Nem museu, nem cidade: o povoado de 300 anos que guarda a alma do Brasil Colonial
Um vilarejo com pouco mais de mil moradores já serviu de cenário para novelas e filmes, mas segue praticamente intacto desde o tempo dos tropeiros
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
10/07/2026
Existem lugares que resistem ao tempo de forma tão completa que parecem ter sido esquecidos de propósito. É o caso de Curralinho, distrito de Diamantina conhecido oficialmente como Extração, que surgiu no século XVIII como pouso de tropeiros e, mesmo depois de mudar de nome no papel, segue chamado pelo apelido original por quem mora e visita o lugar.
Por que esse povoado tem dois nomes diferentes?
O nome Curralinho remonta ao século XVIII e vem de um pequeno cercado de animais usado por tropeiros que viajavam entre Ouro Preto, o Rio de Janeiro e Diamantina, parando ali para descansar em um ponto estratégico da Estrada Real. O lugar acolheu também trabalhadores ex-escravizados que atuavam para contratadores de diamantes e, posteriormente, para a Coroa Portuguesa na extração de pedras preciosas na região.
No início do século XX, uma lei estadual de 1923 mudou oficialmente o nome do distrito para Extração, em referência direta à atividade de garimpo que sustentou a região por gerações. A mudança, porém, ficou restrita aos documentos: moradores e visitantes seguem chamando o lugar de Curralinho até hoje, e o nome oficial raramente é usado no dia a dia.
O que explica a fama do povoado no cinema e na televisão?
As ruas tranquilas e a arquitetura preservada transformaram Curralinho em cenário recorrente de produções audiovisuais ao longo das décadas. A novela Irmãos Coragem, da Rede Globo, gravou cenas no distrito usando um prédio amarelo que hoje funciona como biblioteca, mas que ainda mantém a placa que o eternizou na telinha.
Outras produções também escolheram o local, atraídas pela paisagem que parece ter parado no tempo:
A novela Chica da Silva, exibida pela extinta Rede Manchete;
A novela O Rei Davi, produzida pela Rede Record;
O filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga;
O longa Minha Vida de Menina.


Vaca descansando sob árvore em Curralinho, com igreja colonial e casas antigas ao fundo - Foto: Igor Souza
A igreja do povoado também conta uma história própria
No centro de Curralinho está a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construção que começou na segunda metade do século XIX e foi concluída em 1867. A arquitetura traz traços neoclássicos, característicos do período de transição entre o estilo colonial e as construções mais ecléticas que surgiram depois.
A presença histórica da população negra na região também aparece na Capela do Senhor dos Passos, erguida provavelmente no século XIX. Juntas, as duas construções formam o núcleo religioso do distrito e concentram boa parte das festividades que ainda movimentam o calendário local.


Fusca preto estacionado na praça de Curralinho, com igreja colonial azul e branca ao fundo - Foto: Igor Souza
Quais passeios valem a pena além do centro histórico?
A poucos minutos a pé do povoado está a Ponte do Acaba Mundo, construída em 1930 sobre o ponto exato onde se encontram o Rio Jequitinhonha Preto e o Rio Jequitinhonha Branco. A estrutura foi erguida originalmente para facilitar a passagem de tropeiros vindos do Leste de Minas em direção a Diamantina, e hoje é um dos pontos mais procurados por quem visita o distrito.
Para quem tem mais tempo disponível, outras atrações naturais completam o roteiro sem sair muito do centro:
A Gruta do Salitre, a cerca de um quilômetro do povoado, conhecida pela acústica e pelas formações em pedra;
A Mata dos Crioulos, porta de entrada para uma comunidade quilombola que preserva nascentes de rios da região;
Cachoeiras espalhadas pelos arredores, usadas por moradores e visitantes para banho.
+ Leia também: Turistas trocam o agito das cidades grandes pelo sossego desse destino
Vale a pena incluir esse distrito em uma viagem a Diamantina?
Sim, principalmente para quem busca um contraste com o movimento da cidade-sede, declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1999. A cerca de onze quilômetros do centro de Diamantina, Curralinho oferece um ritmo bem mais lento, sustentado por moradores que fazem questão de preservar a tranquilidade do lugar.
Não à toa, uma placa na entrada do povoado pede respeito a quem mora ali. Para quem aprecia história sem aglomeração, esse pequeno distrito reúne em poucas ruas um capítulo inteiro da formação de Minas Gerais, da época dos tropeiros até os dias em que câmeras de cinema e televisão passaram a registrar suas paisagens.


Formações rochosas da Gruta do Salitre cercadas por vegetação e céu azul em Minas Gerais - Foto: Igor Souza
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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