O distrito de São José das Três Ilhas, em Minas Gerais, já foi cenário de dois filmes, incluindo Lavoura Arcaica

Um vilarejo de pouco mais de 200 habitantes já recebeu duas produções de cinema nacional e guarda casarões que parecem parados no tempo

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
17/09/2026

Um vilarejo com pouco mais de 200 habitantes já recebeu duas equipes de cinema completas, incluindo a produção de um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos segundo a crítica especializada. São José das Três Ilhas, distrito de Belmiro Braga, guarda esse tipo de curiosidade dentro de um casario colonial que resistiu praticamente intacto desde a época dos barões do café. Localizado no interior mineiro, próximo à divisa com o Rio de Janeiro, o lugar une história, arquitetura e boa comida mineira em um único passeio.

São José das Três Ilhas nasceu na era dos barões do café

O primeiro morador da região foi o fazendeiro Antônio Bernardino de Barros, que se instalou no local ainda no século XIX. Foram os filhos dele que receberam os títulos de barão: José Bernardino de Barros tornou-se o Barão de Três Ilhas em 1874, e seu irmão, Gabriel Antônio Monteiro de Barros, recebeu o título de Barão de São José Del Rei em 1885. Os dois irmãos, ao lado de outros fazendeiros locais, foram responsáveis por dar os primeiros contornos ao povoado. A economia da época girava em torno das lavouras de café, atividade que sustentou a região por décadas.

Esses fazendeiros também financiaram parte das construções que ainda hoje formam o centro histórico do distrito, incluindo o sobrado do Barão de São José Del Rei. Esse casarão é o único do gênero encontrado no vilarejo, o que reforça seu valor arquitetônico e histórico. Mão de obra escrava esteve diretamente envolvida na construção de boa parte desse patrimônio, um detalhe que não pode ser esquecido ao contar essa história.

Igreja Matriz de São José das Três Ilhas, MG, cercada por árvores e flores sob o céu azul
Igreja Matriz de São José das Três Ilhas, MG, cercada por árvores e flores sob o céu azul

Igreja Matriz de São José das Três Ilhas, MG, cercada por árvores e flores sob o céu azul - Foto: @hospedariaepousadasaojose

Por que o distrito virou cenário de dois filmes nacionais?

A rua principal estreita, o casario colonial preservado e a igreja de pedra no alto do morro transformaram São José das Três Ilhas em um cenário praticamente pronto para o cinema. Foi essa ambientação intacta que atraiu duas produções nacionais para o distrito em momentos diferentes. Dois filmes marcaram essa relação entre o vilarejo e o cinema brasileiro:

  • O Menino Maluquinho 2, dirigido por Fernando Meirelles, gravado em 1997;

  • Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, baseado na obra de Raduan Nassar.

No filme de Fernando Meirelles, o distrito serviu de cenário para as férias do personagem principal na casa do avô, papel interpretado por Stênio Garcia. Já Lavoura Arcaica, lançado em 2001, ganhou reconhecimento ainda maior: em 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema o incluiu na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Essas duas produções ajudaram a colocar o pequeno distrito no imaginário de gerações de espectadores.

O que torna a Igreja de São José o principal marco do vilarejo?

A Igreja de São José ocupa uma posição de destaque no alto do morro, sendo visível já na chegada ao distrito. Construída em grandes blocos de pedra, em estilo neorromânico, a obra começou em 1878 e foi concluída dez anos depois, em 1888. A construção contou com mão de obra escrava e recursos dos barões do café da região.

Junto com o sobrado do barão e o restante do casario colonial, a igreja compõe um conjunto arquitetônico tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais desde 10 de setembro de 1997. Esse reconhecimento oficial ajuda a garantir a preservação de um patrimônio construído há mais de um século. Alguns elementos ajudam a resumir a importância desse conjunto histórico:

  • A Igreja de São José, erguida entre 1878 e 1888

  • O sobrado do Barão de São José Del Rei, único do gênero no vilarejo;;

  • O tombamento pelo IEPHA-MG, concedido em setembro de 1997.

Praça de São José das Três Ilhas, MG, com jardim, fonte central, casarões antigos e montanhas
Praça de São José das Três Ilhas, MG, com jardim, fonte central, casarões antigos e montanhas

Praça de São José das Três Ilhas, MG, com jardim, fonte central, casarões antigos e montanhas ao fundo - Foto: @hospedariaepousadasaojose

Como chegar a São José das Três Ilhas

Quem sai de Juiz de Fora encontra o caminho mais direto pela BR-040 sentido Rio de Janeiro até a saída 802, de onde parte a MG-353 rumo a Belmiro Braga. Dali, restam cerca de 20 quilômetros em estrada de chão até o distrito, trecho que costuma acrescentar cerca de uma hora à viagem e pede atenção redobrada em dias de chuva. O acesso também faz parte do Caminho Novo, um dos ramais históricos da Estrada Real, o que reforça o caráter colonial de todo o trajeto.

Quem vem do Rio de Janeiro tem duas opções principais: seguir pela BR-040 até a mesma saída 802 em direção a Belmiro Braga, viagem de cerca de três horas, ou cruzar o estado por Piraí e Rio das Flores até a divisa com Minas, marcada pelo Rio Preto, em um trajeto que costuma passar de quatro horas. Por causa do trecho final sem asfalto, veículos com maior distância do solo tornam o passeio mais tranquilo, embora carros de passeio também consigam fazer o percurso em dias secos.

  • Saída de Juiz de Fora pela BR-040 até a saída 802, seguindo pela MG-353 até Belmiro Braga;

  • Últimos 20 quilômetros até o distrito em estrada de chão;

  • Trecho integra o Caminho Novo, ramal histórico da Estrada Real;

  • Opção alternativa a partir do Rio de Janeiro, via Piraí e Rio das Flores, atravessando o Rio Preto na divisa entre os estados.

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O que esperar de uma visita a esse distrito do interior mineiro?

São José das Três Ilhas fica a cerca de 53 quilômetros de Juiz de Fora, o que facilita passeios de meio dia para quem está na região. O distrito conta com um pequeno comércio, um cartório e uma pousada, estrutura simples que combina com o ritmo tranquilo do lugar. Alguns elementos ajudam a montar um roteiro completo pela vila:

  • Caminhada pela rua principal, entre casarões coloniais preservados;

  • Visita à Igreja de São José e aos cinco Passos da Paixão de Cristo;

  • Parada no sobrado do Barão de São José Del Rei;

  • Participação na Festa de São José, realizada em julho.

A Festa de São José costuma reunir moradores e visitantes em torno de um almoço com comida mineira típica, além de sorteios que fazem parte da tradição local. Para quem busca contato com a boa comida do interior mineiro, essa é uma boa oportunidade de experimentar pratos preparados à moda antiga. Depois do passeio pelo centro histórico, a vila ainda reserva tempo suficiente para uma refeição tranquila antes do retorno.

Placa com o nome de São José das Três Ilhas, MG, instalada ao lado de uma estrada
Placa com o nome de São José das Três Ilhas, MG, instalada ao lado de uma estrada

Placa com o nome de São José das Três Ilhas, MG, instalada ao lado de uma estrada cercada por vegetação - Foto: @hospedariaepousadasaojose

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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