Por que viajantes europeus estão "descobrindo" essa cidade histórica de Minas antes dos brasileiros
Com mais de 700 imóveis tombados, a orquestra mais antiga das Américas e sinos que ainda comunicam há 300 anos, essa cidade mineira tem o que poucos destinos no mundo conseguem oferecer
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
06/07/2026
Existe uma diferença entre conservar o passado e vivê-lo. São João del-Rei, a 185 quilômetros de Belo Horizonte, está no segundo grupo. A cidade nasceu em 1704 no ciclo do ouro, tem mais de 700 imóveis tombados, duas orquestras bicentenárias que tocam toda semana em missas reais, sinos que comunicam há três séculos e o trem a vapor mais antigo em operação contínua no Brasil. Esse conjunto de raridades já atraiu viajantes europeus apaixonados por música barroca e patrimônio vivo muito antes de o destino aparecer nos roteiros mais divulgados do turismo nacional.
Por que São João del-Rei é chamada de "Terra dos Sinos"?
Os sinos de São João del-Rei não são decoração. São um sistema de comunicação centenário com mais de 40 toques diferentes, cada um anunciando algo diferente: hora da missa, morte de homem ou mulher, incêndio, festa religiosa. O toque dos sinos de Minas Gerais foi reconhecido pelo IPHAN como patrimônio imaterial do Brasil em 2009, e São João del-Rei está entre as nove cidades contempladas.
Cada sino tem nome próprio: Conceição vive na torre da Igreja São Francisco de Assis, João da Cruz na do Carmo. Os moradores mais antigos distinguem cada toque pelo ritmo. Um sistema que existia antes dos telefones e ainda funciona intacto depois de três séculos.
As orquestras de São João del-Rei são mesmo as mais antigas das Américas?
A Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776 por José Joaquim de Miranda, é reconhecida como uma das mais antigas das Américas em atividade ininterrupta. Segue tocando repertório sacro dos séculos XVIII e XIX em missas semanais, em latim, preservando rituais anteriores ao Concílio Vaticano II.
A Orquestra Ribeiro Bastos, do mesmo período, mantém a mesma tradição. Aos domingos, a Ribeiro Bastos toca na missa das 9h15 na Igreja de São Francisco de Assis. As duas corporações contribuíram para que a cidade fosse eleita Capital Brasileira da Cultura em 2007.


Casario histórico de São João del-Rei, com rua de pedra, Kombi antiga e Fusca azul - Foto: Igor Souza
O que ver no centro histórico de São João del-Rei?
As principais atrações ficam a poucos minutos a pé umas das outras. Os pontos que concentram mais visitas são:
Igreja de São Francisco de Assis: projeto original de Aleijadinho, executado por Francisco de Lima Cerqueira no século XVIII; aos domingos, com a Orquestra Ribeiro Bastos na missa;
Catedral Nossa Senhora do Pilar: templo setecentista com talha dourada e teto pintado, sede das principais celebrações religiosas;
Museu Ferroviário: tombado pelo IPHAN em 1989, abriga a locomotiva nº 1 que transportou Dom Pedro II na inauguração da ferrovia; entrada gratuita;
Ponte do Rosário: construção de pedra do século XVIII sobre o Córrego do Lenheiro, um dos pontos mais fotografados do centro.
Embaixo das ruas coloniais há outro patrimônio ainda inacessível ao público: cerca de 20 betas, pequenos túneis escavados no século XVIII por escravizados para extração de ouro, que formam uma cidade subterrânea.


Rua histórica de São João del-Rei, com casario colonial colorido e igreja ao fundo - Foto: Igor Souza
A Maria Fumaça de São João del-Rei ainda funciona?
Funciona, e é a mais antiga em operação contínua no Brasil. A Estrada de Ferro Oeste de Minas chegou à cidade em 1881, inaugurada por Dom Pedro II. O trem a vapor percorre 12 quilômetros até Tiradentes aos fins de semana, com partidas às 10h e retorno às 15h. A passagem inteira custa R$ 86 e a meia-entrada, R$ 43.
Na estação de Tiradentes, é possível assistir à rotunda, a manobra manual que gira a locomotiva para o retorno. O complexo ferroviário completo, incluindo locomotivas, vagões e estações, é patrimônio tombado.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
O que mais tem para fazer na cidade?
A Semana Santa é o ponto alto do ano, com procissões centenárias, tapetes de serragem e missas conduzidas pelas orquestras. A Serra do Lenheiro, que emoldura a cidade, tem pinturas rupestres e trilhas com vista para o vale. O Memorial Tancredo Neves reúne acervo sobre o presidente mineiro nascido na cidade.
Pontos práticos para o planejamento:
Distância de BH: 185 km pela BR-040 e BR-265, cerca de 2h30;
Maria Fumaça: fins de semana, partidas às 10h; compra antecipada recomendada;
Missa com orquestra: domingos às 9h15 na Igreja de São Francisco de Assis;
Melhor época: maio a agosto, clima mais seco e temperaturas amenas.
São João del-Rei é uma das raras cidades brasileiras onde o barroco não virou cenário estático. As orquestras tocam, os sinos comunicam, o trem apita e a comida chega quente nos botecos que existem há gerações. Quem chega esperando um museu a céu aberto encontra uma cidade que ainda respira o próprio passado.


Maria Fumaça de São João del-Rei, com locomotiva a vapor histórica parada nos trilhos - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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