Na Matriz de Cachoeira do Campo foi aclamado um governador durante a Guerra dos Emboabas
Dentro de uma igreja ainda em obras, um português foi aclamado pelo povo o primeiro governador eleito da história das Américas
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
31/07/2026


Fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazaré durante restauração em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto - Foto: Igor Souza
A cerca de 80 quilômetros de Belo Horizonte, o distrito de Cachoeira do Campo guarda um episódio raro na história política do continente. Foi ali, dentro da Matriz Nossa Senhora de Nazaré, que um português se tornou, por aclamação popular, o primeiro governador eleito pelo povo em toda a história das Américas. O ano era 1708, no auge da disputa sangrenta pelo controle do ouro que ficou conhecida como Guerra dos Emboabas.
O que aconteceu na Matriz de Cachoeira do Campo durante a Guerra dos Emboabas?
Em 1708, ainda em obras, a Matriz Nossa Senhora de Nazaré recebeu a cerimônia que consagrou Manuel Nunes Viana como governador das Minas. O ato aconteceu logo após a vitória dos emboabas na batalha mais sangrenta do conflito, travada no atual Oratório Festivo, dentro do próprio distrito.
Alguns pontos ajudam a situar o episódio dentro do contexto histórico:
Aclamação ocorrida em 1708, durante a Guerra dos Emboabas;
Cerimônia realizada dentro da Matriz Nossa Senhora de Nazaré;
Manuel Nunes Viana consagrado por aclamação popular;
Episódio considerado a primeira eleição popular de um governador nas Américas.
Quem foi Manuel Nunes Viana e por que ele foi aclamado?
O português liderava os emboabas, grupo formado majoritariamente por forasteiros que disputavam com os paulistas o controle sobre as recém-descobertas minas de ouro. O termo "emboaba", de origem tupi, era usado originalmente para aves com penas cobrindo as patas, e passou a designar de forma pejorativa os forasteiros calçados de botas que chegavam à região.
Após vencer o confronto decisivo em Cachoeira do Campo, Nunes Viana libertou prisioneiros paulistas capturados na batalha, gesto que reforçou seu prestígio entre os moradores locais. Esse prestígio conquistado no campo de batalha se converteu, pouco depois, na aclamação popular dentro da matriz ainda inacabada.
Existe controvérsia sobre o local exato da aclamação
Nem todos os historiadores concordam sobre o templo exato onde ocorreu a cerimônia. Para o historiador Augusto de Lima Júnior, a aclamação teria acontecido na Capela Nossa Senhora do Bom Despacho, e não na Matriz de Nazaré, que ainda estava em construção na parte alta do povoado.
Os argumentos que sustentam essa versão alternativa incluem:
A capela funcionava como matriz provisória naquele período;
A Igreja de Nazaré ainda não estava concluída em 1708;
Registros da época atribuem funções religiosas centrais à capela.
O que mais aconteceu de importante na praça da matriz?
Doze anos depois da aclamação, a mesma região voltou a ser palco de um episódio decisivo para a história de Minas Gerais. No adro da Matriz de Nazaré, ocorreu a prisão de Felipe dos Santos, líder da revolta contra a cobrança abusiva de impostos sobre o ouro extraído, conhecida como Sedição de Vila Rica.
O desfecho do episódio teve consequências diretas para a organização administrativa da região:
Prisão de Felipe dos Santos em 1720, no adro da matriz;
Condenação à morte do líder da revolta;
Divisão da antiga capitania em Capitania de São Paulo e Capitania de Minas Gerais.
O distrito guarda outros marcos da presença do poder colonial
Cachoeira do Campo abrigava o Palácio da Cachoeira, construído em 1773, onde os governadores da capitania preferiam residir para evitar o clima úmido de Vila Rica. O distrito também sediou o quartel do Regimento Regular de Cavalaria de Minas, origem da atual Polícia Militar do estado, onde serviu o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Entre os marcos que ainda remetem a esse período estão:
Palácio da Cachoeira, residência histórica dos governadores
Antigo quartel dos Dragões, hoje ocupado pelo Colégio Dom Bosco
Coudelaria Imperial, fundada em 1819 para criação de cavalos
+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida
Vale a pena visitar a Matriz hoje?
Tombada pelo Iphan há mais de sete décadas, a Matriz Nossa Senhora de Nazaré segue aberta à visitação de terça a sábado, entre 14h e 18h, reunindo altares suntuosos em estilo nacional português, o primeiro do barroco mineiro. A construção resume boa parte da história política do início da colonização das minas.
Antes de seguir viagem, vale ainda passar pela Feira dos Artesãos, na Rodovia dos Inconfidentes, onde peças em pedra-sabão feitas por artesãos locais completam a visita ao distrito.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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