Montes Claros tem até um concurso para escolher o melhor roedor de pequi do mundo, durante a festa do fruto

Dez minutos, dezenas de frutos e um júri atento até aos dentes amarelados: a competição mais curiosa do sertão mineiro tem regras próprias e campeões famosos

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
01/11/2026

Dez minutos no relógio, uma pilha de frutos amarelos na mesa e jurados atentos a cada mordida. Em Montes Claros, roer pequi virou competição, com direito a título mundial, regras próprias e júri especializado. O concurso do melhor roedor de pequi do mundo acontece junto com a festa dedicada ao fruto e já virou uma das atrações mais comentadas do Norte de Minas.

Como funciona o concurso do melhor roedor de pequi do mundo?

A disputa é organizada pelo empresário e agente cultural Fred Rocha, num bar e restaurante da cidade. Na edição de 2024, a segunda da história, 32 competidores se inscreveram, e a prova coincidiu com a 31ª Festa Nacional do Pequi, realizada no mesmo fim de semana.

Cada participante tem 10 minutos para roer o máximo de pequis que conseguir, mas a quantidade não decide tudo. O júri avalia vários critérios ao mesmo tempo, o que torna o resultado imprevisível até o fim:

  • Número de pequis roídos;

  • Qualidade da roída, ou seja, quanto da polpa foi aproveitada;

  • Boca e dentes tingidos de amarelo;

  • Desenvoltura no manuseio do fruto;

  • Paixão demonstrada pelo pequi.

Quem já venceu a disputa?

A primeira edição, em 2023, foi vencida pela policial militar Jaqueline Silva Batista. No ano seguinte, ela voltou à competição e ficou em terceiro lugar, com 57 pequis roídos, numa prova que mostrou como os critérios de qualidade pesam tanto quanto a velocidade.

O campeão de 2024 foi o operador de máquinas Délio Souza Silva, com 56 pequis. Ele levou o título mesmo tendo roído menos frutos que dois adversários, porque caprichou na limpeza de cada caroço. O prêmio foi de mil reais, além de brindes, e os vídeos da disputa se espalharam pelas redes.

Roer pequi exige técnica e cuidado

O verbo roer não está ali por acaso. Logo abaixo da polpa amarela, o caroço do pequi esconde espinhos finos, que podem machucar quem morde sem cuidado. Por isso, quem cresceu no Norte de Minas aprende cedo algumas regras básicas:

  • Nunca morder o caroço;

  • Raspar a polpa com os dentes da frente, devagar;

  • Parar quando a polpa acabar e a parte espinhosa começar a aparecer.

O fruto tem cheiro forte e sabor marcante, e divide opiniões até entre os mineiros. Na cozinha local, aparece em pratos como arroz com pequi e frango com pequi, além de licores, cremes, sorvetes e até cerveja artesanal feita por produtores da região.

Ilustração de pequis abertos com polpa amarela e caroços roídos em mesa de madeira
Ilustração de pequis abertos com polpa amarela e caroços roídos em mesa de madeira

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar pequis abertos e caroços roídos

Ilustração científica em aquarela de galho de pequizeiro com flores e frutos
Ilustração científica em aquarela de galho de pequizeiro com flores e frutos

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar o galho, as flores e o fruto do pequizeiro

O que acontece na Festa Nacional do Pequi?

A Festa Nacional do Pequi existe há mais de três décadas e chegou à 32ª edição em 2025, com entrada gratuita. A programação ocupou a Avenida Viriato Ribeiro, o Mercado Municipal e o Parque Cândido Canela, com atividades para diferentes públicos:

  • Shows com nomes da música regional e nacional;

  • Artesanato e oficinas;

  • Culinária típica com pratos à base de pequi;

  • Atividades educativas sobre o cerrado.

A festa reúne ao menos 40 empreendedores de alimentos e bebidas que transformam o fruto em pratos e produtos. Nos últimos anos, o evento passou a dividir espaço com festivais gastronômicos que valorizam outros sabores do cerrado, como umbu, baru e coquinho-azedo.

Por que o pequi é tão importante para o Norte de Minas?

O pequi é o fruto símbolo do cerrado, e sua safra vai de dezembro a fevereiro. Nesse período, a coleta e a venda do fruto garantem renda para milhares de famílias de pequenas cidades da região, e cerca de 30 mil famílias de agricultores participam da produção ligada a Montes Claros.

Para proteger essa riqueza, uma lei de 2025 proibiu a derrubada predatória de pequizeiros e passou a incentivar o plantio de mudas. Na região, cooperativas de agricultores familiares e agroextrativistas também ajudam a levar o fruto e seus derivados a outros mercados.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Montes Claros vai além do pequi

A cidade, a cerca de 420 quilômetros de Belo Horizonte, é o principal centro de comércio, saúde e ensino do Norte de Minas. Em agosto, as ruas do centro recebem catopês, marujos e caboclinhos em uma tradição de quase dois séculos, reconhecida como patrimônio imaterial do estado.

Para quem planeja a viagem fora do período da festa, a cidade oferece outros programas ligados à cultura e à natureza do sertão mineiro, e alguns deles merecem lugar no roteiro:

  • As Festas de Agosto, com reis e rainhas mirins nos ternos de catopês;

  • O Parque Estadual da Lapa Grande, com mais de 50 cavernas e uma gruta de 2,2 quilômetros;

  • O Mercado Municipal, vitrine de frutos, farinhas e produtos do cerrado.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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