O povoado de Vau é parte de uma rota com mais de 1.630 km criada pela coroa portuguesa no século XVIII

Um vilarejo minúsculo às margens de um rio guarda no próprio nome a função que exerceu na maior rota histórica do Brasil

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
12/08/2026

Casa rural ao lado de estrada de terra cercada por árvores em Vau, Diamantina, MG
Casa rural ao lado de estrada de terra cercada por árvores em Vau, Diamantina, MG

Casa rural ao lado de estrada de terra cercada por árvores em Vau, Diamantina, MG - Foto: Igor Souza

Um pequeno povoado às margens do Rio Jequitinhonha guarda, no próprio nome, a função que exerceu durante séculos: servir de travessia para viajantes e tropeiros que cruzavam o interior de Minas Gerais. O Vau, distrito do Serro, integra a Estrada Real, rede de caminhos históricos com mais de 1.630 quilômetros criada pela coroa portuguesa no século XVIII para escoar ouro e diamantes até o litoral fluminense. A rota, hoje considerada a maior atração turística histórica do país, ainda conecta pontos como esse à memória do período colonial.

Onde fica o povoado do Vau e qual é a origem do seu nome?

O Vau é um distrito do Serro, localizado às margens do Rio Jequitinhonha, na divisa entre os territórios de Diamantina e Serro. Essa posição geográfica explica boa parte da importância histórica do povoado dentro da rede de caminhos que cortava a região.

O nome do povoado vem de uma característica física do rio: o vau é o ponto mais raso de um curso d'água, onde a travessia a pé ou a cavalo se torna possível sem embarcações. Foi justamente esse trecho raso do Rio Jequitinhonha que serviu de passagem para viajantes e tropeiros ao longo de séculos de uso da Estrada Real.

O que foi a Estrada Real e por que a coroa portuguesa a criou?

A história da Estrada Real começa em meados do século XVIII, quando a coroa portuguesa decidiu oficializar os caminhos usados para o transporte de ouro e diamantes extraídos do interior de Minas Gerais até os portos do Rio de Janeiro. Antes disso, o trânsito de riquezas acontecia de forma menos organizada, dificultando o controle fiscal sobre a produção mineral.

Com o passar dos séculos, essa rede de caminhos se transformou na maior rota turística histórica do Brasil, hoje reconhecida por conectar a história colonial do país com a riqueza natural e cultural de três estados. Alguns números ajudam a dimensionar essa rota:

  • mais de 1.630 quilômetros de extensão total;

  • origem em meados do século XVIII, por decisão da coroa portuguesa;

  • função original de transporte de ouro e diamantes até o Rio de Janeiro;

  • conexão entre os estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

A rota é dividida em quatro caminhos históricos

A Estrada Real não é um trajeto único, mas um conjunto de quatro caminhos distintos, cada um ligado a uma função específica dentro da economia colonial. O Vau está inserido justamente no Caminho dos Diamantes, trecho que conectava a região diamantífera ao redor de Diamantina ao restante da rota principal.

Essa divisão em diferentes caminhos reflete a diversidade de produtos e regiões que a Estrada Real precisava atender, do ouro extraído em Vila Rica aos diamantes encontrados nas margens dos rios da região de Diamantina. Os quatro trajetos que compõem a rota são:

  • o Caminho Velho, ligação mais antiga entre Minas Gerais e o litoral;

  • o Caminho Novo, criado posteriormente para agilizar o transporte;

  • o Caminho dos Diamantes, que passa pelo Vau e por Diamantina;

  • o Caminho Sabarabuçu, trecho ligado à região de Sabará.

Qual é o papel de Serro dentro desse roteiro histórico?

O Vau está administrativamente vinculado ao Serro, município situado na região central da Serra do Espinhaço, a cerca de 240 quilômetros de Belo Horizonte. A cidade é considerada uma das mais importantes referências do Caminho dos Diamantes, reunindo um patrimônio histórico-cultural relevante para quem percorre a Estrada Real.

Entre os pontos que reforçam essa importância estão igrejas como a Matriz de Nossa Senhora da Conceição e a de Nossa Senhora do Rosário, além do Museu Casa dos Otoni, que guarda móveis e objetos dos séculos XVIII e XIX. Serro também é conhecida pela produção do Queijo do Serro, tradição gastronômica que atravessa gerações na região.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

O que esperar de uma visita a essa região da Estrada Real?

Além do valor histórico ligado à travessia do Vau e ao conjunto arquitetônico de Serro, a região reserva atrativos naturais para quem busca combinar cultura e contato com a natureza durante o percurso pela Estrada Real.

Parte desses atrativos está concentrada no Parque Estadual do Pico do Itambé, que preserva trilhas, cachoeiras e piscinas naturais em meio à paisagem da Serra do Espinhaço. Entre as experiências mais procuradas por quem visita a região estão:

  • a travessia histórica do Vau, no Rio Jequitinhonha;

  • as trilhas do Parque Estadual do Pico do Itambé;

  • as cachoeiras e piscinas naturais espalhadas pela serra;

  • o patrimônio religioso e cultural do centro histórico de Serro.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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