O refúgio natural coladinho na capital mineira que esconde uma das vilas ferroviárias mais charmosas do estado

Uma vila que já embarcou todo o ouro extraído de uma das maiores minas do Brasil guarda histórias de bandeirantes, ingleses e até uma cerveja batizada de barbante

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
08/07/2026

Praça de Honório Bicalho MG com árvores, bancos, área de lazer e montanhas ao fundo
Praça de Honório Bicalho MG com árvores, bancos, área de lazer e montanhas ao fundo

Praça de Honório Bicalho MG com árvores, bancos, área de lazer e montanhas ao fundo - Foto: Igor Souza

A menos de meia hora de Belo Horizonte, existe uma vila que já foi disputada por bandeirantes paulistas, exploradores franceses e mineradoras inglesas, todos atrás da mesma coisa: o ouro escondido nas margens do Rio das Velhas. Hoje, Honório Bicalho, distrito de Nova Lima, guarda essa história movimentada em meio a trilhos antigos e uma paisagem que parece desacelerar o tempo assim que a estrada deixa a capital para trás.

Quem foram os primeiros a chegar nessa região?

O primeiro a tomar posse das terras foi Manoel Afonso Gaia, bandeirante de família tradicional de Santos, cujo nome até hoje permanece gravado na memória e nas ruas da região. Depois dele, chegou um herdeiro direto da estirpe dos bandeirantes paulistas: um neto do famoso Fernão Dias Paes Leme, que se instalou em uma grande fazenda banhada tanto pelo Rio das Velhas quanto pelo Ribeirão dos Macacos.

A atividade mineradora atraiu cada vez mais gente para a região, que cresceu rapidamente ao longo do século XVIII. Em um recenseamento realizado em 1740, os moradores mais ricos de toda a freguesia local já residiam justamente nessa área, então conhecida pelo nome de Barra do Ribeirão dos Macacos, antes de receber a denominação atual.

Como uma disputa internacional pelo ouro chegou até esse vilarejo?

O filão mais rico da região era conhecido como Mina do Faria, e sua exploração rendeu décadas de disputas entre diferentes investidores estrangeiros. Em 1887, a mina foi adquirida por investidores franceses, que constituíram em Paris uma sociedade com capital expressivo para tocar a exploração mineral no local.

Problemas técnicos, como a infiltração de água nas galerias e a baixa concentração de ouro por tonelada extraída, tornaram o negócio pouco rentável para os franceses, que venderam a operação para ingleses depois de uma década de dificuldades. Mesmo sob nova administração, os mesmos obstáculos persistiram, levando ao fechamento da mina em 1908 e à venda do espólio para uma companhia mineradora ainda maior, que segue atuando na região até os dias atuais.

Por que existia até uma cerveja batizada de barbante nesse lugar?

Para abastecer os trabalhadores ingleses ligados às mineradoras da região, chegou a funcionar uma pequena fábrica de cerveja na própria vila. A bebida ficou conhecida popularmente como cerveja-barbante, apelido curioso que vinha do método usado para fechar as garrafas: na ausência de tampinhas, as rolhas precisavam ser amarradas com barbante e seladas com breu.

Esse detalhe de cotidiano ajuda a entender como a presença estrangeira na mineração moldou não só a economia, mas também pequenos hábitos da vida local naquele período. Entre os elementos que marcaram essa fase de intensa atividade industrial e comercial na região, vale destacar alguns pontos curiosos:

  • A produção local de cerveja voltada especificamente aos trabalhadores ingleses;

  • O uso de rolhas amarradas com barbante, já que tampinhas ainda não existiam;

  • A presença de diferentes nacionalidades convivendo em um mesmo vilarejo de mineração.

O que a ferrovia representou para o crescimento dessa vila?

A estação ferroviária inaugurada em 1890 recebeu inicialmente o nome de Barra do Ribeirão dos Macacos, sendo rebatizada em homenagem ao engenheiro civil responsável pelo planejamento e construção daquele trecho da estrada de ferro. A partir daí, por cerca de noventa anos, a estação se tornou literalmente o centro da vida da comunidade, ditando o ritmo das atividades diárias do vilarejo.

Foi por ali que passou, durante décadas, todo o ouro extraído das minas da região antes de seguir para outros destinos. Com a desativação do transporte ferroviário, a estação original acabou abandonada e demolida ao longo do tempo, mas recentemente passou por um processo completo de revitalização, reaberta à comunidade com novo nome e nova estrutura.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Vale a pena visitar essa vila hoje, sabendo de toda essa história?

Sim, especialmente para quem aprecia descobrir camadas de história por trás de paisagens aparentemente simples. A nova estrutura da estação inclui hoje um espaço cultural, um posto de informação turística e até uma réplica de locomotiva, reforçando o compromisso da comunidade em preservar essa memória ferroviária e mineradora.

A poucos quilômetros da capital mineira, caminhar pelas ruas dessa vila significa cruzar com vestígios de bandeirantes paulistas, disputas internacionais por ouro e uma rotina industrial que moldou todo o desenvolvimento da região ao redor de Nova Lima, criando um destino onde história e proximidade com Belo Horizonte se encontram de forma rara em Minas Gerais.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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