No 'Celeiro de Minas', Carandaí guarda sabores e uma igreja que é cartão-postal
Essa cidade mineira é o maior polo horticultor do estado e guarda uma igreja do século XVIII com uma história surpreendente ligada à família do Tiradentes
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
08/07/2026
Carandaí fica na região do Campo das Vertentes, a cerca de 135 quilômetros de Belo Horizonte, a 1.057 metros de altitude, cortada pela BR-040 e pela antiga Estrada de Ferro Central do Brasil. O município é o maior horticultor de Minas Gerais e carrega o apelido de Celeiro de Minas com razão. Mas quem para na cidade apenas para abastecer o carro ou comer não sabe o que está perdendo. A história do lugar começa muito antes dos restaurantes e vai bem mais fundo do que o título agrícola sugere.
Por que Carandaí existe onde existe?
O nome veio do tupi: "caranda-hy" significa palmeira d'água, referência ao rio que corta a região. O primeiro núcleo urbano surgiu como ponto de apoio para tropeiros e diligências que seguiam para Vila Rica de Ouro Preto no início do século XVIII. A Ressaca, como era chamada essa localidade, cresceu antes da sede atual da cidade.
Décadas depois, o Barão de Santa Cecília, Francisco Rodrigues Pereira de Queirós, soube do projeto imperial de construção da ferrovia que ligaria Ouro Preto ao Rio de Janeiro e comprou terras estrategicamente no ponto onde seria instalada uma estação. A Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Dom Pedro II foi inaugurada em 28 de outubro de 1881 e esse movimento transformou Carandaí no polo regional que é hoje. A cidade foi instalada oficialmente em 27 de abril de 1924.
A Igreja da Ressaca tem uma história que pouca gente conhece
A Igreja de Nossa Senhora da Glória, chamada popularmente de Igreja da Ressaca, é o bem cultural mais antigo e preservado de Carandaí. A primeira construção no local data de 1736, erguida em madeira. No final do século XVIII foi reedificada em alvenaria de pedra e cal, preservando a transição estética entre o rococó e o neoclássico. O tombamento estadual pelo IEPHA ocorreu em 2008.
O que torna essa pequeníssima chapel ligada à Inconfidência Mineira é o fato documentado de que seu capelão entre 1771 e 1789 foi o padre Antônio da Silva e Santos, irmão mais velho de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O padre deixou a função justamente no ano da Inconfidência e se retirou para Barbacena, onde faleceu em 1805. O interior da igreja preserva três retábulos de madeira recortada e policromada, com pinturas rococó e emblemas franciscanos de qualidade notável para uma construção rural do século XVIII.


Igreja Matriz de Carandaí em Minas Gerais com torre alta, árvores e céu azul - Foto: Igor Souza


Estação Ferroviária de Carandaí em Minas Gerais com fachada histórica amarela e céu azul - Foto: Igor Souza
O acervo arquitetônico da cidade vai além da Ressaca
Carandaí guarda um conjunto de edificações históricas que poucas pessoas associam à cidade quando pensam em turismo em Minas Gerais. Os pontos que compõem esse acervo verificado são:
Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens (1770), na comunidade do Bom Jardim, com adro murado de pedra que servia de cemitério colonial;
Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no centro da cidade;
Estação Ferroviária de 1881, marco do desenvolvimento urbano de Carandaí;
Fazenda Contra-Mestre e as Ruínas do Pontilhão da antiga Ferrovia Pedro II;
Coreto da Praça Barão de Santa Cecília, onde acontecem as apresentações da Banda de Música Santa Cecília.
A gastronomia reflete o que a terra produz
Ser o maior polo horticultor de Minas Gerais tem consequência direta no prato. A altitude de mais de mil metros favorece a produção de legumes e hortaliças de qualidade, e a culinária local é marcada pela comida caseira feita com ingredientes frescos. O restaurante O Carroção, às margens da BR-040, é referência na região para quem quer comer comida mineira de verdade num ambiente de fazenda.
Para quem quer combinar natureza com gastronomia durante a visita, a região oferece:
Cachoeira da Fumaça e Cachoeira do Campestre, que foi local da primeira hidrelétrica da cidade e tem queda de aproximadamente 200 metros;
Rio Carandaí, propício para a prática de esportes aquáticos;
Trilha com Vestígios da Estrada Real, para quem gosta de caminhada com contexto histórico.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
O calendário cultural de Carandaí tem raízes firmes
A vida cultural da cidade é movida por manifestações que atravessaram gerações. A Festa do Sagrado Coração de Jesus reúne as danças de congado que são uma das expressões mais vivas da cultura afro-brasileira na região. O grupo de seresta Os Vagalumes é premiado em festivais fora do município e a Corporação Musical Santa Cecília mantém uma tradição musical que remonta ao período em que a ferrovia trouxe o movimento para a cidade. O carnaval local, chamado Caranfolia, tem desfiles de escolas de samba e blocos caricatos que atraem visitantes de municípios vizinhos todos os anos.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


Posts que você pode gostar
Todos os Direitos Reservados © 2024
Contato e parcerias: olharesporminasoficial@gmail.com
