Mateus Leme tem uma igreja atribuída a Aleijadinho e leva o nome de um bandeirante paulista

Uma cidade perto de Belo Horizonte carrega o nome de um bandeirante e guarda uma igreja de pedra com autoria atribuída a um dos maiores artistas do Brasil colonial

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
14/09/2026

A 61 quilômetros de Belo Horizonte, uma cidade carrega no próprio nome a lembrança de um bandeirante que ajudou a desbravar boa parte do interior de Minas Gerais no início do século XVIII. Mateus Leme também guarda uma igreja de pedra cuja autoria intriga historiadores até hoje, já que sua construção é atribuída ao próprio Aleijadinho. Entre nome, arquitetura e história, o município reúne camadas que vão muito além do que aparenta à primeira vista.

Mateus Leme carrega o nome de um bandeirante que desbravou a região no século XVIII

O nome da cidade homenageia Mateus Leme, bandeirante paulista que participou das expedições lideradas por Fernão Dias e por seu genro Borba Gato. Entre 1715 e 1717, ele percorreu a região em busca de ouro e pedras preciosas, contribuindo também para a formação de outros povoados mineiros, como Betim e Itatiaiuçu. Uma carta de sesmaria de 1710 já mencionava o local como Morro do Mateus Leme. Esse documento é considerado um dos registros mais antigos sobre a presença de colonizadores na região.

O povoado que se formou ali recebeu inicialmente o nome de Arraial do Morro de Mateus Leme, denominação que aparece em documentos de 1739 e 1745. Apesar da atividade mineradora intensa, o local nunca chegou a ser elevado à condição de freguesia durante o século XVIII. Só em 1938 a região conquistaria autonomia administrativa, desmembrada do município de Pará de Minas.

Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com fachada histórica branca, detalhes em pedra e portas azuis
Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com fachada histórica branca, detalhes em pedra e portas azuis

Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com fachada histórica branca, detalhes em pedra e portas azuis - Foto: Igor Souza

Por que a Igreja Matriz de Santo Antônio é atribuída a Aleijadinho?

A Igreja Matriz de Santo Antônio é considerada uma das construções mais notáveis de Mateus Leme, com paredes de pedra que chegam a um metro de espessura. Sua conclusão está registrada em 1790, data que aparece gravada no frontispício da fachada. Alguns elementos ajudam a entender por que a autoria é associada a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho:

  • Estilo arquitetônico fora do padrão regional das igrejas mineiras;

  • Construção feita a partir do esforço de uma única pessoa, não de uma irmandade;

  • Paredes de pedra com um metro de espessura, técnica pouco comum na região.

Diferente da maioria das igrejas mineiras da época, essa construção não nasceu de uma irmandade religiosa organizada, mas do esforço isolado de uma única pessoa. Segundo pesquisadores locais, é possível que a obra tenha sido erguida em agradecimento a uma graça alcançada. Esse conjunto de particularidades reforça a hipótese de que Aleijadinho tenha participado do projeto.

Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com fachada branca, detalhes em pedra e portas e janelas azuis
Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com fachada branca, detalhes em pedra e portas e janelas azuis

Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com fachada branca, detalhes em pedra e portas e janelas azuis - Foto: Igor Souza

O que torna essa igreja diferente das demais construções mineiras da época?

Já existia uma capela dedicada a Santo Antônio no arraial antes mesmo da construção atual, com registros de um capelão em 1748. A reconstrução do templo, segundo pesquisadores, teria sido iniciada nessa mesma época, possivelmente por iniciativa do minerador Alferes João Francisco da Silva. Essa origem ligada a um único financiador ajuda a explicar o estilo particular da obra.

O reconhecimento histórico da igreja levou ao seu tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, em 1977. Essa proteção garante que a construção mantenha suas características originais, incluindo a área ao redor do templo. Dois marcos resumem bem essa trajetória de reconhecimento oficial:

  • Tombamento pelo IEPHA em 2 de junho de 1977;

  • Proteção da área de entorno da igreja, incluindo espaços públicos próximos.

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Como a cidade se desenvolveu depois do ciclo do ouro?

Com o enfraquecimento da mineração ao longo do século XVIII, a economia de Mateus Leme passou a depender cada vez mais da agricultura e da pecuária. Esse processo de transição sustentou o crescimento gradual da comunidade até a emancipação política em 1938. Hoje, o município soma cerca de 37.841 habitantes e reúne diferentes atrativos que vão além da história colonial:

  • O Morro de Mateus Leme, com biodiversidade e espaço para esportes radicais;

  • Cachoeiras espalhadas pela zona rural do município;

  • O distrito de Azurita, conhecido pela relação histórica com o trem;

  • A instalação do primeiro radar meteorológico de Minas Gerais.

Essas belezas naturais e curiosidades históricas convivem lado a lado com a tradição religiosa da cidade, especialmente durante a Festa de Santo Antônio, São Sebastião e Cavalhada, realizada todo mês de junho. A combinação entre fé, natureza e história ajuda a manter viva a identidade de Mateus Leme. Assim, o município segue relevante tanto para moradores quanto para quem visita a região a partir de Belo Horizonte. Quem visita a cidade também pode conhecer trechos preservados de mata nativa e pequenas comunidades rurais que mantêm hábitos antigos do interior mineiro.

Detalhe da fachada da Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com torres, sinos, cruz e ornamentos pedra
Detalhe da fachada da Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com torres, sinos, cruz e ornamentos pedra

Detalhe da fachada da Igreja Matriz de Mateus Leme, MG, com torres, sinos, cruz e ornamentos em pedra - Foto: Igor Souza

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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