O teto da Igreja Matriz de Ouro Branco foi pintado por Mestre Ataíde, um dos maiores artistas do barroco mineiro

Um artista comparado a Aleijadinho deixou, no teto de uma igreja no interior mineiro, uma pintura que os estudiosos consideram única em toda a sua obra

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
28/08/2026

Quem entra na Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco, costuma erguer os olhos antes mesmo de reparar nos altares dourados. O teto da nave carrega uma pintura assinada por Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, um dos nomes mais importantes do barroco produzido no interior de Minas Gerais. A obra, discreta se comparada a outros templos famosos da Estrada Real, guarda uma composição que os próprios estudiosos consideram única na trajetória do artista.

Quem foi Mestre Ataíde, o autor da pintura?

Manuel da Costa Ataíde nasceu em Mariana em 1762 e morreu na mesma cidade em 1830. Considerado um dos maiores nomes da pintura colonial brasileira, seu legado costuma ser comparado ao de Aleijadinho na escultura.

Sua obra mais conhecida é a Assunção da Virgem, no teto da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Mas o artista deixou pinturas de teto em diversas igrejas do interior de Minas Gerais, incluindo Itaverava, Santa Bárbara, Mariana e Ouro Branco.

O teto da Matriz de Ouro Branco tem uma composição única na obra do artista

Especialistas descrevem a arquitetura ilusionística do teto de Ouro Branco como única dentro da obra de Mestre Ataíde, com predomínio de linhas retas organizadas de forma pouco convencional, o que torna a leitura da composição mais complexa. No conjunto, dois elementos se destacam:

  • No teto da nave, uma pintura ilusionista mostra a Virgem entregando o Menino Jesus a Santo Antônio;

  • Na abóbada da capela-mor, a pintura imita uma falsa cúpula, à semelhança da Sé de Mariana.

O esboço da arquitetura e os anjos nas laterais são atribuídos à escola de discípulos do artista, prática comum na época para dar conta da grande demanda por esse tipo de trabalho nas igrejas mineiras.

Pintura no teto da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco MG, com detalhes barrocos
Pintura no teto da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco MG, com detalhes barrocos

Pintura no teto da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco MG, com detalhes barrocos - Foto: Igor Souza

Quando a igreja foi construída?

A construção da Matriz de Santo Antônio começou ainda na primeira metade do século XVIII, e as obras de embelezamento se estenderam por décadas. A fachada, por exemplo, só foi modificada entre 1774 e 1779, já perto do fim desse processo.

Cada etapa da obra levou décadas para ser concluída, o que é comum em igrejas coloniais desse porte. O histórico oficial registra estes marcos principais:

  • Primeira metade do século XVIII: início da construção;

  • 1735 a 1750: douramento dos altares barrocos;

  • 1774 a 1779: modificação da fachada;

  • Fins do século XVIII ou início do XIX: pintura do teto por Mestre Ataíde;

  • 1949: tombamento pelo Iphan.

Como a igreja foi recentemente restaurada?

Depois de mais de três anos de obras, a Matriz de Santo Antônio foi reaberta ao público em 2024. A restauração foi viabilizada pelo Semente, núcleo de incentivo a projetos socioambientais do Ministério Público de Minas Gerais.

Entre as partes restauradas estão o oratório, o arco-cruzeiro, o telhado e os pisos interno e externo, além da instalação de um novo sistema de segurança. O projeto contou com apoio do Governo de Minas, do Iepha, do Iphan e da Arquidiocese de Mariana.

Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco MG, com fachada barroca e torres históricas
Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco MG, com fachada barroca e torres históricas

Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco MG, com fachada barroca e torres históricas - Foto: Igor Souza

Que outras belezas naturais cercam Ouro Branco?

Aos pés da cidade fica a Serra do Ouro Branco, hoje um parque estadual e considerada o marco inicial sul da Cadeia do Espinhaço. A serra abriga campos rupestres, um dos ecossistemas mais ricos do mundo, e reúne números que ajudam a entender sua importância:

  • Área de aproximadamente 1.614 hectares;

  • Altitude que varia entre 1.250 e 1.568 metros;

  • Nascentes que formam o Lago Soledade, usado no abastecimento da cidade;

  • Trilhas e cachoeiras usadas para caminhada, rapel e ciclismo.

No século XVIII, a serra era chamada de Serra do Deus Te Livre, por causa dos assaltos sofridos por viajantes que cruzavam a Estrada Real. Ainda hoje é possível encontrar vestígios do antigo caminho colonial, como muros de contenção e trechos de calçamento de pedra.

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A Estrada Real também deixou outras marcas na região

Ouro Branco integra o Circuito do Ouro e fica às margens da Estrada Real, entre Congonhas e Ouro Preto, no interior de Minas Gerais. A cidade foi distrito de Ouro Preto antes de se tornar município, e seu nome contrasta com o da vizinha: um bandeirante encontrou ali um metal precioso de coloração esbranquiçada.

Esse passado colonial também deixou construções que resistem até hoje espalhadas pela região, quase sempre ligadas de alguma forma à Estrada Real ou à própria Inconfidência Mineira:

  • A Fazenda de Carreiras, também chamada Casa de Tiradentes, que abrigou reuniões de inconfidentes mineiros;

  • A Capela Nossa Senhora Mãe dos Homens, datada de meados de 1865;

  • A Capela de Santana, na Fazenda Pé do Morro, tombada pelo Iepha em 2009.

Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Ouro Branco MG, com fachada branca e azul
Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Ouro Branco MG, com fachada branca e azul

Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em Ouro Branco MG, com fachada branca e azul - Foto: Igor Souza

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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