Onde Guimarães Rosa viveu antes de escrever "Sagarana", essa é Itaguara, a cidade que virou obra literária

Um médico recém-formado passou dois anos numa cidade mineira anotando causos e tipos humanos que depois viraram uma das obras mais lidas da literatura brasileira

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
14/08/2026

Antes de publicar Sagarana, em 1946, João Guimarães Rosa passou dois anos como médico recém-formado em uma cidade do interior de Minas Gerais, ouvindo causos, observando costumes e anotando tipos humanos que mais tarde reapareceriam em sua ficção, época em que o interior mineiro ainda dependia quase inteiramente de estradas de terra e da presença de um único médico por região. A cerca de 95 km de Belo Horizonte, Itaguara guarda até hoje as marcas dessa passagem, incluindo um museu dedicado à obra do escritor.

Itaguara nasceu de uma das primeiras conquistas territoriais de Minas Gerais

A região era habitada pelos índios cataguases até o fim do século 17, quando bandeirantes paulistas avançaram pelos sertões mineiros em busca de terras e riquezas. Às margens do Ribeirão Conquista, então chamado Ribeirão São Felipe, surgiu o Arraial de Conquista, um dos primeiros povoados formados na região. O nome do arraial não fazia referência a esse confronto, mas à disputa judicial que Manoel Teixeira Sobreira travou para garantir a posse das terras.

A colonização efetiva da área começou em 1703, quando quatro irmãos vindos de Guimarães, em Portugal, chegaram para povoar terras ainda sem donos:

  • guarda-mor João da Costa Guimarães;

  • tenente Antônio da Costa Pereira;

  • José da Costa Ribeiro;

  • padre Domingos da Costa Ribeiro.

Por que a cidade se chama Itaguara?

O nome atual vem do tupi-guarani, junção de itá, que significa pedra, com guará, associado a lobo — algo como pedra do lobo ou pedra lascada, segundo estudiosos. Antes disso, o povoado era chamado Nossa Senhora das Dores de Conquista, em referência à capela erguida no fim do século 18, cuja construção recebeu provisão em 1796 por iniciativa do morador José Rodrigues Marins.

A troca de nome aconteceu em 7 de setembro de 1923, por sugestão do então prefeito de Itaúna, município ao qual o distrito pertencia. A ideia seguia uma corrente indianista que ganhou força depois da Semana de Arte Moderna de 1922, favorável a nomes de origem indígena no lugar de referências portuguesas ou religiosas.

Fusca azul estacionado diante de uma casa antiga em rua residencial de Itaguara, MG
Fusca azul estacionado diante de uma casa antiga em rua residencial de Itaguara, MG

Fusca azul estacionado diante de uma casa antiga em rua residencial de Itaguara, MG - Foto: Igor Souza

Torre da Igreja Matriz cercada por palmeiras e vegetação no centro de Itaguara, MG
Torre da Igreja Matriz cercada por palmeiras e vegetação no centro de Itaguara, MG

Torre da Igreja Matriz cercada por palmeiras e vegetação no centro de Itaguara, MG - Foto: Igor Souza

O que Guimarães Rosa fazia em Itaguara?

Recém-formado em medicina pela então Universidade de Minas Gerais, em 1930, Guimarães Rosa chegou a Itaguara para clinicar e passou os dois anos seguintes na cidade, entre 1931 e 1932. Era comum visitar pacientes de fazendas e povoados vizinhos a cavalo, rotina que o aproximou do cotidiano rural que já conhecia da infância.

Segundo pesquisadores da obra roseana, foi em Itaguara que o médico começou a observar com atenção de escritor:

  • a paisagem física da região — flora, fauna, serras, rios e córregos;

  • os tipos humanos e sociais do interior mineiro;

  • as estórias e causos contados pelos moradores locais.

Itaguara marcou o início de Sagarana

Sagarana foi publicado somente em 1946, mas boa parte do material que sustenta os contos do livro remonta à passagem de Guimarães Rosa por Itaguara. Pesquisadores da obra do escritor defendem que foi ali que ele começou a rascunhar as histórias que, anos depois, ganhariam forma definitiva.

O próprio escritor deixou um registro do encantamento que sentiu pela região, em uma frase hoje reproduzida pela prefeitura local: "Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito pra gente deitar no chão e se acabar!..." O livro reuniria nove contos ambientados no sertão mineiro e se tornaria um marco na renovação da prosa regionalista brasileira.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

O que visitar em Itaguara hoje?

O centro da cidade concentra os principais pontos ligados a essa história. A Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores segue como referência religiosa e arquitetônica, erguida a partir da capela que deu origem ao antigo distrito de Conquista. O município se emancipou de Itaúna em 31 de dezembro de 1943 e elegeu como primeiro prefeito o farmacêutico João da Costa Guimarães.

Outros dois espaços completam o roteiro para quem quer conhecer a cidade por trás de Sagarana:

  • Museu Sagarana (Musa), que reúne objetos, documentos e registros da passagem de Guimarães Rosa pela cidade;

  • Ruínas do Engenho Velho, vestígios da Fazenda Bom Sucesso, do século 18;

  • Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa, que leva o nome do escritor.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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