Poucos conhecem, mas Concórdia do Mucuri, MG, é considerada um tesouro escondido de Minas Gerais
Um acordo de paz entre rivais políticos, igrejas de um frade capuchinho e uma antiga estação de trem: o distrito mineiro que poucos viajantes conhecem
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
23/10/2026
Sete homens, sete pedaços de terra e um acordo de paz entre adversários políticos. É dessa combinação que nasce a história de Concórdia do Mucuri, distrito de Ladainha, no Vale do Mucuri. Longe dos roteiros mais conhecidos do estado, o lugar guarda igrejas erguidas por um frade capuchinho, uma estação de trem e uma vida rural que ainda define o ritmo do distrito.
Como sete posses deram início à ocupação da região?
Por volta de 1850, sete homens se instalaram em terras da região por iniciativa de Teófilo Ottoni, diretor da Companhia do Mucuri, e o conjunto passou a ser chamado de Sete Posses. Em 1856, cerca de 41 famílias, com 187 pessoas, já viviam no território do atual distrito, espalhadas por diferentes núcleos:
Mombuca;
Três Terras;
Tamboril;
São José;
Santana;
Sete Posses;
Conceição;
Açude;
São Domingos.
Em 1894, Sete Posses foi elevada a distrito e ligada a Teófilo Otoni. O nome, no entanto, não resistiu às disputas políticas das décadas seguintes, e o povoado acabou perdendo espaço para um arraial vizinho que crescia mais rápido.
Por que o lugar ganhou o nome de Concórdia?
O arraial de Concórdia começou em 1879, fundado por um grupo de moradores que incluía João Gonçalves Evangelista e Bernardo da Silva Pavão. A primeira casa foi a de Sebastião Esteves Dias, conhecido como Pedra. Em pouco tempo, o povoado passou a concentrar o comércio e a vida religiosa da região.
O nome lembra um momento específico: uma celebração de paz entre os partidos políticos que disputavam o controle local. Em 1902, Concórdia foi elevada a vila e instalada como distrito, enquanto Sete Posses voltou à condição de povoado, situação que mantém até hoje.
Um frade capuchinho deixou marcas por todo o distrito
Boa parte do patrimônio religioso do distrito leva a assinatura de Frei Gaspar de Módica, missionário capuchinho que atuou como vigário no início do século 20. Foi ele quem inaugurou a Igreja Matriz em 8 de dezembro de 1907, no lugar da pequena capela que servia à freguesia criada em 1894.
O frade também abriu o cemitério em 1908 e esteve à frente da Capela de São Francisco de Assis, construída entre 1909 e 1913, além da Capela de São Domingos, na cabeceira do ribeirão de mesmo nome. Em 1909, um grande cruzeiro foi erguido para lembrar as missões religiosas pregadas na região.


Vista das montanhas de Concórdia do Mucuri, MG, com vegetação verde, picos rochosos e céu com nuvens - Foto: Igor Souza


Vista panorâmica de Concórdia do Mucuri, MG, com montanhas verdes, vales e estrada de terra - Foto: Igor Souza
O que a ferrovia Bahia e Minas mudou na vida do distrito?
A chegada dos trilhos transformou um trecho do distrito em povoado novo. Em 1914, um acampamento foi montado para o prolongamento da Estrada de Ferro Bahia e Minas, que seguia de Teófilo Otoni em direção a Tremedal. Ao redor do canteiro surgiram casas para os trabalhadores e a Estação Ladainha, que pertence ao território de Concórdia.
Em 1917, a Capela do Sagrado Coração de Jesus foi erguida ao lado da estação em apenas dois dias e uma noite. A fase ferroviária pode ser resumida em três momentos:
1914: início das obras de prolongamento da linha;
1918: inauguração da Estação Ladainha, em 26 de dezembro;
1922: escolha do local para abrigar as oficinas da ferrovia.
Como Concórdia do Mucuri perdeu e recuperou a condição de distrito?
A trajetória administrativa foi cheia de idas e vindas. Concórdia esteve ligada a Teófilo Otoni, depois passou a depender de Ladainha, que cresceu ao redor da estação e acabou se tornando município. Os principais marcos dessa mudança são estes:
1894: criação da freguesia e do distrito de Sete Posses;
1902: Concórdia é elevada a vila;
1929: Concórdia volta a ser povoado com a criação do distrito de Ladainha;
1948: Ladainha se torna município;
1953: Concórdia do Mucuri é criada como distrito.
Hoje, o distrito ocupa cerca de 219 km², o equivalente a um quarto do território de Ladainha. A maior parte dos moradores vive na zona rural, em sítios e pequenas propriedades espalhadas pelos antigos núcleos de ocupação.
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O café e a vida rural seguem no centro de Concórdia do Mucuri
Durante décadas, o café foi o principal produto do distrito. A Fazenda Itagiru, do major Manoel da Silva Tavares, chegou a ser uma das mais movimentadas do município, com engenho de máquinas modernas e uma turbina para a produção de açúcar.
A tradição rural também aparece na Festa Cultural de Concórdia do Mucuri, organizada pela prefeitura de Ladainha, que reúne shows e enche hotéis, bares e restaurantes da região. Dois momentos costumam atrair o público do campo:
A cavalgada de abertura;
O torneio de motocross.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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