história atravessa gerações e ainda aparece em conversas e vídeos sobre a cidade.
Quanto à função desses caminhos, os relatos dos moradores costumam variar entre duas explicações:
esconder ouro longe dos olhos das autoridades;
permitir encontros proibidos, longe das ruas.
Nenhuma rede de túneis foi comprovada até hoje
Apesar da força da tradição oral, a existência de uma grande rede de túneis nunca foi comprovada por pesquisas arqueológicas. Não há registro de passagens identificadas entre igrejas e casarões do centro histórico.
Isso não diminui o interesse pelas histórias, que funcionam como parte da memória local. Elas ajudam a entender como os moradores enxergavam a riqueza concentrada nas mãos de poucos durante o ciclo do ouro.
Por que o ouro precisava ser escondido?
Na época colonial, a Coroa portuguesa cobrava o quinto, imposto sobre todo o ouro extraído. Em Sabará, o metal passava pela Casa de Intendência e Fundição, onde era fundido, marcado e taxado.
Essa fiscalização ajuda a explicar por que tantas lendas sobre ouro escondido surgiram na região. A cidade concentrava poder e riqueza, como mostram alguns marcos da época:
1702: o arraial já era centro de comércio e o mais populoso de Minas;
1714: Sabará vira sede da Comarca do Rio das Velhas;
Casa de Intendência: o prédio hoje abriga o Museu do Ouro.
Quais igrejas guardam a memória do ouro?
As histórias de túneis nunca apontam um templo específico, mas a cidade tem várias igrejas ligadas ao período mais rico da mineração. Cada uma conta uma parte diferente dessa história.
Quem quer conhecer o patrimônio religioso que alimenta o imaginário local pode começar por estas três:
Matriz de Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em 1710, com traços de três fases do barroco;
Capela de Nossa Senhora do Ó, com influência chinesa na decoração;
Igreja de Nossa Senhora do Rosário, erguida por escravizados e hoje em ruínas.
Os casarões dos ricos ainda estão de pé
Do outro lado das lendas estão as residências das famílias que enriqueceram com o ouro. Um dos conjuntos mais preservados fica na antiga Rua Direita, hoje Rua Dom Pedro II, tombada pelo Iphan.
Caminhar por ali é a forma mais concreta de imaginar o cenário das histórias. Dois endereços ajudam a entender o peso dessas famílias na vida da cidade:
o Solar do Padre Correia, prédio colonial que hoje funciona como sede da prefeitura;
a Casa da Ópera, considerada o segundo teatro mais antigo do Brasil em funcionamento.


Fachada de igreja histórica com torres, detalhes vermelhos e porta azul em Sabará, MG - Foto: Igor Souza


Igreja histórica de Sabará, MG, com torre de pedra e fachada parcialmente encoberta por árvores - Foto: Igor Souza
Existem túneis de verdade em Sabará?
Existem, mas bem longe do centro histórico e sem nenhuma ligação com as lendas. Desde 1984, a Mina Cuiabá, operada pela AngloGold Ashanti, extrai ouro do subsolo do município.
Os números da mina, divulgados pelo jornal Estado de Minas em 2025, mostram a escala dessa estrutura subterrânea:
cerca de 330 km de túneis;
galerias a 1.600 metros de profundidade;
último nível abaixo do nível do mar;
elevador com capacidade para cerca de 50 pessoas.
Que outras lendas a cidade guarda?
Os túneis não são a única história que passa de geração para geração. No Largo do Barão de Sabará, o Chafariz do Kaquende, construído em 1757, carrega uma crença conhecida por quase todo morador.
Segundo a tradição, quem bebe da água do chafariz sempre volta a Sabará. Assim como os túneis, a lenda não tem comprovação, mas virou parada obrigatória de quem visita o centro.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Como visitar Sabará atrás dessas histórias?
A cidade fica a cerca de 20 km de Belo Horizonte e funciona bem como passeio de um dia. O centro histórico é compacto, e boa parte do roteiro pode ser feita a pé.
Para seguir os rastros do ouro e das lendas, uma boa sequência é esta:
Museu do Ouro, para entender a fiscalização do metal;
Rua Dom Pedro II, com os antigos casarões;
Matriz de Nossa Senhora da Conceição;
Capela de Nossa Senhora do Ó;
Chafariz do Kaquende, para fechar o passeio.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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