Muriaé nasceu do comércio com os indígenas puris, que trocavam raízes medicinais como a poaia com os primeiros colonos

Uma raiz usada em remédios, trocas desiguais com os primeiros moradores da mata e uma expedição de 40 homens explicam o nascimento desta cidade mineira

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
02/11/2026

Antes do café, dos trilhos e das avenidas, o que movia a região de Muriaé era uma raiz arrancada do chão da mata. Chamada de poaia, ela valia dinheiro nas cidades e era trocada entre os indígenas puris e os primeiros colonos que chegavam pelos rios da Zona da Mata. Foi desse comércio que nasceu o povoado que daria origem à cidade.

Quem eram os puris que viviam na região?

Os puris ocupavam as matas do leste de Minas muito antes da chegada dos colonizadores, ao lado de outros povos, como os coropós. Pouco se sabe sobre a origem deles, e boa parte do que se conhece hoje vem de registros feitos pelos próprios colonizadores, o que deixa muitas lacunas.

Durante o período do ouro, a Coroa portuguesa tratou a região, chamada de Sertões do Leste, como área proibida ao povoamento. A mata fechada funcionava como barreira natural contra o contrabando, e por isso a ocupação efetiva da Zona da Mata só começou no fim do século XVIII e no início do XIX.

O que é a poaia e por que ela valia tanto?

A poaia é a raiz da ipecacuanha, planta da mata atlântica usada há muito tempo na fabricação de remédios, inclusive para provocar vômito em casos de intoxicação. Por isso, tinha boa procura no mercado, e coletá-la virou um negócio atraente para aventureiros que se embrenhavam na mata em busca de lucro.

Esses coletores ficaram conhecidos como poalheiros. O comércio dependia diretamente do conhecimento dos indígenas, que sabiam onde encontrar a planta, e funcionava de forma bem desigual:

  • Os puris coletavam a raiz na mata;

  • Os poalheiros pagavam com aguardente, bebida que atraía os indígenas;

  • A poaia seguia para ser vendida em centros maiores, com lucro para os comerciantes.

A expedição de Constantino José Pinto deu origem ao povoado

No fim da década de 1810, o comerciante de ervas e raízes medicinais Constantino José Pinto desceu o Rio Pomba com cerca de 40 homens e chegou à região. Ele atuava com o apoio de Guido Tomás Marlière, responsável pela política oficial para os indígenas na província, e tinha uma missão definida:

  • Pacificar os puris;

  • Proteger os aldeamentos;

  • Catequizar os indígenas;

  • Fixar a população em terras próprias.

O grupo instalou o aldeamento perto de onde hoje está a Igreja do Rosário e reservou terras para o plantio. O núcleo ficou conhecido como Aldeia de São Paulo do Manoel Burgo, e o comércio de ervas e raízes, incluindo a poaia, seguiu ao lado da vida religiosa do povoado.

Ilustração de canoa de madeira na margem de rio na mata, com cestos de raízes
Ilustração de canoa de madeira na margem de rio na mata, com cestos de raízes

Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar uma canoa com raízes e ervas na margem de um rio no século XIX

Ilustração científica em aquarela da planta da poaia com folhas, flores e raízes
Ilustração científica em aquarela da planta da poaia com folhas, flores e raízes

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar a planta da poaia e suas raízes medicinais

Como o povoado virou cidade?

Com o tempo, o aldeamento cresceu ao longo do Rio Muriaé e passou a atrair novos moradores. Em 1819, Marlière construiu uma capela no local, e as décadas seguintes foram marcadas por uma sequência de mudanças administrativas que deram forma ao município.

Cada etapa refletia o crescimento do lugar e o aumento da importância econômica da região. Os principais marcos dessa trajetória foram:

  • 1841: criação do distrito de São Paulo do Muriahé;

  • 1855: elevação a vila, com separação de São João Batista do Presídio;

  • 1865: elevação a cidade, com o nome de Muriahé;

  • 1886: inauguração da estação da Estrada de Ferro Leopoldina;

  • 1923: mudança da grafia para Muriaé.

O que aconteceu com os puris depois da colonização?

A chegada dos colonos mudou de forma profunda a vida dos indígenas. O comércio da poaia, baseado em trocas desiguais, deixou os puris em situação de exploração, e os aldeamentos alteraram a forma como eles ocupavam a terra e se organizavam.

Com o avanço das fazendas de café e o crescimento das cidades, a presença dos puris na região foi diminuindo. Hoje, a história desse povo aparece principalmente nos estudos sobre a origem do município, que apontam os puris como os primeiros moradores do vale.

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O café e os trilhos mudaram o ritmo de Muriaé

Ainda no século XIX, o café se espalhou pelas terras da região, e o município chegou a ser o segundo maior produtor da província de Minas Gerais. A chegada da ferrovia, em 1886, acelerou esse crescimento, e a cidade entrou no século XX com novidades que mudaram o dia a dia:

  • 1910: chegada da energia elétrica;

  • 1911: primeiros sistemas de água e esgoto;

  • 1913: primeiro telefone urbano.

Hoje, Muriaé tem pouco mais de 100 mil habitantes e é um dos principais centros da Zona da Mata, com faculdades e um instituto federal. Para quem gosta de natureza, a Cachoeira da Fumaça, em Retiro do Muriaé, é a queda mais importante do rio que dá nome à cidade.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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