O que um julgamento da Inquisição tem a ver com uma das igrejas mais antigas de Minas? A resposta está em Caeté

Uma acusação falsa, um padre diante da Inquisição e uma promessa que virou igreja de pedra: a história por trás de um templo mineiro do século XVIII

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
12/10/2026

Um padre é acusado por uma mulher da nobreza, levado ao tribunal mais temido da época e salvo por uma confissão no leito de morte. É assim que a tradição oral de Caeté explica a origem da Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso. A igreja, erguida inteiramente em pedra no século XVIII, guarda uma das histórias mais curiosas entre as igrejas históricas de Minas.

Quem foi o padre que enfrentou a Inquisição em Caeté?

A primeira capela da freguesia era administrada pelo padre Henrique Pereira, primeiro vigário colado da paróquia. Segundo o relato preservado pela comunidade e registrado pelo jornal Estado de Minas, ele acabou preso depois de uma acusação falsa feita por uma senhora da nobreza.

A partir daí, a história segue um roteiro que os moradores repetem há gerações. Os passos principais são estes:

  • O padre é levado a julgamento no tribunal da Inquisição;

  • Na prisão, promete construir uma nova igreja se for absolvido;

  • A acusadora, perto da morte, se arrepende e o inocenta;

  • Livre, ele volta para Minas e dá início à nova Matriz.

Por que o Santo Ofício causava tanto medo?

O Brasil colonial nunca teve um tribunal próprio da Inquisição. Os casos considerados graves eram enviados a Lisboa, e o acusado podia passar anos longe de casa, sem saber direito do que era acusado nem quem o havia denunciado.

Por isso, uma denúncia bastava para destruir a reputação de alguém, fosse leigo ou religioso. Vale dizer que o processo do padre Henrique não aparece nos estudos acadêmicos consultados sobre a Matriz, o que mantém o episódio no campo da tradição.

O que os documentos confirmam

Se a promessa é tradição, a obra tem papel passado. Uma pesquisa publicada pela UFMG, com base em códices do Arquivo Público Mineiro, mostra que a construção avançou em etapas bem marcadas.

O próprio estudo cita relatos de que papéis antigos da igreja teriam sido destruídos no início do século XX, fato nunca comprovado. Mesmo assim, três datas ajudam a montar a linha do tempo:

  • 1752: são lançadas as condições para a obra da nova Matriz;

  • 1756: começa a alvenaria da capela-mor;

  • 1757: ano gravado no frontispício, que marcaria o fim da fachada.

Coreto cercado por palmeiras em frente à Igreja Matriz no centro histórico de Caeté, MG
Coreto cercado por palmeiras em frente à Igreja Matriz no centro histórico de Caeté, MG

Coreto cercado por palmeiras em frente à Igreja Matriz no centro histórico de Caeté, MG - Foto: @praondevou

Casarão histórico com fachada colonial, janelas coloridas e telhado de barro no centro de Caeté, MG
Casarão histórico com fachada colonial, janelas coloridas e telhado de barro no centro de Caeté, MG

Casarão histórico com fachada colonial, janelas coloridas e telhado de barro no centro de Caeté, MG - Foto: @praondevou

Por que a Matriz de Caeté é diferente das outras?

Em uma região onde as igrejas costumavam ser levantadas com madeira e barro, a Matriz de Caeté foi feita toda em pedra. O Estado de Minas chega a apontá-la como a primeira igreja construída em alvenaria de pedra no estado.

O projeto também chama a atenção pelo nome ligado a ele. Dois pontos ajudam a entender o peso histórico do prédio:

  • O risco é atribuído a Manuel Francisco Lisboa, pai do Aleijadinho;

  • A igreja foi tombada pelo Iphan em 1938.

Quem deixou sua marca no interior da igreja?

Do lado de dentro, a nave única leva até a capela-mor. O retábulo do altar principal, no estilo D. João V, é obra do entalhador José Coelho de Noronha, que assumiu o trabalho no fim da década de 1750.

Nem tudo tem autoria definida, e isso faz parte do interesse da visita. Durante a visita, vale reparar em:

  • O forro da nave, com os quatro evangelistas e painéis de Aarão e Moisés;

  • A pintura da sacristia, que inclui São João Nepomuceno;

  • Os retábulos que pesquisadores atribuem ao Aleijadinho.

Caeté foi uma das primeiras vilas do ouro

Antes de se chamar Caeté, a cidade era a Vila Nova da Rainha, criada em 1714 como uma das sete vilas do ouro de Minas. A região também foi palco da Guerra dos Emboabas, entre 1707 e 1709, quando paulistas e forasteiros disputaram o controle das minas.

A paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso foi criada em 16 de fevereiro de 1724 e completou 300 anos em 2024. Hoje, o município da Região Metropolitana de Belo Horizonte tem 38.776 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como aproveitar a visita à Matriz?

A Matriz pode ser o ponto de partida de um dia dedicado à história da cidade. Como os horários de abertura podem mudar, o ideal é confirmar com a paróquia antes de sair de casa.

Para aproveitar bem o passeio, algumas dicas fazem diferença:

  • Começar pela fachada e procurar a data gravada no frontispício;

  • Reservar tempo para olhar o forro com calma;

  • Respeitar os horários de missa e celebrações;

  • Visitar também a Igreja de São Francisco;

  • Subir até a ermida da Serra da Piedade, do século XVIII.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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