Os sinos da Igreja do Rosário de Lavras têm nome próprio, Francelino e Jerônimo II, desde o século 18

Uma igreja do século 18 quase virou clube social nos anos 1940, mas resistiu e hoje guarda sinos com nome próprio no Sul de Minas

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
06/10/2025

Na cidade de Lavras, no Sul de Minas, uma construção do século XVIII guarda um detalhe curioso: sinos com nome próprio. Francelino e Jerônimo II são os responsáveis por marcar o tempo na Igreja do Rosário, a construção mais antiga da cidade. Essa combinação entre arquitetura colonial e uma tradição centenária ajuda a explicar por que o templo segue tão relevante para a memória local. Poucos visitantes imaginam que a igreja quase desapareceu no século passado.

A Igreja do Rosário é a construção mais antiga de Lavras

A história do templo começa entre 1751 e 1754, quando foi erguida como capela dedicada a Sant'Ana, em terras do capitão Luiz Gomes de Morais Salgado. A região onde a capela foi erguida já era conhecida como Lavras do Funil, nome ligado à busca por ouro que marcou o início da ocupação local. Em 1760, a capela foi elevada à condição de Igreja Matriz, após a transferência da sede paroquial que antes ficava em Carrancas. A construção da nave principal só seria concluída em 1765.

Em 1917, uma nova igreja matriz foi inaugurada na cidade, o que fez o templo original passar a ser chamado de Igreja do Rosário. Mesmo com a mudança de nome e de função, a construção permaneceu de pé, guardando características típicas das igrejas mineiras do período colonial. Hoje, ela é considerada a edificação mais antiga de Lavras.

Quando os sinos Francelino e Jerônimo II passaram a tocar na igreja?

Embora a construção remonte ao século XVIII, os sinos que hoje tocam na Igreja do Rosário têm uma história um pouco mais recente. Foi em 1928 que dois novos sinos foram instalados no templo, fundidos em Divinópolis e adquiridos pelo padre Fernando Baumhoff, primeiro pároco da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus a servir em Lavras. Dois nomes acompanham esses sinos desde então:

  • Francelino, um dos sinos instalados em 1928;

  • Jerônimo II, o outro sino, cujos nomes foram registrados pelo professor José Luiz de Mesquita.

Os nomes próprios reforçam uma tradição comum em igrejas antigas de dar identidade individual aos sinos, quase como se fossem membros da comunidade. Até hoje, essa nomeação é lembrada por moradores e estudiosos da história local. A prática ajuda a manter viva a memória em torno do templo, mesmo décadas depois da instalação.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário com arquitetura colonial, sinos e detalhes verdes em Lavras, MG
Igreja de Nossa Senhora do Rosário com arquitetura colonial, sinos e detalhes verdes em Lavras, MG

Igreja de Nossa Senhora do Rosário com arquitetura colonial, sinos e detalhes verdes em Lavras, MG - Foto: Igor Souza

Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário com janelas, sino e cruz em Lavras, MG
Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário com janelas, sino e cruz em Lavras, MG

Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário com janelas, sino e cruz em Lavras, MG - Foto: Igor Souza

Como a igreja quase foi demolida no século XX?

A partir dos anos 1930, a Igreja do Rosário foi perdendo espaço dentro da rotina religiosa da cidade e caiu praticamente em abandono. Em determinado período, o templo só era aberto durante a Semana Santa, o que acelerou seu processo de deterioração. Em 1940, chegou a existir um plano concreto para demolir a construção e erguer um clube social no local.

O plano de demolição foi denunciado publicamente pelo cônego Francisco Maria Bueno de Sequeira, descendente dos fundadores de Lavras. Em 1944, desabamentos espontâneos de paredes aumentaram ainda mais a preocupação da população com o destino do templo. Diante disso, alguns nomes se destacaram na campanha pela preservação do prédio:

  • O cônego Francisco Maria Bueno de Sequeira, que denunciou o plano de demolição;

  • O professor José Luiz de Mesquita, um dos líderes da campanha;

  • Sílvio do Amaral Moreira, também envolvido na mobilização;

  • A população local, que pressionou pela preservação do templo.

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O que restou da igreja depois do tombamento?

A mobilização em torno da Igreja do Rosário resultou em seu tombamento como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1948. No ano seguinte, o templo passou por uma restauração com recursos federais, um passo decisivo para que ele continuasse de pé até os dias atuais. Alguns marcos ajudam a entender como o prédio se transformou depois desse processo:

  • Tombamento como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1948;

  • Restauração com recursos federais em 1949;

  • Transformação em sede do Museu Sacro de Lavras, em 1990.

Desde 1990, o antigo templo abriga o Museu Sacro de Lavras, fruto de uma parceria entre a paróquia local, a prefeitura e o Museu Bi Moreira. Essa nova função permitiu que o espaço continuasse aberto ao público, agora também como ponto de interesse cultural. Quem visita a igreja também costuma aproveitar para conhecer as belezas naturais da região, como o Parque Ecológico Quedas do Rio Bonito, nas proximidades.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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