Miguel Burnier já teve mais de 5 mil moradores e hoje resiste como o maior distrito de Ouro Preto em território

Uma ferrovia e uma usina de ferro já levaram milhares de pessoas para viver ali. Hoje restam poucas centenas em um território enorme

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
10/08/2026

Antiga estação ferroviária de Miguel Burnier ao lado dos trilhos e das montanhas de Ouro Preto, MG
Antiga estação ferroviária de Miguel Burnier ao lado dos trilhos e das montanhas de Ouro Preto, MG

Antiga estação ferroviária de Miguel Burnier ao lado dos trilhos e das montanhas de Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza

Antes de virar um dos nomes menos conhecidos entre os distritos de Ouro Preto, Miguel Burnier chegou a reunir mais de 5 mil moradores em torno de uma ferrovia e de uma usina de ferro que movimentavam a região. Hoje o cenário é outro: o Censo de 2022 do IBGE registrou 643 habitantes no local. Mesmo com a queda populacional, o distrito segue sendo o maior de Ouro Preto em extensão territorial, com 196,45 quilômetros quadrados de área.

Onde fica Miguel Burnier e o que ele representa hoje dentro de Ouro Preto?

Miguel Burnier está a 40 quilômetros da sede de Ouro Preto, a uma altitude média de 1.172 metros. Apesar da distância e do isolamento, o distrito segue vinculado administrativamente ao município, que é mundialmente conhecido pelo conjunto arquitetônico colonial tombado pela Unesco.

Em termos de área, Miguel Burnier ocupa 196,45 quilômetros quadrados, segundo dados da Fundação João Pinheiro, o que faz dele o maior entre os distritos de Ouro Preto. O tamanho do território contrasta com o número reduzido de moradores registrados atualmente na região.

Como começou a ocupação dessa região?

Nos primeiros séculos de ocupação colonial, a área hoje ocupada por Miguel Burnier era conhecida como Região do Rodeio, nome que aparece inclusive em registros do cronista André João Antonil. O território era formado por fazendas e por mineradores de ouro, que exploravam principalmente as áreas de depressão do terreno.

Essas depressões, chamadas localmente de caldeirões, concentravam boa parte da atividade extrativa da época. O cenário da antiga Região do Rodeio reunia:

  • fazendas dedicadas à mineração de ouro;

  • os caldeirões, depressões naturais usadas na extração;

  • pequenos núcleos populacionais formados ao redor das lavras.

A ferrovia foi o que transformou Miguel Burnier em polo econômico

A partir da década de 1880, a região ganhou uma dinâmica completamente diferente. A Estação Ferroviária de Miguel Burnier foi inaugurada em 17 de junho de 1884, com nome em homenagem ao engenheiro Miguel Noel Nascentes Burnier, então diretor da Estrada de Ferro Dom Pedro II. Pouco depois, em 1893, o comendador Carlos Wigg comprou a maior parte das terras do distrito e implantou uma usina de produção de ferro.

O crescimento ligado à ferrovia e à siderurgia foi tanto que o povoado se tornou distrito em 1911, recebendo o nome atual apenas em 1948. Na época de maior movimento, a região chegou a contar com quatro estações ferroviárias:

  • Miguel Burnier;

  • Crockat de Sá;

  • Engenheiro Corrêa;

  • Hargreaves.

Que marcos religiosos restaram desse período de crescimento?

A esposa do comendador Carlos Wigg mandou erguer a Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora de Calastróis, instituída como paróquia em 16 de julho de 1918. A construção reforçava o papel do distrito como um núcleo urbano organizado, e não apenas como um ponto de passagem da ferrovia.

Anos depois, as irmãs da Beneficência Popular do Coração de Jesus se instalaram na região e solicitaram a construção de um novo templo, inaugurado em 1934 em homenagem ao Sagrado Coração de Jesus. Em 1946, o mesmo grupo religioso ergueu o Orfanato Monsenhor Horta, ampliando a estrutura social do distrito.

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Por que a população despencou e o que resta da cidade hoje?

O declínio de Miguel Burnier está diretamente ligado ao fim das atividades que sustentaram seu crescimento. A ferrovia entrou em decadência a partir dos anos 1990 e foi definitivamente encerrada em 1996, mesmo ano em que a usina siderúrgica de Barra Mansa parou de funcionar na região. Já no início dos anos 2000, a chegada da Gerdau Açominas intensificou o processo de esvaziamento populacional.

O resultado desse processo aparece nos números: o distrito que já teve mais de 5 mil moradores registrou 643 habitantes no Censo de 2022 do IBGE. Entre os efeitos mais citados por pesquisadores que estudam a região estão:

  • o rebaixamento do lençol freático, que secou córregos e nascentes;

  • o furto de obras e imagens sacras do patrimônio local;

  • a destruição de estruturas históricas ligadas à ferrovia e à antiga usina;

  • a perda progressiva do patrimônio cultural imaterial do distrito.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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