Ouro Preto foi capital de Minas Gerais por 177 anos, até o posto ser transferido para Belo Horizonte em 1897
Por quase dois séculos, essa cidade mineira comandou os rumos do estado até perder o posto para uma capital planejada do zero
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
19/08/2026
Por 177 anos, foi para as ruas íngremes de Ouro Preto que se dirigia quem precisava resolver algo com o governo de Minas Gerais. Em 12 de dezembro de 1897, esse papel passou para uma cidade recém-desenhada no papel, o Arraial de Curral Del Rei, que se tornaria Belo Horizonte. A troca encerrou quase dois séculos de história como sede do poder mineiro e abriu caminho para o reconhecimento internacional que Ouro Preto conquistaria décadas depois.
Por que Ouro Preto deixou de ser a capital de Minas Gerais?
Ouro Preto, então chamada Vila Rica, foi sede do governo mineiro desde 1720, quando a região ainda vivia o auge da mineração de ouro. Com o tempo, o relevo montanhoso que ajudou a moldar a paisagem da cidade também se tornou um obstáculo para o crescimento da administração pública.
A falta de espaço para expansão física foi um dos principais argumentos usados para justificar a mudança, discutida por anos antes de se tornar realidade. Entre os fatores que pesaram na decisão de transferir a capital estavam:
a topografia acidentada, que dificultava a construção de novos prédios públicos;
o traçado colonial das ruas, pouco compatível com os planos de modernização da época;
a necessidade de uma cidade planejada, com espaço para crescer junto com a administração do estado.
Como foi criada a cidade que substituiu Ouro Preto?
O projeto da nova capital foi apresentado em 1895 pelo engenheiro Aarão Reis, responsável por planejar uma cidade dividida em zonas com funções bem definidas. A escolha recaiu sobre o antigo Arraial de Curral Del Rei, erguido a partir de um traçado moderno para a época.
A mudança oficial da capital aconteceu em 12 de dezembro de 1897, embora o novo nome só tenha sido adotado alguns anos depois, em 1901. O plano de Aarão Reis organizava a nova capital em três áreas principais:
zona urbana, destinada aos prédios públicos e à vida administrativa;
zona suburbana, pensada para a expansão residencial;
zona rural, reservada à produção agrícola que abasteceria a cidade.


Vista do centro histórico de Ouro Preto, com igrejas, casario colonial e montanhas ao fundo, MG - Foto: Igor Souza
Ouro Preto viveu seu auge muito antes de perder o posto de capital
O período de maior crescimento da cidade aconteceu entre 1710 e 1773, quando a exploração de ouro atraiu milhares de pessoas para a região em poucas décadas. Nesse intervalo, a então Vila Rica chegou a figurar entre as cidades mais populosas da América do Sul.
Essa riqueza ficou registrada na arquitetura que resistiu até hoje, erguida com recursos do período em que o ouro extraído da região movimentava parte da economia colonial portuguesa.
O que fez de Ouro Preto a primeira cidade brasileira reconhecida pela UNESCO?
Em 5 de setembro de 1980, Ouro Preto se tornou o primeiro bem cultural brasileiro incluído na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. O reconhecimento levou em conta o conjunto arquitetônico do século XVIII, considerado um dos maiores exemplos homogêneos de arquitetura barroca do mundo.
Esse conjunto reúne treze igrejas barrocas em uma área de poucos quilômetros quadrados, além de casarões e pontes de pedra que resistem desde o período colonial. Entre os principais pontos desse roteiro estão:
a Igreja de São Francisco de Assis, com obras de Aleijadinho e pinturas de Mestre Ataíde;
a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, com mais de 400 quilos de ouro em sua ornamentação;
os casarões coloniais espalhados pelo centro histórico;
as pontes de pedra que ainda cruzam ruas e córregos da cidade.


Igrejas históricas e casario colonial entre as montanhas de Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza
As obras de Aleijadinho continuam no centro do roteiro histórico
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, deixou em Ouro Preto a maior concentração de suas obras, incluindo entalhes e frontispícios de igrejas espalhadas pelo centro histórico. A Igreja de São Francisco de Assis, de 1766, é considerada uma de suas principais obras e reúne também pinturas do Mestre Ataíde.
Juntas, essas obras formam parte do que especialistas consideram o auge do barroco mineiro, período em que arte sacra e riqueza do ouro caminhavam lado a lado na região.
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Que marcas a Inconfidência Mineira deixou na cidade até hoje?
A Praça Tiradentes, no centro histórico, é um dos principais pontos de referência da cidade e presta homenagem ao líder do movimento separatista ocorrido ainda no século XVIII. A poucos metros dali, o Museu da Inconfidência funciona na antiga Casa de Câmara e Cadeia, um dos prédios mais antigos preservados na região.
A cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte, esse conjunto histórico ainda reúne outros pontos ligados à memória do movimento, hoje abertos à visitação. Entre eles estão:
a Casa dos Contos, antigo prédio de arrecadação de impostos do período colonial;
o Museu da Inconfidência, que guarda parte do acervo relacionado ao movimento.


Igreja de São Francisco de Assis com fachada barroca e árvores floridas em Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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