Poucos brasileiros conhecem Nazareno, a cidade mineira cuja arte sacra é reconhecida no exterior

A pequena Nazareno, no Campo das Vertentes (MG), mantém viva a escultura religiosa em madeira, com obras reconhecidas fora do país e uma matriz ligada ao século XVIII

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
24/07/2026

Em Nazareno, a madeira ganha forma nas mãos de artistas que preservam um ofício antigo. A cidade do Campo das Vertentes alcançou projeção pela produção de imagens sacras reconhecidas além do Brasil. Essa tradição se liga à fé, à Igreja Matriz e à memória de artesãos que transformaram talento em identidade cultural.

Por que Nazareno ficou conhecida pela arte sacra?

O portal oficial do município destaca a fama internacional de Nazareno na produção de imagens sacras. A atividade ganhou força com escultores locais que mantiveram técnicas manuais mesmo diante da produção industrializada.

Não se trata apenas de fabricar objetos religiosos. Cada peça exige escolha do material, retirada gradual da madeira, definição das formas e acabamento. A projeção da cidade está ligada principalmente a estes fatores:

  • continuidade do trabalho manual;

  • influência do barroco mineiro;

  • produção de peças sob encomenda.

Quem levou o nome da cidade mais longe?

Benedito Eduardo de Carvalho, conhecido como Dito Santeiro, nasceu em Conceição da Barra de Minas e mudou-se para Nazareno aos 15 anos. Autodidata, começou a esculpir ainda criança e construiu na cidade uma trajetória dedicada às imagens religiosas em madeira e pedra-sabão.

Uma de suas obras mais conhecidas foi uma escultura de Frei Galvão produzida em 2007 para ser entregue ao papa Bento XVI. O presente rendeu uma carta de agradecimento do Vaticano e ampliou o reconhecimento do artista dentro e fora do país.

A produção mantém referências do barroco mineiro

As esculturas feitas em Nazareno dialogam com uma tradição visual presente em Minas Gerais. Dito Santeiro declarou influência de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e de Manuel da Costa Ataíde, nomes centrais da arte colonial mineira.

O processo pode levar meses quando a obra possui muitos detalhes. A madeira é trabalhada até que rosto, roupas e gestos apareçam. Entre os materiais e referências ligados a essa produção estão:

  • madeira escolhida para escultura;

  • pedra-sabão em peças específicas;

  • formas inspiradas na tradição barroca;

  • acabamento realizado manualmente.

Como a Igreja Matriz entra nessa história?

A Matriz de Nossa Senhora de Nazaré ocupa a praça central e mostra como a religiosidade acompanha a formação do município. A primeira capela da paróquia, erguida no antigo Ribeiro Fundo, recebeu a bênção em 2 de setembro de 1734.

Durante o século XIX, a sede paroquial passou por mudanças até ser estabelecida definitivamente em Nazareno, em 1870. A visita ajuda a compreender o ambiente em que a produção de arte sacra encontrou sentido:

  • devoção a Nossa Senhora de Nazaré;

  • celebrações da comunidade;

  • presença da igreja na praça principal.

O reconhecimento ultrapassou as fronteiras locais

A trajetória de Dito Santeiro recebeu atenção de instituições culturais. Em 1987, a Funarte realizou uma exposição dedicada ao escultor no projeto Sala do Artista Popular, voltado à documentação e divulgação de criadores brasileiros.

Suas obras também chegaram a espaços religiosos importantes. Uma imagem de São João Paulo II feita em madeira passou a integrar o altar da primeira paróquia brasileira dedicada ao santo, em Juiz de Fora. Esses marcos ajudam a explicar a projeção internacional associada à arte sacra de Nazareno.

Igreja Matriz de Nazareno ao lado de casarão colonial e monumento na praça central
Igreja Matriz de Nazareno ao lado de casarão colonial e monumento na praça central

Igreja Matriz de Nazareno ao lado de casarão colonial e monumento na praça central - Foto: Igor Souza

Vista frontal da Igreja Matriz de Nazareno, com duas torres e fachada histórica
Vista frontal da Igreja Matriz de Nazareno, com duas torres e fachada histórica

Vista frontal da Igreja Matriz de Nazareno, com duas torres e fachada histórica - Foto: Igor Souza

Por que esse ofício continua relevante?

A escultura sacra preserva conhecimentos que não são substituídos apenas por máquinas. O artesão precisa compreender proporções, resistência dos materiais, expressão facial e simbologia religiosa. Em Nazareno, esse saber também foi transmitido por cursos e pelo contato com aprendizes.

A continuidade depende de novos profissionais e da valorização cultural. Para a cidade, a atividade representa mais do que uma lembrança do passado:

  • mantém técnicas artesanais em circulação;

  • fortalece a identidade municipal;

  • aproxima arte, trabalho e religiosidade;

  • leva o nome da cidade a outras regiões.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como conhecer essa tradição durante uma visita?

O passeio pode começar pela Praça Nossa Senhora de Nazaré e pela Igreja Matriz. O portal oficial de turismo de Minas Gerais informa que são permitidas visitas ao interior e que a entrada é gratuita, embora seja importante confirmar os horários.

Conhecer Nazareno com atenção à arte sacra significa procurar as histórias por trás das peças e de seus criadores. O patrimônio aparece na igreja, nas oficinas e na permanência de um trabalho manual que levou uma cidade pequena para muito além das fronteiras mineiras.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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