Moinhos movidos a água ainda moem fubá às margens do rio em Curimataí, vilarejo mineiro que parece ter parado no tempo
Rodas d’água que ainda moem milho, ruas de terra e cachoeiras: um vilarejo do sertão mineiro onde o fubá ainda é feito como antigamente, à beira do rio
Escrito por:
Leonardo Coelho
Publicado em:
18/10/2025
Às margens do Rio Curimataí, uma roda d’água ainda gira para transformar milho em fubá, do mesmo jeito que se fazia séculos atrás. O vilarejo mineiro de Curimataí, no Norte de Minas Gerais, guarda esses moinhos entre ruas de terra, casas antigas e cachoeiras.
Como funcionam os moinhos de Curimataí?
Os moinhos históricos ficam às margens do Rio Curimataí e usam apenas a força da água para funcionar. Parte das estruturas originais segue em atividade, e o visitante pode ver de perto como o milho é moído.
O mecanismo é simples e não depende de energia elétrica, só do volume de água que desce pelo rio. O trabalho acontece em etapas encadeadas, nesta sequência:
a água do rio move a roda;
a roda faz girar um eixo;
o eixo movimenta as pedras;
as pedras moem o milho.
O que saía das pedras dos moinhos?
O milho moído dava origem a produtos que faziam parte da mesa de quem vivia na região, usados em diferentes preparos. Na saída das pedras, os moradores conseguiam tipos diferentes de farinha, de acordo com a moagem, como:
o fubá fino;
a canjiquinha, mais grossa;
outros derivados do milho.
No passado, essa produção alimentava moradores, pessoas escravizadas e animais, e também abastecia os garimpos da região de Diamantina. Segundo reportagem do jornal O Tempo, os cursos d’água do centro da vila foram construídos por escravizados justamente para levar água aos moinhos.
A Trilha dos Moinhos atravessa o cerrado
O caminho até os moinhos segue por uma estrada de terra no meio do cerrado, cruzando pequenos córregos. Ao longo do percurso, aparecem as estruturas originais, algumas ainda em funcionamento.
Um relato de guias locais descreve o Caminho dos Moinhos como uma trilha de cerca de 2 km, íngreme e com trechos de mato fechado. Por isso, vale fazer o percurso com alguém que conheça a região.


Casas tradicionais com telhados coloniais e córrego às margens de rua em Curimataí, MG - Foto: @praondevou


Casa antiga com portas de madeira, telhado colonial e carroça em Curimataí, MG - Foto: @praondevou
Quais cachoeiras ficam perto do vilarejo?
A água que move os moinhos também forma as belezas naturais do entorno. O Rio Curimataí é um dos maiores afluentes do Rio das Velhas, e seus córregos criam quedas e poços para banho.
Algumas cachoeiras ficam dentro da comunidade, outras pedem caminhada longa ou acompanhamento de guia. O volume de água também muda conforme as chuvas. Antes de escolher o passeio, vale conhecer as principais opções da região:
Cachoeira das Lavadeiras, dentro da comunidade, com poço de cerca de 4 metros de profundidade;
Cachoeira do Simão, de acesso fácil e poço raso;
Cachoeira do Brejinho, ou do Rio Preto, a cerca de 30 minutos de trilha;
Cachoeira de Cima, visitada só com guia, onde o banho é proibido porque a água abastece os moradores;
Cachoeira de Santa Rita, com cerca de 30 metros de queda e acesso difícil, em roteiro de dia inteiro;
Alto da Cachoeira, mirante com vista para o vale e as serras.
Por que o vilarejo parece ter parado no tempo?
As ruas de terra batida, com grama nas beiradas, e as casas com fachadas dos séculos 18 e 19 mantêm o desenho antigo da vila. Além dos moinhos, outras construções antigas ajudam a contar essa história, como:
o Curral da Contagem, do século 18, com paredes de pedra de cerca de 70 cm de espessura;
a Igrejinha de Nossa Senhora da Conceição;
a Rua do Rego, com um canal de água que passa pelos quintais;
os casarões antigos do centro;
os currais de pedra da região.
Curimataí surgiu na segunda metade do século 18, foi criada por decreto em 1832 e passou a pertencer a Buenópolis em 1938. Em 1817, o naturalista Saint-Hilaire registrou que era a única povoação do seu caminho pelo sertão com jardins.
Curimataí é porta de entrada para parques do sertão mineiro
O Parque Nacional das Sempre-Vivas protege cerca de 124 mil hectares de Cerrado. A visita depende de autorização do ICMBio, então vale se informar antes de montar o roteiro.
A região também tem a Serra do Cabral, com altitudes entre 900 e 1.300 metros. Quem quer estender a viagem pode incluir no roteiro:
as veredas de buritis do Parque Nacional das Sempre-Vivas;
as trilhas que saem do vilarejo;
a Serra do Cabral, com pelo menos cem sítios arqueológicos com pinturas rupestres.
+ Leia também: Qual é a cidade vizinha de Barbacena famosa por seu festival de frutas?
A viagem até Curimataí pede planejamento
O vilarejo é distrito de Buenópolis e fica a cerca de 300 km de Belo Horizonte, na região dos Grandes Sertões. O último trecho é feito por estrada de terra, a partir da sede do município.
Curimataí também é uma das portas de entrada para o Parque Nacional das Sempre-Vivas. Para aproveitar as trilhas com segurança, o melhor é contratar um guia local e reservar pelo menos dois dias para os passeios.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.


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