Primeira capital de Minas, Mariana guarda há mais de 270 anos o único órgão do mestre alemão Arp Schnitger fora da Europa
Um instrumento barroco desmontado em 18 caixas, enviado de Lisboa e ainda tocado aos sábados: conheça o único órgão do mestre alemão fora da Europa
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
18/10/2026
Dezoito caixas de madeira atravessaram o Atlântico em meados do século XVIII com um instrumento desmontado e um manual de montagem. Dentro delas estava um órgão de Arp Schnitger, mestre alemão que até hoje soa na Catedral da Sé de Mariana, o único da sua oficina fora da Europa.
Como um órgão alemão foi parar em Mariana?
O órgão foi construído na primeira década do século XVIII em Hamburgo, na Alemanha, pela oficina de Arp Schnitger. Antes de vir para Minas, passou um período em Lisboa, provavelmente em um convento franciscano, como indica o brasão da ordem esculpido em um anjo da caixa.
O negócio foi fechado em Lisboa pelo padre José de Oliveira, com o organeiro João da Cunha, para atender a nova sé mineira. A viagem até Mariana pode ser contada em quatro passos registrados pelos pesquisadores:
1752: compra do instrumento em Lisboa;
Desmontagem e embalagem em 18 caixas;
Envio com instruções de montagem;
1753: chegada como presente da Coroa ao primeiro bispo.
Por que Mariana recebeu um presente da Coroa?
Mariana nasceu como Vila do Ribeirão do Carmo, a primeira vila criada em Minas, em 1711. Em 1745, uma bula papal transformou sua igreja matriz em sede do primeiro bispado mineiro, e a vila ganhou o nome de Mariana, em homenagem à rainha Maria Ana.
Uma catedral nova precisava de música à altura, e o órgão chegou para cumprir esse papel. Como deixou Lisboa pouco antes do terremoto de 1755, que destruiu boa parte da cidade, o instrumento escapou da tragédia.
O único Schnitger fora da Europa
Restam cerca de trinta instrumentos da oficina de Schnitger no mundo, e o de Mariana é o único fora do continente europeu. Por ter ficado mais de dois séculos longe de guerras e desastres naturais, é também o que preserva mais peças originais da época.
O órgão segue os princípios da organaria barroca, com tubos de metal e madeira, foles e transmissão mecânica, sem nenhum recurso elétrico. Para quem gosta de detalhes técnicos, dois números resumem o tamanho do instrumento:
Dois teclados manuais, além da pedaleira;
19 registros, que mudam o timbre do som.


Interior da Catedral da Sé de Mariana, MG, com bancos de madeira, colunas e altar dourado - Foto: Igor Souza


Fachada lateral da Catedral da Sé de Mariana, MG, com torres e casarão colonial ao lado - Foto: Igor Souza
O que o órgão enfrentou ao longo dos séculos?
Com o tempo, o órgão sofreu alterações e abandono até ficar mudo. Para recuperá-lo, o instrumento passou pelas mãos da empresa Rudolf von Beckerath, de Hamburgo, e do organeiro Bernhardt Edskes.
O capítulo mais recente começou depois que cupins atacaram peças internas do instrumento durante a longa restauração da catedral, feita entre 2016 e 2022. As principais intervenções aparecem nesta linha do tempo:
Anos 1930: primeira intervenção conhecida;
1979: desmontagem e envio à Europa;
1984: retorno a Mariana;
2000 a 2002: obras para recuperar o som colonial;
8 de dezembro de 2025: reinauguração em missa solene.
Como foi a restauração mais recente?
Depois de uns dez anos sem uso, as peças danificadas seguiram para o ateliê do organeiro Frédéric Desmottes, na Espanha, entre fevereiro e setembro de 2025. A restauração custou cerca de R$ 1,3 milhão, pagos pelo Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio.
A volta do órgão marcou os 280 anos da Arquidiocese de Mariana. As primeiras peças foram tocadas pela organista Josinéia Godinho na Missa Solene da Imaculada Conceição, seguida por concertos abertos ao público.
Como assistir a um concerto do órgão?
Os concertos regulares foram retomados em 2026, com repertório de Johann Sebastian Bach interpretado pela organista Josinéia Godinho, regente da catedral. As apresentações acontecem na Catedral da Sé, na Praça Cláudio Manoel, no centro histórico.
Pela programação divulgada em abril de 2026, os concertos seguem um calendário fixo definido pela catedral. Antes de montar o roteiro de viagem, vale conferir com atenção as condições informadas:
Segundo e quarto sábados de cada mês, às 17h;
Ingresso de R$ 80, com meia-entrada para idosos, professores e estudantes;
Venda na bilheteria da catedral.
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A visita pede um pouco de planejamento
Como as datas podem mudar por causa de celebrações religiosas, o ideal é confirmar a programação com a catedral antes da viagem. A proximidade com Ouro Preto ainda permite combinar as duas cidades no mesmo fim de semana.
No dia do concerto, alguns cuidados simples ajudam a aproveitar melhor a experiência e a respeitar o espaço, que continua sendo uma igreja em uso, e não apenas uma sala de concertos para turistas:
Chegar cedo para garantir o ingresso;
Levar documento para a meia-entrada;
Silenciar o celular;
Evitar fotos durante o concerto;
Usar roupa adequada;
Aproveitar para conhecer a catedral por dentro.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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