Ituiutaba ficou conhecida como a capital do arroz nos anos 1950 e chegou a colher 600 mil sacas do grão em um só ano

Caminhões vindos do Nordeste, máquinas de beneficiar grãos e uma cidade que dobrou de tamanho em duas décadas no auge de uma lavoura no Triângulo Mineiro

Escrito por:
Igor Souza

Publicado em:
31/10/2026

Em 1955, as lavouras de Ituiutaba renderam 600 mil sacas de arroz de 60 quilos, o equivalente a cerca de 36 mil toneladas do grão. O número colocou o município do Pontal do Triângulo Mineiro no topo da produção estadual e ajudou a criar um apelido que marcou uma geração inteira de moradores: capital do arroz.

Como Ituiutaba ganhou o título de capital do arroz?

O plantio em grande escala começou no fim dos anos 1940 e transformou o arroz no principal motor da economia local. No início da década de 1950, Ituiutaba já era o maior produtor do grão em Minas Gerais, e o título de capital do arroz foi reconhecido pelo IBGE nas décadas de 1950 e 1960.

O ano de 1955 resume bem o tamanho daquele ciclo. Os dados da safra mostram como o arroz dominava o campo, deixando bem para trás o milho, segundo colocado com 400 mil sacas:

  • Cerca de 38.720 hectares plantados;

  • 600 mil sacas de 60 quilos colhidas;

  • Mais da metade de todo o valor da produção agrícola do município.

Quem trabalhava nas lavouras de arroz?

Faltava gente para dar conta de tanta terra. A solução encontrada pelos fazendeiros foi trazer trabalhadores do Nordeste, principalmente do Rio Grande do Norte e da Paraíba. A chegada em massa aconteceu entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1950, em caminhões conhecidos como pau-de-arara.

A viagem era paga pelos fazendeiros, e os migrantes trabalhavam nas lavouras para quitar essa dívida. Apesar do papel decisivo na colheita, eles quase não apareciam nos jornais da época, e as poucas menções costumavam ser negativas. Pesquisas recentes vêm resgatando essa história a partir de depoimentos de quem viveu o período.

A cidade cresceu no ritmo das colheitas

O ciclo do arroz mudou o tamanho e o perfil do município. Ao contrário do que acontecia em boa parte do país, muita gente se mudou para a zona rural em busca de trabalho nas fazendas. Os números dos censos ajudam a enxergar essa transformação:

  • 1940: 35.052 habitantes, sendo apenas 4.356 na cidade;

  • 1950: 53.240 habitantes;

  • 1960: 71.004 habitantes;

  • 1970: 64.656 habitantes, já com 47.114 na área urbana.

Para dar conta da produção, as máquinas de beneficiar arroz se espalharam pelo campo e pela cidade desde os anos 1930 e 1940. Eram elas que descascavam e preparavam o grão para a venda, e por muito tempo fizeram parte da paisagem local.

Ilustração de sacos de juta com arroz ao lado de lavoura madura no fim da tarde
Ilustração de sacos de juta com arroz ao lado de lavoura madura no fim da tarde

Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar uma colheita de arroz nos anos 1950

Ilustração de antiga máquina de beneficiar arroz em galpão de madeira iluminado
Ilustração de antiga máquina de beneficiar arroz em galpão de madeira iluminado

Reconstituição artística criada por inteligência artificial para representar uma máquina de beneficiar arroz dos anos 1950

Por que o ciclo do arroz chegou ao fim?

O declínio veio aos poucos. A população rural começou a cair a partir dos anos 1960, com o êxodo para a cidade e as mudanças na forma de produzir no campo. Alguns acontecimentos marcaram essa virada e ajudam a contar como o município mudou de rumo:

  • 1961: uma praga de lagartas atinge as lavouras de arroz e milho, e a prefeitura pede ajuda aos governos estadual e federal;

  • Anos 1960: a população rural diminui de forma contínua;

  • Meados dos anos 1970: termina o ciclo do arroz;

  • Décadas seguintes: a cana-de-açúcar se espalha por antigas áreas de pasto, milho e soja;

  • Hoje: o município se destaca como polo de produção de etanol.

Como surgiu a cidade que virou capital do arroz?

A origem está numa capela dedicada a São José, erguida por volta de 1832 às margens do Rio Tijuco. O povoado que cresceu ao redor foi chamado de Arraial de São José do Rio Tijuco e, em 16 de setembro de 1901, virou Vila Platina. O nome atual, de origem tupi, só veio em 1915. Durante o ciclo do arroz, vários distritos ganharam autonomia:

  • Santa Vitória, em 1948;

  • Capinópolis, em 1953;

  • Ipiaçu, Gurinhatã e Cachoeira Dourada, em 1962.

Com esses desmembramentos, o território encolheu, mas Ituiutaba manteve o papel de centro de comércio e serviços do Pontal do Triângulo, além de sediar a diocese da região.

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A memória do arroz ainda está na cidade

Quem visita Ituiutaba encontra marcas desse passado no centro. O Museu de Artes de Ituiutaba funciona na antiga Casa da Cultura, prédio tombado pelo município em 1999, e reúne fotos, documentos e objetos que ajudam a contar a história local, das origens às transformações do século XX.

A Catedral de São José, sede da diocese, domina a paisagem do centro e leva o nome do mesmo santo da capela que deu origem à cidade. Para completar o passeio, o Parque do Goiabal é o espaço verde mais tradicional, e a Casa do Artesão reúne o artesanato produzido pelos moradores.

Igor Souza

Igor Souza é fotógrafo, engenheiro civil e criador de conteúdo especializado em turismo, com olhar atento para os encantos de Minas Gerais. Une técnica e sensibilidade para retratar paisagens, construções históricas e experiências autênticas pelo interior mineiro. Além da atuação na engenharia, é apaixonado por contar histórias através de imagens e palavras, valorizando a cultura, a fé e a simplicidade de cada lugar.

Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare
Foto do autor da matéria Igor Souza, sorrindo, com os braços cruzados, blusa polo azul escuro e pare

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