Passa Quatro, a cidade mineira onde uma Maria Fumaça leva turistas até o túnel em que paulistas e tropas federais se enfrentaram em 1932

Uma locomotiva de 1928 sobe a serra até o túnel onde paulistas e tropas federais se enfrentaram em 1932. As marcas de bala ainda estão nas paredes

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
23/10/2025

As paredes do túnel ainda têm marcas de bala. Foi ali, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo, que aconteceram alguns dos combates mais duros da Revolução de 1932. Hoje, quem sai de Passa Quatro chega até lá de Maria Fumaça.

Por que o trem de Passa Quatro é diferente?

O Trem da Serra da Mantiqueira é mantido pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, a ABPF, em cerca de 10 km da antiga ferrovia Minas e Rio. A linha foi inaugurada em 1884, com Dom Pedro II, e desativada em 1991. O passeio turístico voltou a funcionar em 2004.

Passa Quatro fica na Serra da Mantiqueira, a cerca de 270 km tanto de São Paulo quanto do Rio de Janeiro. O nome da cidade vem da antiga estrada que cruzava quatro vezes o rio local.

Como é o passeio de Maria Fumaça?

O trem sai da estação de Passa Quatro e sobe a serra até a estação Coronel Fulgêncio, a 1.085 metros de altitude, perto do Grande Túnel. No percurso de ida e volta, o passageiro passa por algumas paradas:

  • Manacá, com feira de artesanato e lanches enquanto a locomotiva se prepara para a subida;

  • Coronel Fulgêncio, com exposição de fotos sobre a Revolução de 1932;

  • o caminho a pé até a boca do Grande Túnel;

  • a Ponte Estrela, onde o trem para rapidamente na volta;

  • a chegada de volta à estação de Passa Quatro.

O passeio completo dura cerca de duas horas e acontece aos sábados e domingos, com saídas extras em feriados. A estação Coronel Fulgêncio também guarda fotos das minisséries Mad Maria e JK, gravadas na região.

A locomotiva 327 está perto de completar cem anos

A locomotiva 327 é do tipo Pacific e foi fabricada em 1928 pela Beyer Peacock, na Inglaterra. Ela se reveza com a 332, uma Baldwin norte-americana de 1925, para puxar os vagões na subida até Coronel Fulgêncio.

O restante do material também tem história, e a associação mantém outras máquinas em recuperação para ampliar o passeio nos próximos anos. Segundo a ABPF, além das locomotivas que fazem a viagem, o acervo ferroviário inclui:

  • três vagões de madeira de 1956, feitos nas oficinas da Central do Brasil em Belo Horizonte;

  • a locomotiva 522, fabricada em 1926 nos Estados Unidos, que passava por restauração para se juntar ao trem;

  • as máquinas e vagões recuperados pela associação, expostos em Coronel Fulgêncio.

Estação ferroviária de Passa Quatro, MG, com fachada amarela, vagão de trem e vegetação ao redor
Estação ferroviária de Passa Quatro, MG, com fachada amarela, vagão de trem e vegetação ao redor

Estação ferroviária de Passa Quatro, MG, com fachada amarela, vagão de trem e vegetação ao redor - Foto: @praondevou

Túnel ferroviário de Passa Quatro, MG, com trilhos cercados por montanhas e vegetação verde
Túnel ferroviário de Passa Quatro, MG, com trilhos cercados por montanhas e vegetação verde

Túnel ferroviário de Passa Quatro, MG, com trilhos cercados por montanhas e vegetação verde - Foto: @praondevou

O que aconteceu no túnel em 1932?

A Revolução Constitucionalista durou de 9 de julho a 2 de outubro de 1932. São Paulo se levantou contra o governo provisório de Getúlio Vargas, e Minas Gerais ficou ao lado das tropas federais.

O túnel, com 997 metros de extensão, fica sob a Garganta do Embaú, entre Passa Quatro e Cruzeiro. Segundo o jornal Estado de Minas, foi ali que aconteceram os combates mais sangrentos da região, até o recuo paulista em 13 de setembro.

Que estratégias marcaram a guerra na serra?

A ferrovia virou peça central no conflito, já que o trem era a forma mais rápida de levar soldados e armas até a divisa. Por isso, os dois lados agiram para impedir que o inimigo usasse os trilhos:

  • os mineiros retiraram as locomotivas de Passa Quatro;

  • parte dos trilhos foi engraxada para travar os trens que vinham do sul;

  • os paulistas arrancaram os trilhos que levavam às suas posições;

  • com isso, os combates ficaram parados em trincheiras.

Ao todo, cerca de 100 mil soldados federais, muitos deles mineiros, enfrentaram entre 35 mil e 60 mil paulistas, conforme a estimativa. O número oficial de mortos em toda a revolução é de 934, mas estimativas não oficiais chegam a cerca de 2,2 mil.

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A cultura mineira também está fora dos trilhos

O centro histórico de Passa Quatro é tombado por lei municipal e tem casas com influências portuguesas, francesas e italianas. Em 1912, a cidade recebeu até o presidente Hermes da Fonseca, que acompanhou uma missão científica durante um eclipse solar total.

O calendário local inclui a festa de São Sebastião, padroeiro, em 20 de janeiro, e a Festa do Gado Leiteiro. Para quem tem mais um dia na cidade, a história e a natureza da serra rendem outros passeios, como:

  • o Museu Brasil Nota 10, que conta a Revolução de 1932 em miniaturas;

  • a Casa do Artesão;

  • a Floresta Nacional de Passa Quatro, com lagos e mata;

  • a Cachoeira da Gomeira, com cerca de 40 metros de queda;

  • o casario tombado do centro;

  • o Pico do Itaguaré, com 2.308 metros, para quem gosta de trilha com guia.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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