O nome Queluzito é uma homenagem ao antigo município de Queluz, hoje Conselheiro Lafaiete
Uma pequena cidade do interior de Minas carrega no próprio nome uma homenagem a outro município, hoje conhecido de forma bem diferente
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
25/09/2026
Quem vê a placa de Queluzito pela primeira vez dificilmente resiste à pergunta: "Queluz… ito?". O diminutivo não é brincadeira. Essa pequena cidade do Alto Paraopeba carrega no nome uma homenagem à antiga Vila de Queluz, que hoje todo mundo conhece como Conselheiro Lafaiete, e da qual ela fez parte por mais de cem anos. Por trás do nome curioso estão uma capela que levou doze anos para ficar pronta, uma troca de nome que só se completou quase meio século depois e uma vizinha famosa pelo manganês.
Tudo começou com um homem chamado Amaro e uma capela erguida nas próprias terras
Muito antes de virar cidade, o lugar se chamava Santo Amaro. Em 1726, Amaro Ribeiro começou a construir em suas terras uma capela dedicada ao santo xará do dono. A obra só terminou em 12 de março de 1738, doze anos depois, e as primeiras casas foram surgindo em volta dela. É a história de tantos povoados mineiros: primeiro vem a igreja, depois vem a gente.
Enquanto boa parte de Minas vivia a corrida do ouro, Santo Amaro começou pela terra. A fertilidade do solo sustentou as primeiras famílias com a agricultura. Depois chegou o gado e, com ele, o leite, que virou uma das principais atividades do lugar. Esse jeito de viver ligado ao campo ainda ajuda a definir o ritmo de Queluzito.


Igreja no centro de Queluzito, cercada por jardins, caminhos de pedra e casario histórico, MG - Foto: Igor Souza
Afinal, por que Santo Amaro virou Queluzito?
Por mais de um século, o lugar foi distrito de Queluz, criado oficialmente em 1858. Era Santo Amaro na boca dos moradores e Santo Amaro no papel. A mudança de nome veio em etapas, e com um detalhe curioso na grafia:
1943: o distrito deixa de ser Santo Amaro e passa a se chamar Queluzita, em homenagem ao antigo nome do município-mãe;
1962: vira cidade, separada de Conselheiro Lafaiete, ainda como Queluzita;
1991: o "a" dá lugar ao "o", e nasce oficialmente o Queluzito que aparece nas placas hoje.
O diminutivo é raro entre os nomes de cidades mineiras, e talvez por isso o nome grude tão fácil na memória. Ele funciona quase como um sobrenome de família: diz de onde a cidade veio, mas deixa claro que ela seguiu o próprio caminho.


Vista do centro de Queluzito, com praça ajardinada, casario e letreiro da cidade, MG - Foto: Igor Souza
O que Queluzito tem a ver com o homem que deu nome a Conselheiro Lafaiete?
A ligação vai além do nome. Entre os primeiros moradores de Santo Amaro estava José da Costa Oliveira. A prefeitura o descreve como inconfidente e bisavô de Lafayette Rodrigues Pereira, o conselheiro do Império que daria nome à cidade vizinha em 1934. Ou seja: a família de um dos personagens mais conhecidos da região tem raízes justamente no pequeno arraial de Santo Amaro.
Conselheiro Lafaiete também teve outros nomes antes do atual. Primeiro foi o Arraial do Campo Alegre dos Carijós, terra dos indígenas carijós muito antes da chegada dos bandeirantes. Depois, em 1790, virou a Real Vila de Queluz, nome que faz referência a Queluz, em Portugal, onde ficava o palácio da rainha D. Maria I. Uma linha do tempo ajuda a entender essa história:
1674: a bandeira de Pais Leme passa pela região;
1675: é a vez da expedição de Lourenço Castanho;
Por volta de 1680: o fidalgo espanhol D. Rodrigo cruza a área;
1683: a bandeira de Garcia Rodrigues deixa o primeiro relato sobre o arraial de garimpeiros e indígenas;
1790: em nome de D. Maria I, o Visconde de Barbacena assina a criação da Real Vila de Queluz.
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Tem minério em Queluzito? Tem, mas a riqueza sempre veio do campo
O subsolo de Queluzito guarda manganês, só que em reservas pequenas. Parte dele chegou a ser explorada pelos próprios donos das terras, sem nunca virar o motor da economia. Numa região marcada pela mineração, a cidade construiu a vida de outro jeito. Em resumo:
Leite e agropecuária: o coração da economia desde os tempos de Santo Amaro;
Manganês em pequena escala: explorado só em parte.
Quem ficou com a fama foi a vizinha. O Morro da Mina, em Conselheiro Lafaiete, respondeu por boa parte do manganês que o Brasil exportou para os Estados Unidos, inclusive durante as duas guerras mundiais, e deu a Lafaiete o apelido de "Cidade do Manganês". Queluzito seguiu no seu ritmo, pequena e com o nome da "mãe" na placa de entrada.


Igreja matriz de Queluzito com fonte, cruzeiro, jardins e praça sob céu azul, MG - Foto: Igor Souza
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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