Morro do Pilar, cidade escondida atrás da Serra do Cipó que guarda as cachoeiras mais surpreendentes e vazias da região

Um município que já sediou a primeira fábrica de ferro do Brasil guarda cachoeiras raramente visitadas na Serra do Espinhaço

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
24/08/2026

Igreja Matriz de Morro do Pilar com torre alta, palmeiras e praça no centro da cidade, MG
Igreja Matriz de Morro do Pilar com torre alta, palmeiras e praça no centro da cidade, MG

Igreja Matriz de Morro do Pilar com torre alta, palmeiras e praça no centro da cidade, MG - Foto: Igor Souza

Do outro lado da Serra do Cipó, longe do fluxo de turistas que lota as trilhas mais conhecidas, existe uma cidade que praticamente ninguém menciona quando o assunto é cachoeira em Minas Gerais. Morro do Pilar nasceu do ouro encontrado por um bandeirante paulista no início do século XVIII e hoje guarda quedas d'água pouco exploradas, ruínas de uma fábrica pioneira e uma rotina de interior que resistiu ao tempo.

Onde fica essa cidade escondida atrás da serra?

Morro do Pilar está na Serra do Espinhaço, no trecho conhecido como Caminho dos Diamantes da Estrada Real, e faz fronteira direta com áreas do Parque Nacional da Serra do Cipó. A cidade fica do lado leste da serra, oposto ao trecho mais conhecido e visitado por turistas que chegam pela região de Santana do Riacho.

Essa posição geográfica ajuda a explicar por que o município permanece relativamente esquecido dentro de um roteiro tão procurado quanto o da Serra do Cipó. Antes de planejar a viagem, vale considerar alguns dados básicos:

  • Cerca de 150 quilômetros de Belo Horizonte;

  • Aproximadamente 50 quilômetros da região central da Serra do Cipó;

  • Pouco mais de 3 mil habitantes;

  • Parte do Caminho dos Diamantes da Estrada Real.

O ouro deu origem ao povoado no alto do morro

Em 1701, o bandeirante paulista Gaspar Soares encontrou ouro no local e ergueu ali uma capela dedicada a Nossa Senhora do Pilar, dando início ao arraial que depois se tornaria a cidade. Por muito tempo, o povoado foi conhecido justamente como Morro de Gaspar Soares.

A localidade passou por diferentes vínculos administrativos ao longo dos séculos, primeiro como distrito de Conceição do Mato Dentro, depois ligado ao Serro, até se emancipar como município independente em dezembro de 1953. Essa trajetória de disputas territoriais reflete como a região sempre esteve à margem das grandes rotas do ciclo do ouro em Minas.

Por que Morro do Pilar guarda um capítulo esquecido da siderurgia brasileira?

Em 1809, o intendente Manuel Ferreira da Câmara Bitencourt e Sá, formado em Coimbra e com experiência em centros metalúrgicos europeus, escolheu o município para instalar a primeira fábrica de ferro gusa do Brasil. A primeira corrida de ferro no alto-forno aconteceu em 1814, marcando o início da siderurgia em terras mineiras.

A iniciativa enfrentou resistência de importadores de ferro e de outros grupos interessados na época, e a fábrica encerrou as atividades por volta de 1830. Hoje restam apenas ruínas da estrutura original, um atrativo histórico visitado por quem quer entender essa parte pouco conhecida da industrialização brasileira.

Quais cachoeiras ainda escapam do movimento turístico?

A geografia isolada de Morro do Pilar é justamente o que preserva suas cachoeiras do fluxo intenso registrado em outros pontos da Serra do Cipó. Muitas delas exigem trilhas de terra mais longas ou acesso menos sinalizado, o que naturalmente afasta parte dos visitantes e mantém o ambiente mais silencioso.

Entre as quedas d'água mais procuradas por quem já conhece a região, estão:

  • Cachoeira do Tombo, com 50 metros de queda e poço profundo;

  • Cachoeira das Pedras, com formação rochosa que funciona como escorregador natural;

  • Cachoeira da Andorinha, dentro de um cânion de paisagem marcante;

  • Cachoeira do Lajeado, próxima à entrada da cidade, com formações em forma de banheira natural.

A fé também marca a paisagem do município

No alto do morro que deu nome à cidade está a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, construção que domina a paisagem local e segue como um dos pontos mais visitados do centro histórico. Foi justamente ali que nasceu o primeiro núcleo populacional da região, ainda no início do século XVIII.

A cerca de três quilômetros dali está a Capela Nossa Senhora de Lourdes, mais conhecida como Igreja do Canga, construção também do período colonial que carrega parte importante da memória fundadora do arraial. As duas construções ajudam a contar a história religiosa de um município que cresceu junto com a busca por ouro.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Como organizar a visita a Morro do Pilar?

Como o município ainda tem estrutura hoteleira limitada, muitos visitantes optam por se hospedar em Santana do Riacho, a cerca de 50 quilômetros de distância, e fazer o passeio até Morro do Pilar como parte de um roteiro mais amplo pela Serra do Cipó. Isso não impede, porém, pernoitar direto na cidade em pousadas mais simples.

Antes de sair para conhecer as cachoeiras, alguns cuidados ajudam a aproveitar melhor o passeio:

  • Confirme o estado das estradas de terra antes de sair;

  • Leve água e itens básicos, já que a estrutura local é reduzida;

  • Considere acampar nas áreas próprias para isso;

  • Pergunte aos moradores sobre o acesso às trilhas menos sinalizadas.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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