O museu de Barbacena que expõe uma das páginas mais sombrias da história da saúde no Brasil

Um museu gratuito guarda os registros de uma das maiores tragédias da saúde pública brasileira. Poucos conhecem essa história e ela precisa ser contada

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
07/08/2026

Fachada histórica do Museu da Loucura em Barbacena, MG, sob céu azul com nuvens
Fachada histórica do Museu da Loucura em Barbacena, MG, sob céu azul com nuvens

Fachada histórica do Museu da Loucura em Barbacena, MG, sob céu azul com nuvens - Foto: Igor Souza

O Hospital Colônia de Barbacena foi fundado em 1903 como o primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais e, ao longo de décadas, se transformou em algo que o próprio Estado não conseguia explicar. Entre os anos 1930 e 1980, estima-se que mais de 60 mil pessoas morreram dentro de seus muros. O museu criado no local em 1996 é o primeiro dedicado à saúde mental no Brasil e guarda, em exposição permanente e gratuita, os registros dessa história que o país demorou muito para encarar.

Quem eram as pessoas internadas no Hospital Colônia?

O Hospital Colônia foi criado com capacidade para cerca de 200 pacientes. Décadas depois, no período de maior superlotação, chegou a reunir aproximadamente cinco mil pessoas. Segundo pesquisas divulgadas pela jornalista Daniela Arbex, cerca de 70% dos internos não tinham diagnóstico de transtorno mental.

Na prática, a instituição também funcionou como instrumento de exclusão social. Entre os grupos e situações documentados estavam:

  • Pessoas pobres, negras, sem documentos, em situação de rua ou consideradas andarilhas;

  • Homossexuais, pessoas com epilepsia e pessoas classificadas, à época, como alcoólatras;

  • Mulheres que engravidaram fora do casamento ou foram afastadas após sofrer violência;

  • Crianças abandonadas ou rejeitadas pelas próprias famílias.

Essas características não representavam doenças mentais. Eram, muitas vezes, condições pessoais ou sociais tratadas como desvios pelos padrões morais e preconceitos daquele período.

Embora existissem procedimentos oficiais para a internação, os critérios eram frequentemente frágeis, arbitrários ou utilizados de forma abusiva. Muitas pessoas foram enviadas para Barbacena por autoridades policiais, familiares, patrões ou outras figuras que exerciam poder sobre suas vidas.

O que o psiquiatra italiano viu quando entrou no hospital?

Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou o Hospital Colônia e declarou publicamente que estava diante de um campo de concentração nazista. No mesmo ano, o jornalista Hiram Firmino publicou no jornal Estado de Minas a série de reportagens intitulada "Os Porões da Loucura", e o cineasta Helvécio Ratton lançou o documentário "Em Nome da Razão", com imagens do interior do hospital.

Os relatos descrevem práticas que incluíam eletrochoques sem anestesia, isolamento, contenção física, fome e frio. Em noites de inverno, chegaram a ser registradas 60 mortes em um único dia. Além disso, 1.857 corpos de internos foram vendidos para faculdades de medicina em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, sem consentimento de familiares.

O que o Museu da Loucura guarda hoje?

O museu foi inaugurado em 16 de agosto de 1996, fruto de convênio entre a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais e a Fundação Municipal de Cultura de Barbacena. O prédio escolhido foi o Torreão, construção de 1922 dentro do próprio Centro Hospitalar Psiquiátrico, o que permite que a história seja contada nos locais originais onde os fatos aconteceram.

O acervo reúne materiais que documentam tanto os horrores do passado quanto as mudanças que vieram depois:

  • Equipamentos de eletrochoque e instrumentação cirúrgica usados nos internos;

  • Fotografias, documentos e vídeos que reconstroem a história do hospital ao longo do século XX;

  • Registros do movimento antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica, incluindo a Lei 10.216 de 2001.

A entrada é gratuita. O funcionamento atualizado deve ser confirmado diretamente com o museu, pois os horários têm sofrido alterações recentes.

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O que mudou em Barbacena depois de tudo isso?

A cidade que por décadas foi chamada de "Cidade dos Loucos" passou por uma transformação significativa na abordagem da saúde mental. Após a desativação do modelo manicomial, Barbacena implantou residências terapêuticas, Centros de Atenção Psicossocial e outros serviços que permitem a reabilitação dos pacientes fora do ambiente hospitalar.

Hoje a cidade é referência nacional no tratamento humanizado em saúde mental. O museu funciona como ponto central dessa virada, mostrando o antes e o depois de forma que o visitante consiga compreender a dimensão do que foi mudado. Em 2013, a jornalista Daniela Arbex lançou o livro "Holocausto Brasileiro", que transformou essa história num debate nacional, e em 2016 um documentário homônimo foi lançado com base na mesma investigação.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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