Poucos sabem, mas São Gonçalo do Rio das Pedras ficava numa rota que ligava Diamantina a Paraty

Distrito de Serro com menos de 2 mil habitantes, São Gonçalo do Rio das Pedras já foi parada estratégica da rota que ligava Diamantina ao porto de Paraty

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
18/09/2026

Poucos sabem, mas um vilarejo de pouco menos de 2 mil habitantes, escondido na Serra do Espinhaço, já foi parte de um dos corredores mais vigiados do Brasil colonial. São Gonçalo do Rio das Pedras, hoje distrito de Serro, nasceu como ponto estratégico do caminho que levava ouro e diamantes de Diamantina até o porto de Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. Entre casario colonial, cachoeiras e trilhas na Serra do Espinhaço, o distrito guarda até hoje o ritmo lento de quem ficou fora das rotas mais badaladas de Minas Gerais.

São Gonçalo do Rio das Pedras nasceu como parada estratégica entre Diamantina e o litoral

Situado a cerca de 1.150 metros de altitude, no Alto Jequitinhonha, São Gonçalo do Rio das Pedras fica a aproximadamente 35 quilômetros de Diamantina, trajeto que ainda hoje é feito por estrada de terra e leva cerca de uma hora e meia. Hoje distrito do município de Serro, o povoado reúne pouco menos de 2 mil habitantes e preserva ruas de pedra, casas caiadas e igrejas que remontam ao século XVIII, cercado pelo horizonte rochoso característico da Serra do Espinhaço.

Alguns números ajudam a situar o distrito dentro desse cenário:

  • Altitude de cerca de 1.150 metros, na Serra do Espinhaço;

  • Cerca de 35 quilômetros de estrada de terra até Diamantina;

  • População de pouco menos de 2 mil habitantes;

  • Hoje um dos distritos do município de Serro, na região do Alto Jequitinhonha.

Como o ouro e os diamantes transformaram um povoado de passagem em posto fiscalizado

Registros indicam que, já em 1732, existiam casas, roças e engenhos na região de São Gonçalo, o que sugere uma ocupação praticamente simultânea à descoberta dos diamantes em Diamantina. Assim como toda a área conhecida como Distrito Diamantino, o povoado ficava sob rigorosa fiscalização da Coroa portuguesa: quem circulava entre Diamantina e Serro precisava passar por controles rígidos no vizinho povoado de Milho Verde, e quem fosse flagrado fora das rotas autorizadas enfrentava punições severas.

A tradição local também guarda uma lenda sobre a origem do nome do povoado: um menino costumava brincar sob um pé de goiaba numa colina, onde teria surgido uma imagem de São Gonçalo. Mesmo removida do local, a imagem "retornava" sozinha ao mesmo ponto, o que levou os moradores a erguer ali a igreja matriz em homenagem ao santo. Alguns pontos resumem essa fase de ocupação e controle:

  • Casas, roças e engenhos já registrados na região em 1732;

  • Fiscalização rígida da Coroa portuguesa sobre toda a área do Distrito Diamantino;

  • Postos de controle no povoado vizinho de Milho Verde, na rota entre Diamantina e Serro;

  • Lenda da imagem de São Gonçalo como origem do nome e da igreja matriz.

Capela de Nossa Senhora do Rosário em São Gonçalo do Rio das Pedras, MG, cercada por árvores e casas
Capela de Nossa Senhora do Rosário em São Gonçalo do Rio das Pedras, MG, cercada por árvores e casas

Capela de Nossa Senhora do Rosário em São Gonçalo do Rio das Pedras, MG, cercada por árvores e casarões - Foto: Igor Souza

Igreja Matriz de São Gonçalo do Rio das Pedras, MG, com fachada branca e detalhes azuis sob céu aber
Igreja Matriz de São Gonçalo do Rio das Pedras, MG, com fachada branca e detalhes azuis sob céu aber

Igreja Matriz de São Gonçalo do Rio das Pedras, MG, com fachada branca e detalhes azuis sob céu aberto - Foto: Igor Souza

Por que essa rota ligava Diamantina ao porto de Paraty

A ligação entre São Gonçalo e Paraty fazia parte de um sistema bem maior: a Estrada Real, criada ainda no século XVIII para escoar a produção das minas de Minas Gerais até o litoral. No total, a rede de caminhos que compunha a Estrada Real somava cerca de 1.500 quilômetros, conectando cidades mineradoras a Paraty, escolhida como porto de embarque por sua baía natural profunda e por já contar com infraestrutura adequada para armazenar e escoar cargas valiosas rumo a Portugal.

Por esses caminhos não passava apenas ouro e diamante: circulavam também alimentos, materiais de construção, equipamentos e pessoas escravizadas, essenciais para sustentar a economia da região das minas. São Gonçalo, situado logo na saída de Diamantina, funcionava como um dos primeiros pontos dessa longa cadeia que seguia rumo ao litoral. Alguns dados ajudam a dimensionar essa rota:

  • Rede de cerca de 1.500 quilômetros ligando as regiões mineradoras ao litoral;

  • Paraty escolhida como porto de embarque por sua baía natural profunda;

  • Transporte de ouro, diamantes, alimentos, materiais de construção e pessoas escravizadas;

  • São Gonçalo como um dos primeiros pontos de passagem ao sair de Diamantina.

Cachoeiras e trilhas marcam o entorno de São Gonçalo hoje

Entre as atrações naturais que cercam o distrito, a Cachoeira do Comércio se destaca por uma queda de cerca de 85 metros, hoje também usada para rapel, além de abrigar antigos moinhos d'água construídos em pau a pique há mais de cem anos, dois deles ainda em funcionamento para produção de fubá. Outras cachoeiras completam o roteiro de quem visita a região, como a da Grota Seca, formada por uma sequência de cerca de trinta pequenas quedas.

Quem busca trilhas mais longas também encontra opções, como o caminho até o Pico do Raio, a cerca de 10 quilômetros do povoado, com vista panorâmica da Serra do Espinhaço. Alguns pontos resumem as opções de cachoeira e trilha na região:

  • Cachoeira do Comércio, com cerca de 85 metros e opção de rapel;

  • Antigos moinhos d'água em pau a pique, com mais de cem anos, ainda em uso;

  • Cachoeira da Grota Seca, formada por cerca de trinta pequenas quedas;

  • Cachoeiras do Pacú, do Cadete e do Retiro, entre outras opções na região;

  • Trilha até o Pico do Raio, a cerca de 10 quilômetros do povoado.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

O que esperar de uma visita a esse distrito colonial de Serro

Caminhar pelas ruas de pedra de São Gonçalo do Rio das Pedras é uma forma de atravessar séculos: o conjunto arquitetônico colonial se mantém preservado, com destaque para a Igreja Matriz de São Gonçalo e a Igreja Nossa Senhora do Rosário, além do gado que ainda circula tranquilamente pelas ruas do povoado. Por estar fora das rotas mais movimentadas do turismo mineiro, o distrito é frequentemente combinado com a vizinha Milho Verde num mesmo roteiro de um dia, já que as duas vilas dividem características arquitetônicas e história semelhantes.

A estrutura turística é simples, apoiada em pousadas de pequeno porte, mas suficiente para quem busca um passeio de contemplação, longe da agitação de destinos maiores. Alguns pontos ajudam a organizar essa visita:

  • Igreja Matriz de São Gonçalo e Igreja Nossa Senhora do Rosário, no centro histórico;

  • Ruas de pedra e casario colonial bem preservado;

  • Acesso apenas por estrada de terra a partir de Diamantina;

  • Roteiro comum combinado com a vizinha Milho Verde;

  • Hospedagem em pousadas de pequeno porte, sem grande estrutura turística.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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