O vilarejo tricentenário colado na "capital do ouro" que ainda é um segredo guardado a sete chaves

A 26 km da cidade mais famosa de Minas, um vilarejo com 300 anos de história carrega igrejas tombadas, trilhas e até uma vinícola boutique que pouca gente conhece

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
02/07/2026

Enquanto Ouro Preto lotava de turistas, um vilarejo fundado por volta de 1700 ficou quieto, com suas ruas de pedra e sua igreja do século XVIII, sendo passado de boca em boca entre quem prefere descobrir as coisas antes de virar cartão-postal. Glaura, distrito de Ouro Preto a 26 quilômetros do centro histórico, carrega mais de 300 anos de história, trilhas, cachoeiras e até uma vinícola boutique, mas segue pouco conhecido pelo grande turismo.

Por que Glaura é um dos distritos mais antigos de Ouro Preto?

O vilarejo surgiu por volta de 1700, quando o "flagelo da fome" que assolava Vila Rica levou os primeiros moradores a se fixarem ali para produzir alimentos para a população que crescia com a corrida pelo ouro. Com o tempo, o arraial, então chamado de Casa Branca, tornou-se ponto de divisão entre Vila Rica e São João del-Rei e eixo de passagem obrigatória dos bandeirantes e tropeiros da Estrada Real.

Em 1943, a Câmara de Ouro Preto mudou o nome do distrito para Glaura, em homenagem ao poeta ouropretano Manoel Inácio da Silva Alvarenga (1749/1814), autor de um poema de mesmo nome que exaltava a natureza do Brasil. O distrito abriga cerca de 1.515 habitantes, conforme o censo do IBGE de 2022, e fica a uma altitude média de 1.038 metros.

O que visitar no centro histórico de Glaura?

O distrito guarda marcos que surpreendem quem não espera encontrar tanta história fora de Ouro Preto. Os principais pontos para conhecer no centrinho são:

  • Igreja Matriz de Santo Antônio: construída entre 1758 e 1764 pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, tombada pelo IPHAN em 1962, com retábulos barrocos e duas torres sineiras;

  • Chafariz de Dom Rodrigo: fonte de água construída em 1782 por ordem do governador Dom Rodrigo de Menezes, símbolo da importância do vilarejo na Estrada Real;

  • Artesanato local: o distrito produz artesanato em taquara, couro, palha e azulejo, além de doces caseiros como goiabada cascão e doce de leite em compota.

A Igreja Matriz foi projetada por Francisco de Lima Cerqueira, o mesmo mestre de obras das Igrejas do Carmo e São Francisco de Ouro Preto e do Santuário de Congonhas do Campo. A ornamentação interna concentra retábulos barrocos da primeira fase, estilo Dom João V, todos em madeira.

Igreja histórica de Glaura, distrito de Ouro Preto, com flores na entrada em Minas Gerais
Igreja histórica de Glaura, distrito de Ouro Preto, com flores na entrada em Minas Gerais

Igreja histórica de Glaura, distrito de Ouro Preto, com flores na entrada em Minas Gerais - Foto: Igor Souza

Passaporte da Estrada Real com carimbos em frente à igreja histórica de Glaura, em Ouro Preto
Passaporte da Estrada Real com carimbos em frente à igreja histórica de Glaura, em Ouro Preto

Passaporte da Estrada Real com carimbos em frente à igreja histórica de Glaura, em Ouro Preto - Foto: Igor Souza

Glaura também atrai quem gosta de natureza e aventura?

Sim. A região tem trilhas demarcadas, cachoeiras e permite acesso de bike a alguns pontos naturais. O entorno do distrito integra o Caminho do Sabarabuçu, trecho da Estrada Real com aproximadamente 160 quilômetros que passa por Glaura.

Para ciclistas e caminhantes que partem de Ouro Preto, o percurso até Glaura tem cerca de 32 quilômetros: 24 pela Rodovia dos Inconfidentes até Cachoeira do Campo e mais 8 pela via vicinal sinalizada até o distrito.

Glaura tem vinícola? Como assim?

Sim, e essa é a novidade que mais tem chamado atenção. A Quinta de Glaura, vinícola boutique fundada em 2020 pelo casal Elcy Caldas e Valace Portella, está dentro do distrito, a 33 quilômetros do centro de Ouro Preto. A vinícola cultiva 1,2 hectares das uvas Syrah, Marselan e Cabernet Franc a 1.177 metros de altitude, na porção sul da Cordilheira do Espinhaço.

É a primeira vinícola da região e já produziu o "Gemas de Ouro Preto", apontado como o primeiro vinho fino produzido naquele território. Para quem visita o distrito, a Quinta de Glaura representa uma parada incomum em como um lugar tricentenário pode se reinventar sem abrir mão da identidade.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Glaura vale mais do que uma parada rápida

A gastronomia do distrito segue o padrão mineiro de fogão a lenha: frango com orapronóbis, leitão à pururuca e os tradicionais doces caseiros. O comércio funciona com mais movimento nos fins de semana, o que vale considerar ao planejar a visita.

O acesso a partir de Belo Horizonte é pela BR-356, sentido Ouro Preto, com cerca de 73 quilômetros. Partindo de Ouro Preto, o percurso é de aproximadamente 26 quilômetros.

Quem chega a Glaura percebe que o que torna o lugar interessante é a sobreposição de camadas históricas ainda vivas: uma fonte do século XVIII no meio da rua, uma igreja tombada há mais de 60 anos pelo IPHAN e uma vinícola a 1.177 metros de altitude. Um vilarejo que atravessou três séculos sem perder o essencial, e que aguarda ser descoberto pela maioria das pessoas.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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