Nova Serrana, no Centro-Oeste de Minas, é conhecida como o polo do calçado esportivo do país, com cerca de 800 fábricas

Botas consertadas, uma rodovia aberta em 1969 e milhões de pares por ano: a trajetória da cidade mineira que se tornou referência em tênis populares

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
02/11/2026

Muitos dos tênis populares vendidos nas lojas do Brasil saem de uma mesma cidade mineira: Nova Serrana. A cidade do Centro-Oeste de Minas reúne mais de 800 fábricas de calçados e ganhou o título de capital nacional do calçado esportivo. Tudo começou com pequenas oficinas que consertavam botas e selas para quem passava pela região.

Como Nova Serrana virou a capital do calçado esportivo?

O polo calçadista de Nova Serrana é formado principalmente por pequenas e médias empresas, focadas na produção em grande escala de modelos populares, voltados a consumidores de renda média e baixa. O tamanho do setor impressiona para uma cidade de cerca de 110 mil habitantes:

  • Mais de 800 empresas em funcionamento;

  • Cerca de 100 milhões de pares produzidos por ano;

  • Mais de 40 mil empregos diretos e indiretos.

A maior parte da produção abastece o mercado brasileiro, mas parte dela segue para a América Latina, com destaque para a Argentina, e também para países da Europa, da Ásia, da Oceania e do Oriente Médio. O sindicato das indústrias locais coordena feiras e missões comerciais.

De onde vem a tradição do couro na cidade?

Nos anos 1920, a cidade ainda não fabricava calçados em série. Pequenas oficinas consertavam botas e selas, e famílias de origem portuguesa, como os Pinto da Fonseca, os Rodrigues de Carvalho e os Soares Silva, ajudaram a desenvolver o trabalho com o couro.

Dessas oficinas saíram as primeiras selas e botinas feitas à mão. Nos anos 1940, surgiram os primeiros fabricantes de calçados, e uma das fábricas pioneiras de botinas comprava a matéria-prima na vizinha Divinópolis, um dos centros comerciais mais próximos na época.

A estrada para Belo Horizonte acelerou tudo

Durante os anos 1960, a cidade já somava cerca de 20 pequenas fábricas, com alguma variedade de modelos. O grande salto veio com a abertura da rodovia até a capital, em 1969, que facilitou a compra de matéria-prima e o envio da produção para outras regiões do país.

A partir daí, o crescimento foi acelerado, e o número de empresas se multiplicou em pouco tempo. A evolução do setor mostra como a cidade mudou de escala em poucas décadas:

  • Anos 1960: cerca de 20 pequenas fábricas;

  • 1969: abertura da estrada até Belo Horizonte;

  • 1973: 48 fábricas de calçados;

  • 1985: cerca de 400 fábricas.

Ilustração de bancada de fábrica com formas, solados e recortes coloridos de tênis
Ilustração de bancada de fábrica com formas, solados e recortes coloridos de tênis

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar a produção de calçados esportivos

Ilustração de bancada de sapateiro antiga com botina de couro, martelo e sovela
Ilustração de bancada de sapateiro antiga com botina de couro, martelo e sovela

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar uma oficina de sapateiro dos anos 1940

Por que o tênis tomou o lugar das botinas?

A virada para o calçado esportivo teve três motivos principais: mão de obra mais barata, oferta crescente de materiais sintéticos e um processo de produção relativamente simples. Com isso, as fábricas conseguiam fazer muitos pares em pouco tempo e vender a preços acessíveis.

Estudos sobre o arranjo produtivo local chegaram a apontar que a região respondia por cerca de 55% da produção nacional de tênis, e que a maior parte dos empregos da cidade estava ligada aos calçados. Mesmo com mudanças no mercado, o tênis segue como o carro-chefe do polo.

Quais desafios o polo enfrenta?

A concorrência é intensa e mudou bastante nos últimos anos. Parte das empresas fechou as portas em momentos de crise, e empresários e pesquisadores apontam uma série de problemas que pressionam os fabricantes locais:

  • Cópias de produtos de grandes marcas;

  • Concorrência dos calçados chineses;

  • Compras online de produtos importados a preço baixo;

  • Entrada de mercadorias por triangulação via Uruguai;

  • Alta no custo dos insumos.

Para enfrentar esse cenário, o setor comemorou a cobrança de imposto sobre compras internacionais de até 50 dólares e tem apostado nas exportações, principalmente com a retomada dos negócios na Argentina, tradicional compradora dos calçados da cidade.

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O antigo Cercado virou cidade em 1953

Antes dos calçados, o lugar era uma fazenda ligada aos bandeirantes Bento Pais da Silva e João Leite da Silva Ortiz, na rota das expedições que seguiam de São Paulo para as minas de ouro. O nome Cercado vinha do curral onde os viajantes deixavam seus animais, e famílias portuguesas que plantavam algodão ajudaram o povoado a crescer.

O nome Nova Serrana faz referência a Pitangui, cidade vizinha também conhecida como Velha Serrana, à qual o povoado pertencia. A trajetória administrativa do município passou por três momentos principais:

  • 1869: criação do distrito de Cercado, ligado a Pitangui;

  • 1953: elevação a município com o nome de Nova Serrana;

  • 1954: instalação oficial do município, em 1º de janeiro.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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