Ladainha: o que aconteceu com a cidade mineira depois que o trem foi embora

Uma decisão federal de 1966 arrancou os trilhos e a economia de um município do Vale do Mucuri. Seis décadas depois, túneis e estações continuam de pé. Conheça

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
02/08/2026

Estação ferroviária de Ladainha com jardim e árvores no centro da cidade, MG
Estação ferroviária de Ladainha com jardim e árvores no centro da cidade, MG

Estação ferroviária de Ladainha com jardim e árvores no centro da cidade, MG - Foto: Igor Souza

Existe uma data exata em que Ladainha parou de crescer: 1966. Naquele ano, o governo militar desativou a Estrada de Ferro Bahia-Minas e mandou retirar os trilhos que cortavam o município, no Vale do Mucuri. A cidade tinha nascido por causa daquela ferrovia meio século antes e não tinha plano B. O resultado é um dos casos de esvaziamento mais documentados do interior mineiro — e ele ainda está visível na paisagem.

Por que uma ferrovia decidia o destino de uma cidade inteira?

Ladainha simplesmente não existia antes dos trilhos. O povoado se formou entre 1914 e 1915, com a chegada dos trabalhadores que tocavam o prolongamento da Bahia-Minas, em terreno doado pelo coronel José Ribeiro de Oliveira, empreiteiro da obra. Cresceu ao redor das oficinas.

Isso significa que a dependência ia muito além do transporte de passageiros. A ferrovia respondia, ao mesmo tempo, por:

  • Emprego direto nas oficinas e na manutenção da linha;

  • Escoamento da produção agrícola de toda a região;

  • Ligação com Teófilo Otoni e com o sul da Bahia;

  • Moradia, já que boa parte das casas pertencia à própria empresa.

A decisão de 1966 veio de fora

O fechamento nunca foi discussão local. A Bahia-Minas era tratada como deficitária, e a desativação foi determinada pelo governo federal, que não se limitou a encerrar a operação: mandou arrancar os trilhos do leito. Sem estrutura, nem sequer restava a hipótese de retomada.

O efeito foi imediato e severo em toda a região. As oficinas fecharam, os empregos sumiram e as cidades que existiam em função da linha entraram em declínio ao mesmo tempo. Ladainha era, talvez, a que mais dependia do trem.

O que acontece com uma cidade quando o comércio perde o motivo de existir?

Sem escoamento e sem folha de pagamento, o comércio de rua definha rápido. Prédios ligados à ferrovia ganharam outros usos ou foram abandonados. A estação de passageiros virou a rodoviária da cidade: é o mesmo prédio, com outra função e outro público.

Outros perderam qualquer serventia, como o Caixotão, construção de tábuas que funcionou como cinema nos anos de movimento e depois virou salão de baile. A relação do que mudou de uso é longa:

  • A estação, hoje ponto de ônibus intermunicipal;

  • O leito da linha, transformado em estrada de terra;

  • As vilas de operários, que viraram povoados;

  • Os pontilhões, usados por moradores como travessia;

  • O Caixotão, sem função definida;

  • As casas da companhia, hoje residências comuns.

Para onde foi a população que sobrou?

Quem podia sair, saiu. A migração para São Paulo, para o Espírito Santo e para o eixo de Teófilo Otoni virou rotina no Vale do Mucuri, e a queda populacional atravessou décadas. No Censo de 2022, o município registrou pouco mais de 14 mil habitantes.

O exemplo mais claro é Concórdia do Mucuri, distrito de Ladainha e o mais populoso do Vale. Entre 2010 e 2022, perdeu quase mil moradores, queda de aproximadamente 17%. Na prática, isso aparece em duas coisas:

  • Casas fechadas em ruas inteiras;

  • População idosa proporcionalmente maior.

A história de Ladainha virou pesquisa e virou filme

O caso não ficou restrito à memória dos moradores antigos. Em 2024, a Revista Espinhaço publicou um estudo sobre a decadência socioeconômica e a condição demográfica de Ladainha no período posterior à ferrovia, com título tirado de uma imagem que a própria cidade repete: casas esquecidas, viúvas nos portais.

A Bahia-Minas também virou documentário, em 2023, com "Estrada Natural: vida e morte da Estrada de Ferro Bahia e Minas". Vale como preparação para quem pretende conhecer:

  • O estudo publicado na Revista Espinhaço;

  • O documentário dirigido por Emerson Gontijo;

  • O livro "Memórias de Ladainha", de Arysbure Batista Eleutério.

O que sobrou de pé no lugar dos trilhos?

A infraestrutura da ferrovia era de pedra, ferro e rocha escavada, e não desapareceu com a retirada dos dormentes. Os túneis abertos dentro da montanha continuam abertos. Os pontilhões metálicos seguem atravessando córregos. As estações resistiram.

Hoje dá para percorrer parte desse traçado de carro ou de bicicleta, passando exatamente onde o trem passava. Não há bilheteria, portaria nem sinalização turística consolidada — o percurso ainda é conhecimento de morador, não produto montado.

+ Leia também: O cenário que você precisa visitar pelo menos uma vez na vida

Vale conhecer uma cidade que perdeu o trem?

Depende do que se procura. Ladainha não tem estrutura turística pronta, o acesso é feito por Teófilo Otoni e a hospedagem é limitada a pousadas simples. Quem vai atrás de conforto vai se decepcionar. Quem vai atrás de história encontra bastante.

Poucos lugares no Brasil mostram com tanta clareza o que uma decisão administrativa faz com um território. Percorrendo o antigo leito, o roteiro se monta sozinho:

  • Túneis escavados na rocha;

  • Pontilhões de ferro originais;

  • Cachoeira do Seu Wilson, às margens do traçado;

  • Cachoeira do Icari, no mesmo trecho;

  • A Pedra de Ladainha, visível de quase toda a cidade.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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