Reconhecida oficialmente desde 1737, Campanha é considerada a cidade mais antiga do Sul de Minas
Uma catedral de taipa com paredes de quase dois metros, casas de nomes que marcaram o país e ruas que guardam quase três séculos de história mineira
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
29/10/2026
Em 2 de outubro de 1737, uma expedição comandada pelo ouvidor Cipriano José da Rocha tomou posse oficial das terras do Rio Verde e deu início ao arraial que viraria Campanha. De lá para cá, a cidade acumulou igrejas de taipa, casarões coloniais e personagens que entraram para a história do país, e boa parte desse passado continua de pé no centro.
Como nasceu o arraial que deu origem a Campanha?
Antes da chegada do ouvidor, a região já abrigava remanescentes das bandeiras paulistas que se espalharam pelo interior em busca de riquezas. O que mudou o rumo do lugar foi o ouro encontrado na região, que fez o povoado crescer rápido e atraiu moradores, comerciantes e religiosos nos anos seguintes.
O primeiro nome foi São Cipriano. Em 1739, o arraial ganhou a condição de freguesia, com vigário próprio, e passou a ser conhecido como Campanha do Rio Verde, nome que ainda aparece em documentos antigos da região.
Por que a vila precisou se separar de São João del-Rei?
Durante boa parte do século XVIII, Campanha esteve sob a jurisdição de São João del-Rei, numa região ainda disputada entre as capitanias de São Paulo e de Minas Gerais. Com o tempo, os moradores mais influentes passaram a pedir uma vila própria, com argumentos que mostravam o novo peso do arraial:
O crescimento da população;
O desenvolvimento da economia local;
A distância até a sede da vila;
Os prejuízos para o comércio e para a justiça.
O pedido foi atendido em 1798, com a criação da Vila da Campanha da Princesa, cujo território reunia mais de 90 povoações do Sul de Minas. Em 1840, a vila foi elevada a cidade e teve o nome reduzido simplesmente para Campanha, forma usada até hoje.
A catedral levou cerca de 35 anos para ficar pronta
A pedra fundamental da nova Matriz de Santo Antônio, hoje catedral, foi lançada em 1787, e a igreja só foi consagrada em 1822. Mesmo depois disso, a construção continuou recebendo acréscimos: as torres foram concluídas em 1874, e a fachada atual ganhou forma em 1885.
O templo foi erguido em taipa de pilão, técnica em que a terra é socada dentro de formas de madeira até virar parede. O resultado é uma das maiores igrejas do país feitas desse jeito, com números que impressionam até hoje:
75 metros de comprimento, 25 de largura e 36 de altura;
Paredes com 1,80 metro de espessura.


Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar a construção de uma parede em taipa de pilão no século XVIII


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar a busca por ouro nos riachos de Minas no século XVIII
Que outras igrejas contam a história da cidade?
Considerada a igreja mais antiga da cidade, a de Nossa Senhora das Dores foi concluída em 1799, ano que está gravado sobre a porta principal. A segunda torre só ficou pronta em 1882, sinal de como as obras religiosas da época avançavam no ritmo do dinheiro e da devoção dos fiéis.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário tem uma trajetória diferente. Fundada em 1757, foi erguida e mantida em grande parte por pessoas escravizadas. A construção original de taipa acabou demolida, e o templo foi refeito em outro endereço, com a nova igreja inaugurada em 1975.
Quais nomes conhecidos têm ligação com Campanha?
Poucas cidades do interior reúnem tantas histórias ligadas a personagens nacionais. Por aqui nasceram ou viveram pessoas que deixaram marca na ciência, na política e nas artes, e as casas ligadas a elas continuam no centro. Entre os nomes mais lembrados, estão:
Vital Brazil, nascido em 1865, criador do soro contra picada de cobra e fundador do Instituto Butantan;
Bárbara Heliodora, poeta ligada à Inconfidência Mineira, que se abrigou na cidade após a prisão do marido;
Maria Martins, escultora de destaque internacional e amiga do artista francês Marcel Duchamp.
A casa onde Vital Brazil nasceu, construída por volta de 1830, foi comprada e restaurada por uma sociedade de moradores em 1985 e virou museu três anos depois. O acervo reúne móveis, livros raros, peças de arte sacra e animais peçonhentos.
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O centro histórico de Campanha se conhece a pé
A maior parte das atrações fica perto das praças centrais, o que facilita o passeio sem carro. As ruas de calçamento antigo e os casarões coloniais acompanham toda a caminhada, que pode ser feita com calma em um fim de semana, conforme o interesse por museus e igrejas.
Para quem quer entender por que Campanha é uma das cidades mais antigas do Sul de Minas, alguns pontos merecem lugar garantido no roteiro, especialmente se a visita coincidir com a Semana Santa, quando as ruas recebem procissões e tapetes:
A Catedral de Santo Antônio;
A Igreja de Nossa Senhora das Dores;
A casa natal de Vital Brazil;
O sobrado de Bárbara Heliodora, de 1770;
O Museu Regional do Sul de Minas, aberto em 1992, com arte sacra e minerais.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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