O memorial que guarda mais de 6 mil objetos de Clara Nunes fica na mesma cidade mineira onde ela nasceu, Caetanópolis

Mais de 6 mil objetos guardados numa sala de creche contam hoje a história de uma das maiores cantoras da música popular brasileira

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
27/10/2026

Durante quase três décadas, fotografias, roupas de palco e discos de ouro de uma das maiores cantoras do país ficaram sob os cuidados de uma irmã, numa sala anexa a uma creche do interior mineiro. Foi só em agosto de 2012 que esse material ganhou espaço próprio, batizado de Memorial Clara Nunes, na mesma cidade onde a cantora nasceu. Caetanópolis, a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte, guarda hoje mais de 6 mil objetos que contam, peça por peça, a trajetória de uma das vozes mais marcantes da música popular brasileira, do início da carreira até os anos de maior sucesso.

Como um acervo guardado numa creche virou um memorial?

Depois da morte de Clara Nunes, em 1983, o viúvo, o compositor Paulo César Pinheiro, despachou de caminhão, com um termo de doação, os objetos pessoais e artísticos da cantora para a terra natal dela. O material ficou com Maria Gonçalves da Silva, a Dona Mariquita, irmã mais velha e madrinha de Clara. Ligada ao Grupo Espírita Paulo de Tarso, ela fundou em homenagem à irmã a Creche Clara Nunes e passou a guardar o acervo numa sala anexa, ainda sem estrutura de museu.

A virada começou no início dos anos 2000, quando a historiadora Sílvia Maria Jardim Brügger, da Universidade Federal de São João del-Rei, conheceu o acervo durante uma pesquisa sobre a cantora. Sua equipe passou cerca de dez anos identificando, higienizando e catalogando cada peça, até a inauguração do Memorial em 11 de agosto de 2012, véspera do dia em que Clara completaria 70 anos. Cumpria-se ali um desejo antigo: em vida, a cantora havia pedido à irmã que guardasse bem uma radiola, porque um dia talvez ganhasse um museu.

O acervo reúne peças que atravessaram décadas da carreira de Clara Nunes

Documentos, roupas de palco, discos, fotografias, recortes de jornais e imagens religiosas. O acervo do Memorial cobre praticamente toda a trajetória artística de Clara Nunes, do início da carreira até seus últimos trabalhos, e entre os itens catalogados estão:

  • Roupas usadas no espetáculo Clara Mestiça, que estreou em 1981;

  • A tornozeleira que se tornou símbolo visual da cantora;

  • Um painel cronológico batizado de Vida e Obra;

  • Registros da passagem de Clara pelo Japão, incluindo fotos, cartazes, roupas e chinelos;

  • Discos de ouro e troféus;

  • Objetos religiosos, colares e adereços de espetáculos.

Fachada alaranjada do Memorial Clara Nunes em Caetanópolis, MG, com placa do instituto na entrada
Fachada alaranjada do Memorial Clara Nunes em Caetanópolis, MG, com placa do instituto na entrada

Fachada alaranjada do Memorial Clara Nunes em Caetanópolis, MG, com placa do instituto na entrada - Foto: Igor Souza

Fachada da Casa de Clara Nunes em Caetanópolis, MG, com paredes rosadas e janelas azuis
Fachada da Casa de Clara Nunes em Caetanópolis, MG, com paredes rosadas e janelas azuis

Fachada da Casa de Clara Nunes em Caetanópolis, MG, com paredes rosadas e janelas azuis - Foto: Igor Souza

Quem doou as peças que formam o acervo?

A maior parte do que está exposto veio de Paulo César Pinheiro e de fãs da cantora, que contribuíram ao longo dos anos. A guarda, porém, coube a Dona Mariquita, a irmã que criou Clara depois da morte dos pais e cuidou do material por mais de duas décadas, até repassá-lo ao Instituto Clara Nunes, criado por familiares da artista em 2005. Três frentes se destacam nessa história:

  • Paulo César Pinheiro, compositor e viúvo de Clara Nunes, que enviou os objetos com termo de doação;

  • Maria Gonçalves da Silva, “Dona Mariquita”, irmã da cantora e guardiã do acervo até a criação do Instituto;

  • Fãs da cantora, que doaram peças e ajudaram a custear a reabertura do espaço.

Hoje, o Memorial é administrado pelo Instituto Clara Nunes, com apoio de um programa de extensão da UFSJ na conservação do acervo. Depois da mostra inaugural, o espaço recebeu em 2014 a exposição Clara Mestiça e, após quase quatro anos fechado, reabriu em agosto de 2022 com Clara – Quando eu Vim de Minas, sob curadoria de Marlon de Souza, voluntário no acervo desde 2005.

O que mais lembra Clara Nunes dentro da própria Caetanópolis?

O Memorial não é o único espaço da cidade dedicado à cantora. A Casa de Cultura Clara Nunes ocupa o prédio do antigo cinema local, onde ela se apresentou publicamente pela primeira vez, e foi inaugurada pela prefeitura em 2007, na abertura da segunda edição do festival que leva seu nome. Todo mês de agosto, mês de seu nascimento, a cidade organiza uma programação dedicada a ela:

  • O Festival Cultural Clara Nunes, criado em 2006 pela prefeitura municipal;

  • Apresentações musicais, oficinas, teatro e exposições, com entrada gratuita;

  • Atividades na Praça da Matriz e na Casa de Cultura, que atraem público de diferentes regiões.

A Creche Clara Nunes, fundada por Dona Mariquita, segue funcionando na mesma rua do Memorial, a Rua Fernando Lima, no Centro. Caetanópolis fica a cerca de 30 quilômetros de Sete Lagoas, pela BR-040, a mesma rodovia que leva até Belo Horizonte.

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Onde Clara Nunes viveu antes de deixar Caetanópolis?

Clara Francisca nasceu em 12 de agosto de 1942 no Cedro, então distrito de Paraopeba, que anos mais tarde se emanciparia como Caetanópolis. Filha caçula de Manoel Pereira de Araújo e Amélia Gonçalves Nunes, perdeu os pais ainda criança e foi criada pelos irmãos mais velhos. A casa onde passou a infância e o começo da adolescência hoje recebe visitantes:

  • O imóvel pertencia à fábrica de tecidos Cedro e Cachoeira, onde Clara e o pai trabalharam;

  • A prefeitura restaurou a construção e a abriu ao público em 7 de agosto de 2022;

  • No interior estão objetos ligados à carreira da cantora;

  • Durante o festival de agosto, a casa recebe oficinas e atividades culturais.

Foi com o pai, violeiro nas folias de reis da cidade, que Clara teve os primeiros contatos com a música. Em 1957, mudou-se para Belo Horizonte para trabalhar numa fábrica de tecidos no bairro Renascença e, pouco depois, começou a cantar em programas de rádio da capital, primeiro passo da carreira que a levaria ao Rio de Janeiro em 1965.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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