Os 12 profetas de pedra-sabão esculpidos por Aleijadinho, em Congonhas, viraram Patrimônio Mundial da UNESCO em 1985

Doze figuras esculpidas em pedra por um artista já doente se tornaram, décadas depois, um dos maiores tesouros do barroco mundial

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
20/08/2026

Doze figuras de pedra-sabão, esculpidas por um artista que já havia perdido os dentes e os dedos dos pés, se tornaram um dos conjuntos barrocos mais estudados do mundo. Os profetas de Aleijadinho, no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, carregam a assinatura de Antônio Francisco Lisboa entre 1800 e 1805, na fase final e mais dolorida de sua carreira. Em 1985, a UNESCO reconheceu o conjunto como Patrimônio Mundial, consolidando de vez seu lugar na história da arte.

O conjunto reúne 78 esculturas esculpidas por Aleijadinho em Congonhas.

Ao todo, o santuário reúne 78 esculturas em tamanho natural. Os 12 profetas, feitos em pedra-sabão, ficam no adro da igreja, enquanto outras 66 figuras, esculpidas em cedro, representam os Passos da Paixão de Cristo, distribuídas em seis capelas ao longo do caminho até a basílica.

Os profetas de pedra foram esculpidos entre 1800 e 1805 por Aleijadinho e sua equipe, num período em que o artista já enfrentava uma doença grave, que o havia deixado sem dentes e sem os dedos dos pés.

Mesmo diante dessas limitações físicas, essa fase final da carreira de Aleijadinho é considerada por muitos estudiosos o ponto mais alto de toda a sua obra. O historiador francês Germain Bazin, um dos grandes especialistas em barroco mineiro, chegou a descrever o conjunto como uma das mais grandiosas representações do sagrado já produzidas por mãos humanas.

O que motivou a construção do santuário que abriga as obras?

A construção do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos começou em 1757, motivada por uma promessa do português Feliciano Mendes, que teria se curado de uma doença ligada ao trabalho na mineração. A partir dali, a obra se expandiu ao longo de décadas.

Foi só depois, já no início do século XIX, que Aleijadinho assumiu a tarefa de esculpir os profetas que hoje ocupam o adro. Alguns marcos ajudam a situar essa trajetória no tempo:

  • 1757: início da construção do santuário;

  • 1800 a 1805: esculpidos os 12 profetas em pedra-sabão;

  • 1939: tombamento do conjunto pelo Iphan.

Profetas de Aleijadinho diante da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG
Profetas de Aleijadinho diante da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG

Profetas de Aleijadinho diante da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, MG - Foto: Igor Souza

Por que os profetas são considerados um marco do barroco mundial?

O conjunto formado pelos profetas é considerado o maior grupo escultórico barroco em pedra do mundo, além de um dos mais completos conjuntos de esculturas de profetas já reunidos em um único local. Essa combinação de escala e qualidade artística é o que sustenta seu prestígio internacional.

Estudiosos da arte colonial brasileira apontam a obra como o ápice da produção de Aleijadinho, reunindo elementos que resumem o auge do barroco praticado em Minas Gerais durante o período colonial:

  • Maior conjunto barroco em pedra do mundo;

  • Considerado obra-prima da arte colonial brasileira;

  • Elogiado por historiadores como Germain Bazin;

  • Parte do acervo mais estudado do barroco mineiro.

Como as esculturas são protegidas da poluição e do tempo?

As estátuas sofrem com lesões causadas por fungos, bactérias e a ação do tempo, além da poeira gerada pela extração industrial de minério de ferro, atividade que hoje sustenta boa parte da economia de Congonhas. Marcas de vandalismo também já foram registradas ao longo dos anos.

Para conter esses danos, o conjunto passa por limpeza a cada cinco anos, com uso de biocida contra líquens e fungos. Em 2011, tecnologia de digitalização em 3D e robótica foi usada pela primeira vez no Brasil justamente para ajudar na preservação dos profetas:

  • Limpeza do conjunto a cada cinco anos;

  • Uso de biocida contra líquens e fungos;

  • Digitalização em 3D das esculturas, desde 2011;

  • Monitoramento periódico das condições de conservação;

  • Debate sobre eventual substituição por réplicas.

Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos e esculturas dos profetas de Aleijadinho em Congonhas, MG
Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos e esculturas dos profetas de Aleijadinho em Congonhas, MG

Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos e esculturas dos profetas de Aleijadinho em Congonhas, MG - Foto: Igor Souza

Existe um museu dedicado a essa história em Congonhas?

Em 2015, foi inaugurado o Museu de Congonhas, com uma exposição dedicada ao complexo do Santuário de Matosinhos e à história da cidade. O espaço funciona como complemento à visita às obras de Aleijadinho.

Reunidos, os pontos turísticos ligados à obra do artista formam um roteiro que pode ser percorrido no mesmo passeio:

  • Adro com os 12 profetas em pedra-sabão;

  • Capelas dos Passos da Paixão, em madeira;

  • Museu de Congonhas, inaugurado em 2015.

+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino

Congonhas segue conhecida como a Cidade dos Profetas

Hoje, Congonhas tem mais de 60 mil habitantes e mantém a mineração como uma de suas principais atividades econômicas, assim como acontecia no século XVIII, ainda que o garimpo manual tenha dado lugar à extração industrial de minério de ferro.

Apesar dessa mudança econômica, a identidade da cidade continua ligada ao legado de Aleijadinho. Parte da Estrada Real, Congonhas segue atraindo visitantes, pesquisadores e admiradores da arte barroca de diferentes partes do mundo.

Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos com escultura dos profetas em Congonhas, MG, sob céu azul
Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos com escultura dos profetas em Congonhas, MG, sob céu azul

Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos com escultura dos profetas em Congonhas, MG, sob céu azul - Foto: Igor Souza

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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