Monte Carmelo, no Triângulo Mineiro, ganhou a primeira olaria em 1920 e virou a capital mineira da telha

Barro, fornos a lenha e dezenas de fábricas espalhadas pela cidade transformaram um antigo arraial de garimpo em referência na produção de telhas no Triângulo

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
01/11/2026

Em Monte Carmelo, o barro sempre valeu mais do que parece. A cidade do Triângulo Mineiro viu nascer sua primeira olaria em 1920 e, décadas depois, já tinha cerâmicas espalhadas por diferentes pontos do mapa urbano. O barro tirado da terra virou emprego, renda e um apelido que acompanha o município até hoje: capital mineira da telha.

Por que Monte Carmelo é chamada de capital mineira da telha?

O título vem da produção de telhas, tijolos e outras peças de cerâmica vermelha, que transformou a cidade na principal produtora de telhas da região do Vale do Paranaíba. No auge do setor, a atividade dominava a economia local, e os números da época mostram o tamanho dessa presença:

  • Cerca de 40 indústrias de cerâmica vermelha em funcionamento nos anos 1990;

  • Perto de 4 mil empregos diretos em 2000;

  • Um contingente equivalente a cerca de 10% da população da época.

Os registros oficiais nem incluem as pequenas olarias de fundo de quintal, que sempre funcionaram à margem dos cadastros. As fábricas também não ficaram concentradas em um único distrito industrial e se espalharam por diferentes pontos da cidade.

Como a argila virou negócio na cidade?

Dois fatores explicam o crescimento: a fartura de argila de boa qualidade nos arredores e a oferta de mão de obra vinda da zona rural. Nomes como Jorge Fernandes e Nelo Bosi são lembrados entre os pioneiros, e a Cerâmica Pallisy, registrada em 1954, é a mais antiga a aparecer nos cadastros da prefeitura.

A partir daí, o número de empresas só cresceu. Muitas famílias passaram o ofício de pai para filho, e os registros municipais mostram como novas cerâmicas foram surgindo a cada década:

  • Anos 1960: seis novas empresas registradas;

  • Anos 1970: mais seis;

  • Anos 1980: mais nove;

  • Anos 1990: mais 27, o maior salto registrado.

Cada telha passa por um longo caminho até o forno

O processo começa nas jazidas de argila, em propriedades rurais do município, e termina nos fornos das cerâmicas. Apesar da modernização, a lógica básica da produção continua a mesma de décadas atrás, com etapas que exigem tempo e cuidado:

  • Extração da argila nas jazidas;

  • Mistura do barro para dar liga;

  • Moldagem das peças;

  • Secagem antes da queima;

  • Queima nos fornos, sob o cuidado dos lenheiros.

A partir do fim dos anos 1990, muitas empresas mudaram a forma de trabalhar. As prensas manuais deram lugar às automáticas, as vagonetas substituíram as antigas grades de secagem, e várias fábricas passaram a usar máquinas de queima de serragem nos fornos.

Ilustração de pilhas de telhas de barro avermelhadas secando ao sol do fim da tarde.
Ilustração de pilhas de telhas de barro avermelhadas secando ao sol do fim da tarde.

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar a produção de telhas de cerâmica vermelha

Ilustração de forno de tijolos com fogo aceso e lenha empilhada ao lado da entrada
Ilustração de forno de tijolos com fogo aceso e lenha empilhada ao lado da entrada

Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para representar a queima de peças em um forno de cerâmica

O que levou o setor a encolher depois de 2000?

O auge da produção ficou nos anos 1990. A partir de 2000, a combinação de fiscalização mais rigorosa, custos de produção mais altos e concorrência das telhas de cimento derrubou o ritmo das fábricas, e boa parte das olarias acabou fechando as portas.

A retomada começou por volta de 2006, embora o setor não tenha voltado ao tamanho do auge. Mesmo menor, o setor continua ligado à identidade da cidade, e o apelido de capital mineira da telha segue firme entre os moradores e na região.

Quais os impactos da extração de argila?

Pesquisadores da universidade federal que tem campus na cidade acompanharam, com imagens de 2012, 2016 e 2018, o avanço das jazidas em propriedades rurais. O levantamento identificou áreas exploradas desde os anos 1990 e outras ainda em atividade, com efeitos visíveis na paisagem:

  • Desmatamento nas áreas de extração;

  • Mudanças no relevo e na estrutura do solo;

  • Ruído constante das máquinas.

O estudo também encontrou jazidas desativadas sem nenhuma recuperação da área degradada, o que afeta o solo e os cursos d’água. Em alguns pontos, a extração avança perto de áreas de preservação permanente, o que reforça a importância de recuperar o terreno depois do uso.

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A cidade nasceu de uma doação de terras a Nossa Senhora do Carmo

Os primeiros moradores chegaram por volta de 1840, atraídos pelos garimpos da região. Segundo a tradição, uma fazendeira chamada Clara Chaves doou um terreno à santa, e ali surgiram as primeiras casas do Arraial do Carmo da Bagagem, ligado à vizinha Bagagem, hoje Estrela do Sul.

O município foi criado em 1882, instalado em 1889 e ganhou o nome atual em 1900, em homenagem aos carmelitas. Hoje, Monte Carmelo tem cerca de 48 mil habitantes, fica a 890 metros de altitude e abriga um campus universitário com cursos como agronomia, geologia e engenharia florestal.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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