Glaura só recebeu esse nome em 1943, em homenagem a um poema do poeta ouro-pretano Manoel Inácio da Silva Alvarenga

Um poema escrito por um poeta preso por conspiração deu nome a um distrito histórico que ainda guarda o apelido antigo entre os moradores

Escrito por:
Leonardo Coelho

Publicado em:
19/08/2026

Uma canção de louvor à natureza brasileira, escrita por um poeta preso por conspirar contra a Coroa, deu nome a um dos distritos mais antigos de Ouro Preto. Batizado como Glaura pelo Decreto-Lei 1.058, de dezembro de 1943, o povoado homenageia o poema homônimo do ouro-pretano Manoel Inácio da Silva Alvarenga, integrante da Escola Mineira. Antes disso, por mais de dois séculos, o distrito era conhecido como Casa Branca, nome que muitos moradores ainda usam no dia a dia. Cercado por belezas naturais ligadas ao berço mineiro do estado, Glaura reúne história, fé e paisagem entre as riquezas de Minas Gerais que seguem pouco exploradas pelo turismo.

Por que o povoado ainda é chamado de Casa Branca por muitos moradores?

O nome oficial mudou em 1943, mas o hábito de décadas resistiu entre a população local. Até hoje, é comum ouvir moradores e visitantes se referindo ao distrito simplesmente como Casa Branca, ignorando a denominação usada nos documentos oficiais.

Essa força do nome antigo tem explicação histórica, já que o povoado passou por diferentes denominações antes de chegar ao nome atual:

  • Santo Antônio das Minas de Balthazar de Godoy;

  • Santo Antônio do Campo de Casa Branca;

  • Casa Branca.

A fome que atingiu Vila Rica por volta de 1700 deu origem ao povoado

Segundo o historiador Diogo de Vasconcelos, o arraial de Casa Branca surgiu entre 1700 e 1701, quando a fome atingiu a região de Vila Rica e da Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, atual Mariana. Famílias inteiras se dispersaram em busca de terras mais férteis para plantio.

Esse movimento populacional não ficou restrito a um único ponto da região, espalhando-se por diferentes direções em busca de solo fértil. Esse deslocamento deu origem a diversos povoados na região, além de Casa Branca:

  • Cachoeira do Campo;

  • São Bartolomeu;

  • Acuruí, também chamado de Rio de Pedras;

  • Casa Branca.

Quem foi o poeta que deu nome a Glaura em 1943?

Manoel Inácio da Silva Alvarenga nasceu em Ouro Preto entre 1749 e 1814 e se tornou um dos nomes da Escola Mineira, movimento literário ligado ao arcadismo. Formado em Coimbra, viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde liderou um clube literário que acabou levando-o à prisão por quase três anos, acusado de conspiração contra a Coroa.

O poema Glaura, publicado em 1799 em Lisboa, é uma exaltação à natureza brasileira, narrada por um pastor em estilo idílico, típico dos árcades. Foi essa obra que inspirou a Câmara de Ouro Preto a rebatizar o antigo povoado de Casa Branca.

Como a Matriz de Santo Antônio resume o barroco colonial local?

A construção da igreja começou em 1758 e terminou em 1764, data registrada na cruz do frontispício, sob encomenda da Irmandade do Santíssimo Sacramento. O mestre de obras foi Francisco de Lima Cerqueira, responsável também por construções religiosas importantes em outras cidades históricas de Minas.

A estrutura segue o estilo jesuítico, retilíneo e imponente, com alto frontão, duas torres sineiras e alvenaria de pedra. A ornamentação interna, concentrada em altares e retábulos barrocos do estilo Dom João V, ajudou a garantir o tombamento do templo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1962.

Igreja Matriz de Glaura, fachada colonial, portas azuis, detalhes em pedra, distrito de Ouro Preto
Igreja Matriz de Glaura, fachada colonial, portas azuis, detalhes em pedra, distrito de Ouro Preto

Igreja Matriz de Glaura com fachada colonial, portas azuis e detalhes em pedra, distrito de Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza

Igreja Matriz de Glaura com torres, fachada colonial e detalhes em pedra, distrito de Ouro Preto, MG
Igreja Matriz de Glaura com torres, fachada colonial e detalhes em pedra, distrito de Ouro Preto, MG

Igreja Matriz de Glaura com torres, fachada colonial e detalhes em pedra, distrito de Ouro Preto, MG - Foto: Igor Souza

Personagens ilustres já passaram pelas ruas de Glaura

A posição do distrito, em uma antiga rota que ligava Vila Rica à Comarca do Rio das Velhas, atraiu viajantes de peso ao longo dos séculos. Essas passagens ajudam a explicar por que Glaura preserva tanto interesse histórico até os dias de hoje.

Registros preservados pela região confirmam essas visitas ilustres ao longo de diferentes décadas. Ao menos dois pares de visitantes marcaram essa trajetória:

  • Os imperadores Dom Pedro I, em 1830, e Dom Pedro II, em 1881;

  • Os naturalistas Auguste de Saint-Hilaire, em 1817, e Richard Burton, em 1868.

Quais tradições e sabores marcam a identidade de Glaura?

As festas religiosas seguem como um dos pilares da vida comunitária no distrito, reunindo moradores e visitantes em datas fixas do calendário. Bandas de música de distritos vizinhos costumam acompanhar as procissões, com apresentações no adro da igreja.

Cada um desses elementos carrega parte da memória afetiva construída ao longo de gerações no distrito. Entre os itens mais citados dessa identidade local estão:

  • Festa de Santo Antônio;

  • Festa do Rosário;

  • Dança das Fitas, apresentada por um grupo folclórico local;

  • Doces e geleias produzidos na região;

  • Vinho de jabuticaba, fruta abundante em Glaura.

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Onde fica Glaura e quais são seus sub-distritos?

O distrito está a cerca de 26 quilômetros da sede de Ouro Preto, a uma altitude média de 1.038 metros. A região reúne pequenos núcleos populacionais que ajudam a compor a paisagem rural ao redor da sede distrital.

Cada um deles tem distância própria em relação à sede do distrito. Fazem parte desse conjunto os seguintes sub-distritos:

  • Soares;

  • Rio das Velhas;

  • Engenho D'Água;

  • Vale do Tropeiro;

  • Ana de Sá;

  • Bandeirinha.

Leonardo Coelho

Leonardo Coelho é um viajante e entusiasta de experiências culturais que revelam a alma do mundo, mantendo sempre vivo o orgulho de suas raízes mineiras. Busca enxergar a física e a química nas nuances da natureza, transformando o movimento da vida em descobertas. Apaixonado pela estrada, encontra seu propósito ao transmitir cada detalhe, sabor e fenômeno que presencia, conectando pessoas através da arte de explorar e sentir o real.

Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo
Foto do autor Leonardo Coelho sorrindo, com terno e parede branca ao fundo

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