Na Segunda Guerra, a mica de Governador Valadares virou isolante de aviões, submarinos e rádios militares dos EUA
Um mineral que se desfaz em folhas finas trouxe engenheiros estrangeiros, uma ferrovia reformada e o início de uma ligação que mudou uma cidade mineira
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
31/10/2026
Muito antes de ganhar o apelido de Valadólares, Governador Valadares já tinha recebido americanos em suas ruas. Eles chegaram nos anos 1940, no meio da Segunda Guerra Mundial, atrás de um mineral brilhante que se desfaz em folhas finas: a mica. O que saía das lavras do Vale do Rio Doce acabou dentro de aviões, submarinos e rádios usados pelos Estados Unidos.
Por que os americanos foram buscar mica no interior de Minas?
Até a guerra, a Índia era a principal fornecedora do mineral, mas a rota ficou comprometida pela ação da marinha alemã. O Brasil passou a ser um fornecedor importante para os países aliados, e Valadares virou um dos principais centros de extração e exportação. A mica tinha qualidades que a tornavam difícil de substituir:
Separa-se em lâminas muito finas e flexíveis;
Resiste bem ao calor;
Funciona como isolante elétrico;
Mantém estabilidade química ao longo do tempo.
Por causa dessas características, a mica de Governador Valadares ganhou status de material estratégico. Empresas americanas se instalaram na cidade para extrair e beneficiar o mineral, empregando moradores da região no trabalho com as pedras.
Onde a mica de Valadares ia parar?
O destino era a indústria de guerra. A mica servia como isolante em equipamentos que precisavam suportar calor e eletricidade ao mesmo tempo, algo essencial em equipamentos militares que precisavam funcionar sem falhas em condições difíceis.
Leve e resistente, o mineral aparecia em peças pequenas, mas indispensáveis para o funcionamento de vários equipamentos. Entre os principais usos, estavam:
Aviões de combate;
Submarinos;
Rádios e seus componentes;
Equipamentos elétricos de alta tensão;
Cabos elétricos resistentes ao fogo.
A guerra mudou a infraestrutura do Vale do Rio Doce
Para escoar a produção da região, era preciso melhorar o transporte. Em 1942, com a criação da Companhia Vale do Rio Doce, a Estrada de Ferro Vitória a Minas passou por uma reforma completa, feita com dinheiro e supervisão dos Estados Unidos. Engenheiros americanos chegaram à cidade para tocar as obras.
A saúde também entrou na conta. Em 1943, foi instalado na região o Serviço Especial de Saúde Pública, que começou o combate à malária, doença que dificultava a ocupação do vale. A mica ainda ajudou a economia local a se recuperar da crise do café dos anos 1930.


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar o beneficiamento de mica nos anos 1940 - Foto: Igor Souza


Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar um rádio dos anos 1940 e lâminas de mica usadas como isolante
Como a mica ajudou a criar a ligação com os Estados Unidos?
Quando a guerra terminou, a maior parte dos engenheiros voltou para casa, mas alguns ficaram. Um deles, de sobrenome Simpson, permaneceu com a família, e a esposa, Geraldina, passou a dar aulas de inglês para jovens da cidade. A sequência de acontecimentos ajuda a entender o que veio depois:
Fim dos anos 1940 e início dos 1950: o ciclo da mica entra em declínio;
Início dos anos 1960: jovens estudantes de inglês viajam aos Estados Unidos em intercâmbios;
Segunda metade dos anos 1980: a emigração ganha força com a crise econômica no Brasil.
Os pioneiros voltavam com dólares e histórias, e as cartas enviadas de lá incentivavam outros moradores a seguir o mesmo caminho. Aos poucos, a rede de contatos nos Estados Unidos ficou tão grande que facilitou a vida de quem chegava depois.
Por que a cidade ganhou o apelido de Valadólares?
O nome mistura Valadares e dólares e é usado pelos próprios moradores com carinho e um pouco de ironia. Durante anos, o dinheiro enviado por quem vivia nos Estados Unidos movimentou o comércio, a construção de casas e o mercado imobiliário da cidade.
Esse fluxo fez surgir casas de câmbio e empresas de transferência de dinheiro em várias ruas do centro. A Praça dos Imigrantes homenageia tanto quem partiu quanto quem voltou, e a cidade ficou conhecida como a capital dos brasileiros nos Estados Unidos.
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Do Pico da Ibituruna ao Rio Doce, a cidade tem outros atrativos
O cartão-postal de Governador Valadares é o Pico da Ibituruna, com 1.123 metros de altitude e nome de origem tupi que significa montanha preta. Protegido como monumento natural desde 1989, ele tem estrada asfaltada, mirante com vista para todos os lados e fama internacional entre pilotos de voo livre.
A cidade, a cerca de 320 quilômetros de Belo Horizonte, também tem programas ligados ao Rio Doce e à própria história local, inclusive ao período da mica. Para quem planeja a visita, alguns pontos merecem lugar no roteiro:
O Pico da Ibituruna, para o voo livre ou só para a vista;
A Ilha dos Araújos, bairro cercado pelo Rio Doce, com orla para caminhadas;
O Museu da Cidade, com acervo sobre mineração, ferrovia e emigração;
A feira anual de pedras preciosas, que mantém viva a tradição mineral da região.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


Posts que você pode gostar
Todos os Direitos Reservados © 2024
Contato e parcerias: olharesporminasoficial@gmail.com
