O segredo de pedra a poucos minutos do Santuário mais famoso de Minas que a maioria dos turistas ignora

A 6 km de Catas Altas, um pequeno distrito guarda muros do século XVIII, fontes termais soterradas pelo ouro e construções feitas por escravos que nenhum roteiro famoso costuma mencionar

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
03/07/2026

Quem vai a Catas Altas quase sempre tem o mesmo destino na cabeça: o Santuário do Caraça, aquele complexo de mais de 11 mil hectares com igreja neogótica, lobo-guará e cachoeiras. E é aí que a maioria vira o volante de volta para casa sem perceber que a 6 quilômetros, no distrito de Morro D'Água Quente, existe um vilarejo que carrega três séculos de história da mineração em cada muro de pedra, em cada vão de janela, em cada ruína que a vegetação ainda não engoliu.

Por que o nome Morro D'Água Quente?

A explicação está nos escritos do naturalista francês Auguste de Saint Hilaire, que passou pela região em 1887. Segundo ele, o nome veio das fontes termais que existiam nas proximidades do vilarejo. O problema foi que as mesmas escavações feitas para encontrar mais ouro destruíram as fontes, e uma delas acabou soterrada por um desabamento. A água quente desapareceu, mas o nome ficou.

A história do distrito começa no século XVIII, com a chegada de uma família portuguesa que iniciou a exploração de ouro na região. A Mina do Bananal, explorada por Domingos Vieira da Silva e seus descendentes, foi uma das mais ricas do vilarejo. O distrito integra hoje o roteiro Entre Serras do Circuito do Ouro.

O que ainda está de pé no vilarejo?

Esse é o ponto que surpreende quem chega sem expectativa. O vilarejo guarda uma concentração de vestígios do período colonial que poucas pessoas conhecem. As construções foram erguidas por escravos e resistiram ao tempo:

  • Muros de pedra canga: característica visual mais marcante do distrito, erguidos por toda a extensão das ruas;

  • Caixa d'água e moinhos de pedra: provavelmente do século XVIII, onde pepitas de ouro eram lavadas e a mesma água movia os moinhos;

  • Chapel de Nosso Senhor do Bonfim: registrada desde 1786, construída em estilo barroco, com estrutura de madeira e barro e fundação em pedra;

  • Balneário do Morro D'Água Quente: área de lazer com quedas d'água, lapas, grutas e nascentes.

A Chapel do Senhor do Bonfim guarda em seu interior um altar-mor em estilo rococó, pinturas douradas, piso de ladrilhos vermelhos de terra e uma imagem de Cristo crucificado feita em madeira. A visita precisa ser agendada com antecedência.

Existe trilha entre Morro D'Água Quente e Catas Altas?

Existe, e não é para iniciantes. A Travessia Catas Altas e Morro D'Água Quente é classificada como de alto nível de dificuldade. O percurso passa por estrada de terra, mata e cachoeira até alcançar a parte alta da serra, de onde a vista da região compensa o esforço.

Para quem prefere trilhas mais acessíveis, o Balneário do Morro D'Água Quente serve de ponto de partida para caminhos que alcançam as lapas, grutas e nascentes do entorno. O Balneário também tem quadras esportivas e lagoa, funcionando como ponto de encontro da comunidade local.

Capela em Morro d’Água Quente, com árvore ao lado, janela azul e céu claro
Capela em Morro d’Água Quente, com árvore ao lado, janela azul e céu claro

Capela em Morro d’Água Quente, com árvore ao lado, janela azul e céu claro - Foto: Igor Souza

Casario colonial em Morro d’Água Quente, com portas amarelas, janelas azuis e rua de pedra
Casario colonial em Morro d’Água Quente, com portas amarelas, janelas azuis e rua de pedra

Casario colonial em Morro d’Água Quente, com portas amarelas, janelas azuis e rua de pedra - Foto: Igor Souza

O que mais fazer na região durante a visita?

Quem passa por Morro D'Água Quente pode montar um roteiro que inclui pontos em Catas Altas, distante apenas 6 quilômetros. Os principais atrativos da sede municipal que complementam a visita ao distrito são:

  • Bicame de Pedra: aqueduto construído em 1792 por escravos; restam 100 metros de ruínas com arco central em pedra encaixada sem argamassa;

  • Santuário do Caraça: a 36 km de Catas Altas, com entrada paga, cachoeiras e aparição do lobo-guará ao anoitecer;

  • Fermentados de jabuticaba: produzidos por moradores locais; auge das vendas em maio, época da Festa do Vinho.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como chegar a Morro D'Água Quente?

A cidade de Catas Altas está a 120 quilômetros de Belo Horizonte, com acesso pela BR-381 seguindo as indicações para a cidade. O distrito de Morro D'Água Quente fica a 6 quilômetros do centro de Catas Altas, sentido Mariana, com cerca de 10 minutos de carro.

Morro D'Água Quente não compete com o Caraça. São escalas completamente diferentes de experiência. O distrito tem cerca de 10 minutos de carro a partir do centro de Catas Altas e pode ser visitado em poucas horas, o que o torna uma adição natural a qualquer roteiro pela região. Quem limita a visita ao destino mais famoso perde um vilarejo que parece ter parado no tempo, onde a pedra conta mais história do que qualquer placa de museu.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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