Paredões de 40 metros e uma passarela suspensa: o cânion mais radical de Minas que você precisa conhecer
Um cânion escondido num distrito de 916 habitantes em Ouro Preto tem paredões imensos, passarela sobre o abismo e entrada gratuita. Poucos sabem que existe
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
08/07/2026
Santo Antônio do Salto tem 916 habitantes, fica a 35 quilômetros do centro de Ouro Preto e foi criado oficialmente como distrito só em 1992. Durante décadas foi conhecido apenas por quem morava por perto ou por aventureiros que se arriscavam nas estradas sem asfalto que cortam a Serra do Itacolomi. O Cânion da Passarela do Funil mudou isso. O lugar ganhou tração nas redes e passou a atrair trilheiros, fotógrafos e viajantes que buscam algo fora do circuito convencional do turismo em Minas Gerais.
De onde vem o nome Funil?
A Usina do Funil foi a terceira usina hidroelétrica construída no distrito, numa época em que o Salto foi uma das primeiras localidades da região a receber energia elétrica. O transporte da primeira turbina até o local durou dois dias e exigiu um caminhão a vapor atrelado a vinte juntas de bois. O canal que abastece a usina acompanha o trajeto do cânion e é parte do que torna o percurso tão singular: de um lado, o abismo e o Rio Mainart; do outro, a água correndo no canal a poucos metros do visitante.
A história do cânion está ligada à geologia da região. O distrito se formou numa falha geológica na encosta da Serra do Itacolomi, dentro do complexo da Serra do Espinhaço, reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera. Foram milênios de ação da água e do vento sobre as camadas rochosas que criaram as paredes e o vale profundo que existe hoje.


Passarela do Cânion do Funil em Ouro Preto cercada por mata verde, canal e montanhas - Foto: Igor Souza
Como é o percurso na prática?
O trajeto completo saindo da Praça Central do distrito tem cerca de 14 quilômetros a pé ou 12 de carro com 2 quilômetros finais a pé. A caminhada paralela ao canal do Rio Mainart começa por terra e termina na passarela metálica posicionada sobre o ponto mais aberto do cânion. O percurso de 1,5 quilômetros dentro do cânion tem nível fácil a moderado, com fauna e flora variada ao longo do caminho.
Para quem vai pela primeira vez, os pontos de atenção antes de sair de casa são:
Levar água em quantidade adequada para o percurso completo, já que não há pontos de abastecimento no trajeto;
Usar tênis fechado com boa aderência e protetor solar;
Contratar guia local, especialmente para quem não conhece a estrada de acesso ao distrito, que tem trechos sem sinalização e sem cobertura de sinal de celular.
A entrada é gratuita. O tempo total com carro é de aproximadamente 3 horas; a pé, cerca de 5 horas.


Cânion do Funil em Ouro Preto com passarela entre mata, canal de água e montanhas - Foto: Igor Souza
O que o distrito tem além do cânion?
Santo Antônio do Salto não vive só do cânion. A região tem topografia acidentada com muitas cachoeiras e corredeiras, incluindo a Grande Cachoeira do Rapel, com queda de aproximadamente 200 metros. A paisagem do vale que circunda o distrito já impressiona antes mesmo de chegar à passarela: paredões, cursos de água e mata fechada compõem um cenário que vale o deslocamento por si só.
A gastronomia local é outro ponto de identidade do lugar. As quitandeiras do distrito produzem receitas que passam de geração em geração, com ingredientes típicos da cozinha mineira de roça. Alguns pratos que aparecem na mesa do Salto:
Cuca de banana e bolo de fubá com rapadura;
Frango com ora-pro-nobis e pratos com umbigo de banana.
O Festival de Cultura e Culinária Típica de Santo Antônio do Salto acontece todos os anos em agosto e reúne essas produções num evento que mistura gastronomia e tradição cultural.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
Quando ir e o que esperar ao chegar
A estação seca, de maio a setembro, é o período mais seguro para a visita. Nos meses de chuva, a estrada de terra que desce até o distrito fica escorregadia e exige veículo com tração. Quem já foi descreveu trechos sem guarda-corpos, sem sinalização e com partes do asfalto corroídas. Não é o tipo de acesso para quem subestima a estrada.
Ao chegar, o visitante encontra um lugar sem filas, sem bilheterias e sem estrutura turística formalizada. O que existe é a natureza em estado bruto, moradores receptivos e o som constante da água. Não há nenhuma distração artificial. Para quem está acostumado com destinos consolidados, essa ausência de estrutura é justamente o que faz o lugar parecer diferente de tudo:
Sem placas turísticas ou sinalização no percurso;
Sem comércio ou alimentação no trajeto até o cânion;
Com sinal de celular ausente em boa parte do caminho até o distrito.


Cânion do Funil em Ouro Preto com passarela, canal de água e paredão rochoso - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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