Mais de 10 mil fósseis de animais pré-históricos já foram documentados em Uberaba, cidade de 337 mil habitantes
Prédios, rodovias e até um shopping já viraram escavação científica nesta cidade mineira, onde o subsolo guarda animais de 80 milhões de anos. Saiba onde ver
Escrito por:
Igor Souza
Publicado em:
29/10/2026
Em Uberaba, uma obra de conjunto habitacional pode virar escavação científica de uma semana para outra. A cidade de 337 mil habitantes, segundo o Censo de 2022, já tem mais de 10 mil fósseis em seu território, de dinossauros a tartarugas e crocodilos extintos. É um volume raro, que ajuda a explicar o título de geoparque mundial da Unesco.
Como uma cidade chega a mais de 10 mil fósseis?
A resposta está debaixo dos pés. Boa parte do município se formou sobre rochas do Cretáceo Superior, período que terminou há cerca de 66 milhões de anos. Os fósseis em Uberaba têm, em geral, entre 80 e 66 milhões de anos e vêm de animais que viviam em uma paisagem muito diferente da atual.
Para que um osso chegue inteiro até os dias de hoje, as condições precisam ser muito específicas. Em Uberaba, três fatores, somados ao longo de milhões de anos, explicam por que tanto material resistiu e continua aparecendo:
A região alternava planícies de rios, canais e lagos rasos.
Os sedimentos cobriam os restos dos animais rapidamente, o que favorecia a fossilização.
Obras urbanas e rurais expõem com frequência as camadas onde esses restos ficaram guardados.
A maior parte das descobertas aconteceu por acaso
Muitos achados não vieram de expedições planejadas, mas de máquinas abrindo terreno para construir casas, ruas e estradas. A cidade cresceu sobre camadas ricas em fósseis, e alguns episódios mostram como essa convivência entre obra e ciência se repete há décadas:
Entre os anos 1950 e 1970, escavações para prédios, estradas e poços revelaram os primeiros ossos na área urbana.
Em 2014, a construção de um shopping revelou dois esqueletos de titanossauros, origem do Geossítio Santa Rita.
Entre 2022 e 2023, a obra do conjunto habitacional Tamareiras rendeu quase 300 fósseis, presos em mais de 250 blocos de rocha.
Em março de 2025, a terraplenagem da BR-050 expôs um fóssil de cerca de 60 centímetros, provavelmente de titanossauro.
O achado do Tamareiras levou o geólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro a apontar Uberaba como o maior sítio paleontológico urbano do Brasil. Para ele, a descoberta foi a mais importante já feita dentro dos limites da cidade, pela variedade de grupos de animais reunidos em um único ponto.
Quais animais aparecem nesse acervo?
Os dinossauros são as estrelas, principalmente os titanossauros, herbívoros de pescoço e cauda longos. O mais famoso é o Uberabatitan ribeiroi, apontado como o maior dinossauro já encontrado no Brasil e considerado um dos últimos titanossauros do planeta.
Mas o acervo vai muito além dos gigantes. Ao lado deles, as rochas da região guardam uma fauna variada, de animais pequenos e grandes, que ajuda os pesquisadores a reconstruir como era o ambiente daquele período:
Crocodiliformes, parentes extintos dos crocodilos.
Tartarugas de água doce.
Lagartos e possíveis rãs.
Peixes e invertebrados.
Conchas de moluscos de água doce, além de cascas de ovos de dinossauro.


Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar o ambiente da região no período Cretáceo


Ilustração de bancada de laboratório com bloco de rocha e osso fóssil sendo preparado - Foto: Igor Souza
Onde ficam guardados os fósseis encontrados?
O destino principal é o Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, em Peirópolis, a cerca de 25 km do centro. Ligado à Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), o centro reúne cerca de 2 mil fósseis do Cretáceo, material usado como base para pesquisas científicas sobre o período.
Nem todo fóssil documentado fica pronto para exposição. Muitos seguem presos em blocos de rocha, à espera de preparação. É um trabalho lento: cada bloco precisa ser limpo à mão, com ferramentas delicadas, antes que os pesquisadores consigam identificar a espécie.
Encontrar um fóssil não dá direito de levá-lo para casa
Pela lei brasileira, os fósseis pertencem à União, e a coleta depende de autorização da Agência Nacional de Mineração. Isso vale para qualquer terreno, inclusive propriedades particulares. Retirar um osso por conta própria pode destruir informações que só aparecem na posição original em que ele foi achado.
O caminho correto é interromper a escavação no ponto do achado e avisar especialistas, como os pesquisadores de Peirópolis. Nos casos recentes, como o do conjunto habitacional e o da rodovia, o material foi retirado por equipes técnicas e encaminhado para análise.
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O que dá para ver de perto em Uberaba?
Boa parte dos fósseis fica em laboratórios e reservas técnicas, mas quem visita a cidade consegue acompanhar parte desse patrimônio em lugares abertos ao público. Os principais pontos ligados aos fósseis são:
O Museu dos Dinossauros, em Peirópolis, com entrada gratuita.
O Geossítio Santa Rita, na área urbana, criado após o achado de 2014.
O próprio distrito de Peirópolis, onde as primeiras descobertas aconteceram, em 1945.
A melhor época para circular pelo geoparque é o período seco, entre maio e setembro. Como horários podem mudar, vale confirmar a programação do museu antes de sair, principalmente em feriados e fins de semana.
Igor Souza
Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.


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