Mateus Leme: a cidade que nasceu de uma carta sesmaria de 1710 e guarda tradições que a capital mineira já perdeu

Um documento de mais de 300 anos marca o início de uma cidade mineira que ainda vive festas e costumes que a capital do estado deixou para trás

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
11/08/2026

Uma carta de sesmaria datada de 1710 é o documento mais antigo que menciona o Morro do Mateus Leme, muito antes de a região se tornar um município e muito antes de Belo Horizonte existir como capital de Minas Gerais. A cidade que herdou esse nome carrega até hoje tradições populares que se perderam na vizinha capital ao longo do processo de urbanização acelerada. Festas como a Cavalhada e o Congado seguem no calendário anual de Mateus Leme, mantendo viva uma memória que remonta ao período colonial.

O que a carta de sesmaria de 1710 revela sobre a origem de Mateus Leme?

O documento mais antigo relacionado à região é uma carta de sesmaria de 1710, que já fazia referência ao Morro do Mateus Leme. Esse tipo de concessão de terras era comum durante o período colonial e costuma servir de base para historiadores reconstruírem a ocupação inicial de diferentes pontos de Minas Gerais.

Outros documentos, produzidos décadas depois, confirmam a continuidade da ocupação na mesma área. Três registros ajudam a montar essa linha do tempo:

  • 1710: carta de sesmaria que menciona o Morro do Mateus Leme;

  • 1739: documento que cita o Arraial Morro de Mateus Leme;

  • 1745: novo registro reforçando a existência do arraial.

Quem foi Mateus Leme, o bandeirante que dá nome à cidade?

Segundo o historiador Waldemar Barbosa, Mateus Leme foi um bandeirante paulista que percorreu a região de Minas Gerais antes de seguir para a Bahia, onde combateu povos indígenas entre 1715 e 1717. O relato o coloca como um dos muitos bandeirantes que avançaram pelo interior do estado em busca de ouro e pedras preciosas, processo que também envolveu a captura de indígenas e a ocupação forçada de terras.

Já a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, publicada pelo IBGE, apresenta uma versão complementar sobre o bandeirante:

  • é descrito como genro de Borba Gato;

  • teria desbravado, em meados do século XVIII, as terras que hoje formam o município com seu nome.

Letreiro “Eu amo Mateus Leme” ao lado do coreto na praça central de Mateus Leme, MG
Letreiro “Eu amo Mateus Leme” ao lado do coreto na praça central de Mateus Leme, MG

Letreiro “Eu amo Mateus Leme” ao lado do coreto na praça central de Mateus Leme, MG - Foto: Igor Souza

Capela histórica de fachada branca, detalhes em pedra e portas azuis entre palmeiras em Mateus Leme,
Capela histórica de fachada branca, detalhes em pedra e portas azuis entre palmeiras em Mateus Leme,

Capela histórica de fachada branca, detalhes em pedra e portas azuis entre palmeiras em Mateus Leme, MG - Foto: Igor Souza

A freguesia deu lugar ao município ainda no século XX

A freguesia de Santo Antônio do Morro de Mateus Leme foi criada em 1832, consolidando administrativamente o povoado que já existia havia mais de um século. O nome, na época, ainda fazia referência tanto ao padroeiro quanto à formação geográfica original da região.

A emancipação política só ocorreu mais de cem anos depois, em 1938, quando Mateus Leme se tornou oficialmente um município autônomo. Esse intervalo longo entre os primeiros registros e a emancipação ajuda a explicar a profundidade das tradições preservadas até hoje.

Quais tradições populares a cidade ainda preserva?

Mateus Leme mantém um calendário de festas populares que combina elementos religiosos e folclóricos raramente vistos com a mesma intensidade em centros urbanos maiores. A Cavalhada, uma das mais conhecidas, reencena a disputa medieval entre mouros e cristãos, com grupos representando os dois lados em uma apresentação a cavalo.

Além da Cavalhada, outras manifestações culturais seguem presentes no dia a dia da cidade:

  • a Festa de Junho, dedicada a Santo Antônio, São Sebastião e à própria Cavalhada;

  • o Congado;

  • a Folia de Reis;

  • a Festa de Nossa Senhora da Piedade, padroeira da cidade, realizada em setembro.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

O que visitar no centro histórico da cidade?

A Igreja Matriz de Santo Antônio teve sua construção iniciada na segunda metade do século XVIII e concluída em 1790. O templo segue predominantemente o estilo rococó, com talhas policromadas e pinturas no forro da capela-mor que resistem desde o período colonial.

Outro ponto de referência é a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, de arquitetura simples e colonial, que reforça as raízes históricas do município. Caminhar pelas ruas estreitas do centro histórico, entre essas construções antigas, é a forma mais direta de entender a origem que a cidade carrega desde a carta de sesmaria de 1710.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

Posts que você pode gostar

Todos os Direitos Reservados © 2024

Contato e parcerias: olharesporminasoficial@gmail.com