Nazareno em Minas virou destino de estrangeiros por causa de suas imagens sacras
Oficinas, igrejas e esculturas enviadas à Europa explicam por que uma pequena cidade mineira ganhou reconhecimento muito além do Brasil
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
28/07/2026


Fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré sob o céu azul em Nazareno, Minas Gerais - Foto: Igor Souza
Nazareno tem pouco mais de oito mil habitantes, mas sua produção artística alcançou lugares distantes. Imagens de santos, anjos e cenas religiosas feitas à mão chegaram a outros estados e países europeus. Essa circulação transformou a arte sacra em uma das principais referências culturais do município.
Por que as imagens de Nazareno chegaram ao exterior?
A projeção está ligada principalmente a Benedito Eduardo de Carvalho, conhecido como Dito Santeiro. O escultor chegou jovem a Nazareno e construiu ali uma carreira de décadas, trabalhando sobretudo com madeira e, em algumas peças, com pedra-sabão. Sua produção mantém referências da imaginária religiosa mineira.
Uma homenagem da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo registra trabalhos levados a Portugal, França e Itália. O reconhecimento cresceu depois que uma imagem de Frei Galvão foi entregue ao papa Bento XVI, em 2007, rendendo ao artista uma carta de agradecimento do Vaticano. As obras alcançaram:
diferentes estados brasileiros;
Portugal;
França;
Itália.
Dito Santeiro mudou a relação da cidade com a arte
Nascido em Conceição da Barra de Minas, Benedito mudou-se para Nazareno aos 15 anos. Autodidata, começou produzindo peças pequenas e passou a receber encomendas de esculturas humanas e religiosas. A observação das imagens presentes nas igrejas ajudou a formar seu olhar para rostos, roupas e movimentos.
A oficina instalada nos fundos de sua casa começou a receber religiosos, pesquisadores, compradores e curiosos. Registros preservados pelo artista relatam que visitantes chegavam à cidade perguntando por seu endereço. A experiência aproximou Nazareno de um turismo interessado no trabalho manual e em seus criadores.
Como uma imagem sacra é produzida?
O processo começa com a escolha da madeira e a definição do tamanho da obra. O escultor calcula as proporções antes dos primeiros cortes. Facas, formões e limas retiram pequenas partes do material, enquanto o formato do corpo, do rosto e das vestes aparece gradualmente.
Algumas imagens levam meses para ficar prontas, principalmente quando possuem muitos detalhes. Cada erro pode comprometer uma etapa avançada, por isso o trabalho exige paciência e observação. A produção costuma envolver:
preparação da madeira;
desenho das proporções;
retirada gradual do material;
acabamento;
pintura ou madeira natural.
Onde encontrar essas obras dentro de Nazareno?
A Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, na praça central, ajuda a compreender a ligação entre a cidade e a produção religiosa. Além de integrar a rotina dos moradores, o templo reúne peças que conectam a devoção local ao trabalho desenvolvido pelos escultores do município.
A Matriz conserva trabalhos de Dito Santeiro, incluindo peças relacionadas a São José e Nossa Senhora Aparecida. A Igreja do Rosário também possui esculturas do artista. Um percurso cultural pode reunir:
Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré;
Igreja do Rosário;
imagem do Senhor do Bonfim;
locais ligados à trajetória do escultor.
Por que estrangeiros se interessam por essas esculturas?
A arte sacra mineira reúne técnicas e referências que não aparecem da mesma forma em objetos industrializados. Para colecionadores, religiosos e estudiosos, cada peça carrega diferenças deixadas pelo artesão, desde a expressão do rosto até o movimento das roupas e a escolha do acabamento.
As obras produzidas em Nazareno dialogam com a tradição barroca e com artistas como Aleijadinho e Mestre Ataíde, sem reproduzi-los de maneira exata. Entre as características que explicam o interesse estão:
produção manual;
peças sob encomenda;
influência do barroco mineiro;
autoria reconhecível.
A continuidade do ofício depende de novos artesãos
O reconhecimento de um mestre não garante que a tradição continue sozinha. Dito Santeiro ministrou cursos e orientou aprendizes, compartilhando técnicas acumuladas durante décadas. Esse trabalho contribuiu para que outras pessoas conhecessem as exigências da escultura em madeira.
A permanência da atividade depende da valorização dos artistas, do registro de suas histórias e da formação de novos profissionais. Para Nazareno, manter esse conhecimento significa proteger parte de sua identidade cultural por meio de:
oficinas de aprendizagem;
registro da memória dos mestres;
valorização dos criadores locais.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Como organizar uma visita ligada à arte sacra?
O passeio pode começar pela praça e pela Igreja Matriz, seguindo depois para a Igreja do Rosário e outros locais que guardam obras do escultor. Como os templos permanecem ativos e oficinas podem ter horários próprios, é importante confirmar previamente as condições de entrada.
Nazareno não depende de uma grande estrutura turística para despertar interesse. O visitante encontra uma experiência ligada à fé, às pessoas e ao tempo necessário para transformar madeira em expressão artística. Foi essa combinação que levou o nome da pequena cidade mineira para fora do Brasil.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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